Réquiem por Padre Jesus: naquele microfone vai sempre estar faltando ele

A voz de Jesus Flores era uma trombeta que fazia tremer os poderosos e elevava os humildes. Seguia, como comunicador, servo do verdadeiro Evangelho

Padre Jesus, sacerdote comunicador – ou comunicador sacerdote – que sempre esteve cumpriu sua missão evangélica | Foto: Reprodução

Abri o Instagram do jornal no começo do plantão de domingo e a primeira mensagem que apareceu foi a do deputado estadual Humberto Aidar (MDB), lamentando a morte do padre Jesus Flores. Pouco depois, na atualização seguinte da página da rede social, o post de abertura da tela é agora do governador Ronaldo Caiado (DEM), com o mesmo tema.

Durante décadas, ouvir o padre Jesus Flores pela manhã era ritual de centenas de milhares de goianos, sintonizados na Rádio Difusora de Goiânia (hoje Difusora Pai Eterno) ou em uma das emissoras espalhadas pelo Estado e região que entravam em pool para a transmissão do Rádio Livre. Durante muito tempo, teve a companhia, na bancada, do próprio Humberto Aidar e Adolfo Campos (apresentador) e Laerte Júnior (chefe de redação). Laerte morreu em dezembro de 2018 e Adolfo Campos, em outubro do ano passado, ambos de infarto.

A oratória do comentarista político Jesus Flores, com seu timbre inconfundível, era impressionante. Em especial, seu editorial de três a cinco minutos, ao fim do programa matutino, era rico tanto pela alternância do tom de voz como pelas pausas, que “falavam” tanto quanto seu discurso.

Até o último minuto que lhe restou de saúde, padre Jesus estava na ativa. No microfone da Difusora, até a sexta-feira antes de ser internado; no altar, onde passou mal por conta do mal ainda não descoberto, no domingo seguinte.

Durante a pandemia, sempre combateu a irresponsabilidade do atual governo, incluindo-se aí os escândalos com as vacinas, tanto pelas compras suspeitas como pelas recusas criminosas. Não por coincidência, morreu vítima da Covid-19, mesmo tendo se vacinado com as duas doses.

Um sacerdote que, como comunicador, continuava a ser um servo da causa verdadeiramente evangélica. Infelizmente, em tempos de teoria da prosperidade e de padres coaches, uma luta cada vez mais desfalcada.

Então, chegamos a um questionamento incômodo, mas que não pode deixar de ser feito: e se o Ministério da Saúde tivesse fechado a parceria com a Pfizer e, assim sendo, a população tivesse a oferta dessa vacina – mais eficiente para os idosos – a partir em dezembro? Talvez a imunização com a Pfizer teria evitado a perda de octogenários como o padre Jesus Flores, o ator Tarcísio Meira e o acadêmico e professor Tarcísio Padilha, para citar só algumas pessoas públicas. Mas quantos velhinhos mais, anônimos queridos, não perdemos por conta da negligência do governo na compra de imunizantes?

A voz de Jesus Flores, que agora só teremos em arquivos das rádios e das TV, era também uma forte trombeta em favor das pessoas mais fragilizadas. Fazia tremer os poderosos e elevava os humildes. Um sacerdote que, como comunicador, continuava a ser um servo da causa verdadeiramente evangélica. Infelizmente, em tempos de teoria da prosperidade e de padres coaches, uma luta cada vez mais desfalcada.

Padre Jesus se foi e, a partir de agora, vai sempre estar faltando ele atrás daquele microfone da Rádio Difusora.

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