Moda, consumo e lixo: a onda ‘fast fashion’

por Ycarim Melgaço, especial para o Jornal Opção*

Fast Fashion
Foto: Reprodução

As imagens de lixões a céu aberto com imensos volumes de roupas descartadas são um assunto bastante explorado pela mídia atualmente e que tem provocado grande impacto nas pessoas. O tema chamou minha atenção e logo veio a pergunta: o que há por trás dessas imagens? Foi então que decidi averiguar a origem das roupas e o motivo para estarem no lugar, sem o mínimo cuidado com o meio ambiente. Ao aprofundar a pesquisa, logo descobri o envolvimento de grifes famosas enquadradas no modelo de negócio conhecido como fast fashion, algo como “moda descartável”.

Na busca de maior rentabilidade no mundo globalizado, em que a produção e o consumo são mundiais, as grifes centram suas atividades em produtos de vida curta – no caso, roupas. O procedimento alterou o consumo das pessoas mundo afora em nome de um estilo de vida. Acrescente-se a essa proposta a exploração de mão de obra barata em países pobres e a relação centro-periferia do capitalismo mundial na composição da cadeia de suprimento das grifes. Tais condições são inadequadas para o meio ambiente e para as pessoas que se encontram nas linhas de produção das grifes.  

Um pouco de história da fast fashion

Até a década de 1960, o processo de tendência na moda não sofria muitas alterações. Havia apenas as quatro estações – outono, inverno, primavera e verão –, as quais os especialistas em moda planejavam com antecedência, tentando prever o que os consumidores desejariam para o vestuário de cada estação. Tudo era feito de forma mais natural. Assim, as mudanças se orientavam para as necessidades de cada estação.

A partir da década de 1990, no entanto, as empresas de moda introduziram uma estratégia para intensificar o consumo, capitaneada por um marketing agressivo ao estimular constantes trocas de roupa. A ideia era expor novos lançamentos com frequência nas vitrines. Há grifes que conseguem alterar mudanças em períodos de 15 dias. A palavra fast descreve a rapidez com que os varejistas podem levar os designs da passarela de moda para as lojas, acompanhando a demanda constante e os diferentes estilos.

Esse foi o início de uma nova era na indústria da moda e, consequentemente, na forma de usar roupas – aliás, de grande impacto. A tática na estratégia de marketing era incorporar mais temporadas e introduzi-las nas lojas. O marketing levou à criação do “movimento cinquenta e duas microestações” introduzido na moda. Atualmente, há novas coleções toda semana. Não se pode denominar isso de inovação, mas de criação de moda de vestuário. Perdeu-se quase por completo a tradição das quatro estações e, por incrível que possa parecer, vive-se um calendário de “cinquenta e duas microestações”.

Tal modelo de negócio alterou todo o processo de produção de roupas, tendo forte impacto na cadeia de suprimentos, desde as fábricas até a disponibilidade para o consumidor final. A ideia é pegar as últimas tendências das mídias sociais ou da passarela e transformá-las em uma peça de vestuário disponível em pouquíssimo tempo.

Nesse contexto, surgiu uma palavra até certo ponto mágica, responsável por uma nova tática de vendas de vestuário no mundo: fast fashion ou moda rápida. A origem do vocábulo fast fashion está na inauguração da primeira loja da Zara em Nova York, no início da década de 1990. O jornal The New York Times utilizou a expressão para descrever a missão da Zara que, em apenas 15 dias, levava uma peça do estágio de design até a venda nas lojas. Algo realmente estarrecedor, claro, baseado na supply chain, cadeia de suprimentos ultradinâmica. Apesar de a Zara receber o título de ter originado a moda rápida, Almocei eAl    vale ressaltar que esse modelo de produção já existia muito antes.

 Emilia Ashton, especialista em cadeia de suprimentos, assegura que a fast fashion mudou completamente a forma como os consumidores fazem compras. Globalmente, a indústria da moda vale 2,5 trilhões de dólares e a participação da fast fashion nessa indústria continua a crescer, sendo esperados 43% até 2029.

