*Por Emídio Brasileiro, Educador, Jurista e Cientista da Religião

O Livro de Ezequiel constitui o trigésimo terceiro livro da Bíblia e o quinto no grupo conhecido como Profetas Maiores do Antigo Testamento. Seu autor, o profeta e sacerdote Ezequiel, filho de Buzi, foi deportado para a Babilônia em 597 a.C., juntamente com o rei Joaquim e a elite de Jerusalém, quando Nabucodonosor iniciou o cativeiro do povo de Judá. Estabelecido entre os exilados às margens do rio Quebar, Ezequiel exerceu ali seu ministério profético por cerca de duas décadas, entre os anos de 593 e 571 a.C., procurando interpretar o sentido da tragédia nacional e restaurar no povo a consciência da presença divina.

O livro de Ezequiel destaca os grandes eixos da teologia bíblica: a santidade de Deus, a responsabilidade individual e a promessa de uma restauração escatológica. Ao mesmo tempo, revela o drama existencial do profeta, mediador entre o juízo e a misericórdia, entre a ruína da antiga Jerusalém e a visão da nova criação. É, assim, uma das mais vigorosas expressões do profetismo hebraico e da esperança que transcende a história.

Estrutura do livro

É uma das obras mais complexas e simbólicas da literatura bíblica. É composta de 48 capítulos e dividida em três partes:

I – Juízo sobre Jerusalém e Judá (caps. 1-24);

II – Profecias contra as nações vizinhas (caps. 25-32);

III – Esperança e restauração de Israel (caps. 33-48).

O livro inicia-se com a narrativa anterior à queda de Jerusalém, predominando a pregação do juízo diante de Jerusalém e de Judá. Ezequiel denunciou, com veemência, a corrupção moral, a idolatria e a infidelidade religiosa de Judá. Comparou Jerusalém a uma esposa adúltera que rompeu a aliança com o seu Senhor.

Sua mensagem é entremeada por imagens visionárias e profundamente simbólicas, como a célebre visão da glória divina sobre o carro de querubins, que manifesta um Deus transcendente, não limitado às fronteiras do Templo nem à geografia de Sião. Essa imagem também representa a partida da glória de Deus do Templo de Jerusalém, o que simboliza o afastamento da presença divina devido ao pecado e ao culto aos ídolos. O anúncio da destruição de Jerusalém surge, assim, como consequência necessária do afastamento do povo em relação a Deus.

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Emídio Brasileiro | Foto: Acervo pessoal

Profecias contra as nações

O livro apresenta profecias contra as nações vizinhas – Amom, Moabe, Edom, Filístia, Tiro, Sidom e Egito – e reitera que o Senhor não é apenas o Deus de Israel, mas o Soberano da História e Juiz de todos os povos. Por meio dessas profecias, Ezequiel universaliza sua mensagem e mostra que nenhum império, por mais poderoso que se suponha, está imune ao juízo divino.

A terceira parte do livro foi escrita após a destruição de Jerusalém, em 586 a.C. Nessa fase, a mensagem de juízo cede lugar à promessa de restauração e esperança. Ezequiel anuncia que Deus reunirá novamente seu povo disperso e lhe concederá um “coração novo” e um “espírito novo”, símbolos da renovação interior e da regeneração espiritual.

Entre as visões mais sublimes dessa parte, destaca-se o vale dos ossos secos, no qual o profeta contempla um campo coberto de ossos que revivem ao sopro do Espírito divino – imagem grandiosa da ressurreição de Israel e da força vivificante do Espírito de Deus, que restaura a vida e a fé do povo.

A nova Jerusalém

Ao final, o profeta descreve uma visão grandiosa do novo Templo e da nova Jerusalém, marcada pela pureza e pela harmonia. Dela emana um rio de águas vivas que fertiliza toda a Terra. O nome simbólico da cidade – “O Senhor está ali” (YHWH-Shammah) – representa o retorno da presença divina ao coração do povo e a esperança messiânica e da comunhão definitiva entre Deus e Israel.

O Livro de Ezequiel é uma poderosa narrativa simbólica a respeito da responsabilidade individual e da renovação espiritual. As visões marcantes do profeta Daniel, como os ossos secos que voltam à vida, estão em consonância com a ideia de que o Espírito jamais morre e está em constante processo de regeneração e progresso.

A ênfase de Ezequiel na responsabilidade pessoal por seus atos se aproxima do princípio da Lei de Justiça, Amor e Caridade, em que cada indivíduo colhe as consequências de suas atitudes, sem transferência de culpa. Além disso, a promessa de um “coração novo” pode ser vista como metáfora da reforma íntima e indica a necessidade de transformação moral contínua para alcançar estágios mais elevados de evolução espiritual.

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