Bichos escrotos

Por toda parte, além até da bolha dos “esquerdopatas” – com os quais eu me identifico –, há uma certeza no ar de que Jair Bolsonaro (PL) já perdeu

Marcelo Brice
Especial para o Jornal Opção

Não serei o sabichão que diz bem depois de ter passado / Também não serei profeta do apocalipse.

Mas mesmo que os versos acima, parodiada do vigoroso Mãos dadas de Carlos Drummond de Andrade, sejam o norte de um ceticismo cheio de esperança, repleto de tempo e realidade histórica, é necessário que sejamos mais catastróficos.

A nossa vontade de agudeza está longe da precisão do poeta e mais longe ainda de qualquer boa fantasia laudatória para momentos de glória ou dias de festa – também necessários, principalmente quando da derrota dos farsantes e dos personagens que são meros colaboracionistas e/ou derrotados que se acham vitoriosos.

Não precisa ser pessimista, cético ou mesmo desconfiado para identificar que os bichos escrotos saíram dos esgotos. O aviso/chamado/constatação dos Titãs para que os bichos saíssem dos lixos tem um quê de questionamento aos longos anos envelhecidos e rabugentos da ditadura militar no Brasil. A música – Bichos Escrotos – foi lançada em 1986. Nascidos daquele mofo, assustariam os decrépitos e uma raiva anárquica sobrevoaria. Eles estavam certos. Só que para pior.

Porém, poucos imaginariam que os bichos escrotos se alimentariam dos mortos-vivos, dos zumbis retrógados, mal informados e pútridos, passariam perfume, empunhariam armas, lutariam com o tráfico para se alimentar dele, se afeiçoariam a milicianos, desfilariam como se fosse um desfile de moda sobre os torturados que naquela avenida não atrapalhariam o tráfego e continuariam sendo bichos escrotos, talvez mais escrotos.

A música parece tão atual que impressiona. Tinha o viés para ser um anúncio anárquico da invasão completa dos salões e de toda a gente e espaços por bichos, mas foi mais adiante sem ser uma tese – já que os bichos escrotos enfeitam, meu lar, meu jantar, meu nobre paladar.

O que isso interessa para nós, antes que vire uma interpretação da poética dos Titãs em seu importante disco Cabeça Dinossauro? As eleições, sim, as eleições desse ano.

Por toda parte, além até da bolha dos “esquerdopatas” – com os quais eu me identifico –, mas principalmente nessa bolha, claro, há uma certeza no ar de que Jair Bolsonaro (PL) já perdeu. Como ele pode já ter perdido se o bolsonarismo perdura e, para além dele, viceja?

Bolsonaro e o bolsonarismo são grotescos, tacanhos, oportunistas, antissistêmicos e contra tudo de razoável que a civilização conquistou. É verdade, não só esse bilhete. Nesta pandemia isso ficou nítido, mas visível sempre foi.

A questão central não é simplesmente a capacidade de agregação ao projeto de inclusão social, de poder aos princípios e valores do diálogo e da conciliação que o ex-presidente Lula (PT) representa.  O que exige atenção é que enquanto todos nós, antibolsonaristas, estamos mostrando as garras, eles ainda não pararam de matar para poder comer os cadáveres pútridos, dividir esse corpo de Cristo nas igrejas, que, infelizmente, estão cheias de desumanos.

A situação econômica é de ruína, não há planejamento, gestão e interesse da população, completamente depauperada e empobrecida. Mesmo assim, há muitos camuflados, o que aprenderam ao vestir fardas, preparados para uma guerra insana.

Não sejamos cavalos paraguaios cheios de soberba, senão nos restará, talvez, quem sabe, torcer pelo gênio político de Lula.

Não é mais o mote medo x esperança, ou socialismo x barbárie, mas sim ódio x civilização. E nisso sabemos também o quanto a noção de civilização é problemática.

Quando começarem a dividir o ódio que espuma da boca pútrida que o presidente oferece, os bolsonaristas sairão novamente dos esgotos e nisso não enfrentaremos o debate mais contra uma poeira ou névoa obscura, mas sim contra tempestades de poeiras e névoas, que aprenderam a guerrear como um exército, mesmo que as armas estejam no Estado paralelo.

Vimos quantas mortes um gabinete, também paralelo – de “combate” à pandemia –, foi capaz de produzir. Imagine um Estado paralelo alimentando por bichos escrotos, colaboracionistas – os locais, principalmente –, que odeiam pobres, índios, pretos, mulheres, gays – apesar de serem ou de terem até amigos que são – e com táticas fascistas.

O esforço dos ditos progressistas não devia ser gasto em xingar o PT e sua agregação “coração de mãe”, mas para pensar modos de agir para qualificar – melhorar, portanto – o debate interno e em torno de um campo aparentemente fortalecido, mas na realidade fragilizado, que é capitaneado pelo PT.

A disputa deve ser pela redução de figuras que estão na proa dos neoliberais, dos ultraliberais, dos autoritários. Reduzidos, aqui, à máxima de “bichos escrotos”. Logo que começarem a falar como máquinas – e não começaram ainda, efetivamente –, o barulho pode ser ensurdecedor.

Marcelo Brice é doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).

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