Marcas famosas como a espanhola Zara, a sueca H&M, a americana Victoria’s Secret, a Forever 21, a American Eagle, a Abercrombie & Fiftch, a GAP, a chinesa Schein, além de outras branding distribuídas por lojas de muitos países integram o modelo de negócio fast fashion. Embora inserido em um ambiente altamente lucrativo, tal modelo está vinculado a implicações ambientais e ao desrespeito à dignidade do trabalhador nas fábricas.

Trabalhadores na fast fashion

A sustentabilidade social está sendo particularmente ignorada na indústria da moda. É importante tentar entender o lado obscuro dessa “maravilha” tecnológica de baixo custo de produção e seus horrores.

A mão de obra entra na cadeia de suprimentos, por isso os baixos salários integram o processo de produção e possibilitam a ampliação da margem de rentabilidade, no entanto, sob a forma mais precária e angustiante para os trabalhadores. As fábricas estampam as barbaridades da relação de trabalho com locais inadequados para as atividades de produção e com pouca segurança. As empresas aproveitam as condições desfavoráveis das populações locais e reforçam um círculo vicioso da pobreza, impondo condições degradantes para os trabalhadores.

Estima-se que 24,9 milhões de pessoas em todo o mundo são submetidas a condições de trabalho forçado, no entanto, isso não é reprimido pela indústria. Em 2020, por exemplo, a indústria da moda foi fortemente acusada de empregar trabalho forçado na região de Xinjiang, na China. As acusações mancharam a reputação da indústria da moda, incluindo mais de 82 marcas globais, entre elas, as varejistas de fast fashion C&A, H&M e Zara.

Em 2011, foram revelados no Brasil casos de exploração de trabalhadores em confecções para atender à modalidade fast fashion. Equipes de fiscalização trabalhista flagraram costureiras estrangeiras no chamado truck system, modelo em que o empregador mantém o trabalhador em condições análogas à escravidão, pois o obriga a gastar seu salário na própria empresa.

De acordo com a Repórter Brasil – agência especializada em identificar e tornar públicas situações que ferem direitos trabalhistas –, uma dessas empresas, localizada no centro de São Paulo, empregava 15 pessoas, incluindo uma adolescente de apenas 14 anos. Outra fiscalização em Americana (SP) encontrou 52 trabalhadores em condições degradantes, jornadas exaustivas de até 16 horas e cerceamento de liberdade. Ambas atendiam à Zara.

Bangladesh, situado no centro-sul da Ásia, é um dos países mais povoados do mundo e sua população pobre é numerosa. Ficou bastante conhecido, em abril de 2013, quando ocorreu a maior tragédia com trabalhadores de confecção, no desmoronamento de um prédio, o Rana Plaza. No imóvel de três andares, funcionava uma fábrica de tecidos e o desabamento revelou não apenas o amplo descumprimento de normas básicas de segurança no país, mas o lado obscuro da indústria de grifes famosas. Na tragédia, que ocorreu na capital Dhaka, estimativas iniciais revelaram que 3000 pessoas trabalhavam no momento em que o prédio desabou e cerca de 2430 sobreviveram. O Rana Plaza era mais uma entre as dezenas de fábricas locais em condições de risco.

Segundo a BBC News (28/04/2013), dezenas de fábricas ilegais floresceram na capital de Bangladesh na última década, tentando tirar proveito do boom de roupas baratas. Inúmeras dessas operações ocorrem à margem do poder governamental e não cumprem os requisitos mínimos de segurança, como proteção contra incêndio. O resultado é uma infinidade de riscos para os trabalhadores, incluindo problemas respiratórios em razão da má ventilação, da poeira de algodão e das partículas sintéticas de ar, assim como riscos musculoesqueléticos vinculados às tarefas de movimento repetitivo.

Houve repetidos colapsos de edifícios em Bangladesh, mas o fogo é o maior risco nas fábricas de roupas. Em setembro de 2012, no Paquistão, dois incêndios no mesmo dia em fábricas de vestuário separadas mataram mais de 300 trabalhadores. Entre 300 e 400 trabalhadores estavam em uma das fábricas quando uma caldeira explodiu e as chamas inflamaram os produtos químicos armazenados. As autoridades afirmaram que todas as portas de saída da fábrica estavam trancadas e muitas janelas eram cobertas com barras de ferro, dificultando a fuga dos trabalhadores. Boa parte das mortes ocorreu por asfixia.

A fast fashion e o meio ambiente

Apesar da onda de sofisticação em grande parte da cadeia de suprimentos, a indústria de fast fashion não é nada sustentável. As indústrias têxteis e de vestuário transferem os encargos ambientais e ocupacionais associados à produção e o descarte em massa dos países de alta renda para as comunidades pobres com poucos recursos.

O desperdício está no coração da moda e ocorre ao longo de toda a cadeia de abastecimento, durante o uso do consumidor até o descarte final, levado pelas tendências da moda, incorporando a noção de que é aceitável se desfazer de uma peça de roupa, independentemente de ainda ser funcionalmente útil.

Para que as roupas sejam produzidas e vendidas tão rapidamente, a qualidade diminuiu e os consumidores se livram das peças usadas mais rapidamente. Outro fator preocupante é que a lavagem de roupas despeja 500.000 toneladas de microfibras nos oceanos a cada ano – o equivalente a 50 bilhões de garrafas plásticas. Muitas dessas fibras são de poliéster, um item encontrado em cerca de 60% das roupas. A produção de poliéster libera duas a três vezes mais emissões de carbono do que a produção de algodão e o poliéster não se decompõe no oceano.

Em escala global, a produção de moda é o segundo maior consumidor de água, bem como o segundo maior contribuinte da poluição da água no mundo, em razão dos corantes usados para tingir as roupas. Nesse sentido, boa parte das reservas de água estão contaminadas com corantes nos países produtores.

De acordo com Rachel Bick, quando escreve sobre a injustiça global, 80 bilhões de peças de roupas novas são compradas a cada ano, o que representa 1,2 trilhão de dólares anualmente para a indústria global da moda. A maioria desses produtos é montada na China e em Bangladesh, enquanto os Estados Unidos consomem mais roupas e produtos têxteis do que qualquer outra nação do mundo. Aproximadamente, 85% das roupas que os americanos compram são enviados para aterros como resíduos sólidos.

A fast fashion, a incineração de roupas e os lixões

No modelo de negócio fast fashion, a opção para grande parte do estoque que não vendido é o descarte. Tal procedimento já integra a logística das empresas, que utilizam a incineração como etapa na gestão de processo. Linhas de montagem inteiras são construídas considerando-se esse modelo. É importante entender que a incineração é empregada em roupas novas que saíram das vitrines. Toneladas dessas roupas vão para o fogo e se transformam em cinzas, não existindo a perspectiva de doação. Em princípio, parece algo esdrúxulo, mas o modelo do capitalismo de acumulação baseado na moda rápida precisa destruir esses estoques tendo em conta o mesmo princípio da rapidez de produção. Doações não entram no modelo de negócio. 

Ninguém sabe exatamente quanto estoque não vendido é incendiado todos os anos pela indústria de moda em todo o mundo. As marcas estão sob enorme pressão para manter a percepção de que seus produtos – que custam tempo e dinheiro para serem produzidos – valem o preço pelo qual são vendidos.

A incineração tem algumas consequências muito negativas, entre elas, queimar roupas libera dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa na atmosfera. Nesse contexto, a incineração de roupas feitas de fibras sintéticas pode liberar microfibras plásticas na atmosfera. Tais procedimentos agravam ainda mais os riscos ao meio ambiente.

A Burberry é uma das empresas mais conhecidas que, até recentemente, incinerava roupas. Em 2017, peças no valor de 28,6 milhões de euros foram destruídas pela empresa – um número que ganhou as manchetes globais. Em setembro de 2018, após intenso escrutínio da mídia, a Burberry anunciou que parou de incinerar roupas.

Moda e desperdício são uma relação incômoda. O desperdício ocorre ao longo do ciclo de vida de uma peça de roupa, culminando em 57% das vestimentas produzidas sendo descartadas no lixo a cada ano. Cerca de 35% dos materiais na cadeia de abastecimento acabam como resíduos, ou seja, roupas são compradas e descartadas como nunca.

Estima-se que o norte-americano médio jogue fora cerca de 37 quilos de roupas todos os anos – esse é o peso de uma criança de 11 anos. Isso apenas nos Estados Unidos. Para se ter ideia de quão grande é a crise global de resíduos têxteis, basta imaginar um caminhão de lixo cheio de tecidos e roupas sendo jogado em aterros a cada segundo do dia, todos os anos.

No entanto, ainda que uma pessoa tentasse reciclar todas as suas roupas velhas, é importante reconhecer que muitos tecidos – cerca de 60% deles – não são recicláveis e é por isso que acabam em aterros sanitários ou são queimados. Muitas roupas são feitas de plástico. Algumas fibras sintéticas são comumente conhecidas, como poliéster, nylon, acrílico, entre outras. Essas fibras são feitas de petróleo bruto, o que torna sua reutilização de outras formas quase impossível – em outras palavras, não podem ser recicladas ou compostas.

Existem inúmeras fibras ecológicas que podem substituir o plástico nas roupas, mas, como não há restrições ou leis que proíbam seu uso, a indústria da moda continua utilizando ativamente fibras plásticas em suas roupas.

O tingimento tem sido outro fator contribuinte para o desastre ecológico da produção fast fashion, resultando em riscos adicionais, pois os resíduos não tratados dos corantes são, frequentemente, descarregados nos sistemas de água locais, liberando metais pesados ​​e outros tóxicos que podem afetar negativamente a saúde dos animais e de moradores das localidades próximas.

Inciativas para mudanças no modelo fast fashion

Há dois tipos diferentes de solução para gerar ideias que melhorem o consumo exagerado de roupas. De um lado, há a microescala, a partir de soluções individuais, como parar de jogar roupas boas fora e pesquisar o perfil ético de empresas antes de comprar qualquer produto. De outro lado, há a macroescala, com soluções globais que garantam que os direitos dos trabalhadores sejam respeitados e criem organizações em defesa desses direitos.  

Algumas empresas estão liderando o processo de upcycling, em que produtos indesejados são transformados em novos trajes desejáveis. Isso pode incluir a reutilização de qualquer produto, desde tecidos industriais antigos até roupas não vendidas de outras empresas. Mas ainda se está muito distante desses procedimentos sustentáveis.

Há também a oportunidade de priorizar tecidos biodegradáveis. Roupas que se decompõem melhor podem não precisar ser queimadas. Esses tecidos também atrairiam muitos consumidores que se preocupam com o impacto ambiental dos seus próprios guarda-roupas.

De acordo com dados do Banco Mundial, analisados ​​pela Ellen MacArthur Foundation, enquanto as vendas de roupas têm aumentado de forma constante desde o ano 2000, a utilização de roupas caiu aproximadamente na mesma proporção. Isso significa que de cada camiseta extra vendida é usada, aproximadamente, apenas a metade do que há 20 anos.

Ycarim Melgaço | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Nesse sentido, o fim da incineração de roupas não vendidas não acontecerá simplesmente por meio da reutilização e da reciclagem de materiais das empresas de moda. A escala da produção de moda também precisa mudar. Se proteger o meio ambiente realmente importa para o público, é preciso deixar claro seu desejo por roupas mais sustentáveis ​​em primeiro lugar.

*Ycarim Melgaço é doutor em Geografia Humana (USP), pós-doutor em Economia (Unicamp), em Administração de Organizações (FEARP-USP) e professor do MDPT-PUCGO

Uma resposta para “Moda, consumo e lixo: a onda ‘fast fashion’”

  1. Avatar Rodrigo disse:

    Olá LISTA SECRETA DE FORNECEDORES
    BARATOS Adorei seu conteúdo! Tenha acesso aos melhores fornecedores do Brasil na palma da sua mão, +350 fornecedores credenciados e escolhidos a dedo.

    Acesse esse link e saiba como:
    https://bit.ly/Aprenda-Sobre-Modas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.