Neste dia 25 de maio será lançado o filme sobre a vida e obra de um dos artistas mais controversos da MPB, Geraldo Vandré. O público pode acompanhar a premiere por este link. A proposta do trabalho do ARTetetura e HUMANismo, dirigido por Fred Le Blue, foi criar um quadro geral de escuta dos conflitos ideológicos prático-discursivos entre a esquerda e o militarismo no Brasil em torno da apropriação política da figura lendária de Vandré. Além disso, o trabalho tenta propor uma interface entre ciência ciências políticas, direitos humanos e o campo da musicoterapia, como a Censura como forma de Silenciamento, a Escuta como trauma de música (MUSICOFOBIA), o Silêncio como música de cura (SILENCIOTERAPIA) e a Musicalidade como terapia da loucura. 

Geraldo Vandré, compositor paraibano, consagrado na história política e musical do Brasil por seu sertanejo nordestino de protesto com 2 ou pouco mais acordes e que fora apadrinhado na MPB por Carlos Lyra é contemporâneo do Chico Buarque, representava o sudeste, afilhado musical de Tom Jobim, que também cantou temas engajados, apesar de ter se destacado por seu conhecimento sobre a psicologia do erotismo feminino. Vandré ganhou o “Festival da Canção de 1966 com “Disparada” junto com “A Banda” (em parceria com Sivuca). Apesar de ter perdido para o mesmo Chico (dessa vez com Tom) no Festival de 68, “Caminhando” foi eleita pelo público como a melhor canção do ano. Talvez, tenha ido mais longe e tenha se tornado a maior canção da MPB, capaz de agradar gregos e goianos (e mesmos militares da Aeronáutica). Canção simples de tocar, ao contrário do samba milimétrico pós-bossanovístico de Chico, apesar de seguir a linhagem do sambista igualmente branco Noel Rosa, a poesia didática dessa canção é capaz de insuflar multidões, paradoxalmente, à revolta e resignação até hoje, “Caminhando” e a obra de Vandré sempre tiveram maior periculosidade política do que a canção popular, poeticamente codificada, de Chico (e seus “hermetismos pascoais”).

A esquizofrenia intertemporal de Geraldo Vandré Jovem, liderança musical maior da esquerda nos anos 60, com o Gerado Velho fanático pela Aeronáutica seria, mal comparando, equivalente ao da tia do whats app bolsominion, que foi de esquerda na ditadura em seu passado remoto? Em todo caso, mesmo lembrando que a obra é imortal e o artista é humano, é duro aceitar que um ídolo dessa envergadura moral, tenha mudado de lado do muro de Berlim dentro dele. Ainda mais por ele não ter preservado sua discografia de qualquer contaminação de sua nova fase (ou antiga porém oculta). Por quais desconcertantes descaminhos do psiquismo musical passou o outrora associado à esquerda, autor da canção “Che” em homenagem a Guevara, para o doravante, à direita, da canção “FABIana” em homenagem à FAB, cuja base principal no Brasil fica na última cidade em que Vandré se apresentou antes do AI-5 e do seu ostracismo dos palcos: Anápolis (GO). Como abutres de aterro sanitário, críticos de beira de estrada observam acidentes de percursos biográficos, usando das fraquezas e humanidades dos artistas em fim de carreira, como fizeram com Belchior, para fazer estardalhaço sensacionalista sobre seus últimos passos, enquanto condena sua obra a um esquecimento silente pelo mesmo grupo que o outrora se beneficiou de sua potência musical. Pouco escutado, tocado e compreendido, o cancioneiro bossa novístico, mas, mormente, caipira, folk e repentista de Geraldo, sem herdeiros na MPB, a não ser os rappers de periferia, acabou se voltando contra o próprio criador na forma de fantasmas da mente e sombras da alma. 

O corte abrupto da carreira de Geraldo V., resultante de um quase eterno exílio psicológico após um isolamento  deprimente em diversos países, é igual ao da democracia no Brasil. O trauma da própria música e da própria voz que, que afetou a vibratilidade de corpo sutil, no tocante à sua liberdade poética e político é um dos motivos que o levou ao seu emudecimento social com ares de silêncio de cemitério, pois que vindo de um artista que tinha na palavra o seu maior aliado. Mas o conjunto da obra do seu silêncio, tão relevante quanto seus 5 discos, é fundante da fala e significante enquanto linguagem, pois que revela com maternidade histórica e linguística, os excessos de uma gritaria de surdos, embaçados em uma política de censura política ideológica seja por causa do aparelho militar ou da cultura de massa.

Entrevista com Fred Le Blue

Qual é a principal questão que te motivou a fazer o filme?

O filme procura entender em que sentido é concebível um caráter antiterapêutico da música e terapêutico do silêncio. Mais especificamente entender, como uma obra tão meteórica (anos 60) e tão potente, em termos dramáticos para a consciência de classe, de geração e de nação, tornou-se traumática no psiquismo do compositor, por meio dos instrumentos de reforço negativo empregados pelo autoritarismo estatal dos militares como: a demissão laboral (cargo público), a censura poética, a tortura psicológica (físico) e o exílio político. A mesma música que cura e liberta pode ser também, mesmo que, nesse caso, no que tange mais aos efeitos colaterais de sua repercussão social, a que adoece o espírito. A internalização da opressão geraria, assim, um opressor de si, que opera por meio da autocensura e recalcamento em Geraldo V. (ao ponto de ele mesmo pedir para não chamarem por seu nome artístico Vandré) é uma tentativa de compensação psíquica dos prejuízos sociais causados pelos traumas decorrentes da retaliação política a uma poesia didática, combatente e comburente. O excesso de exposição também advindo de sua clarividência retórica teve também como efeito no compositor, a necessidade de se tornar recluso e impor um ostracismo, que apesar de tudo, denúncia em silêncio e laconismo o arbítrio da regra que tem sido o estado de exceção. É claro que mudez de Vandré só é ecoante porque tem como fiador uma discografia musical armada pois que denunciativa das mazelas sociais e regionais brasileiras.

Qual a premência de trazer à baila Geraldo Vandré no atual contexto de autoritarismo aflorados no cotidiano presencial e digital?

A metamorfose kafkiana de Vandré em seu processo de despersonalização psíquica, que representa a decadência e polarização política do país, é pejorativamente chamada de “vandrelização” pela esquerda. O mais preciso não seria desvandrelização? Apesar da estigmatização da ambiguidade de Vandré, a obra do compositor permanece intacta e atual, ainda sendo trilha sonora afetiva da resistência aos muitos goles e minigolpes contra a Democracia e, anos depois, na Aeronáutica, à afirmação do próprio golpe (“revolução”). O que prova que para além do uso político da arte, que pode transformá-la em uma arma de guerra, ela, na verdade, tem seu sentido mais primordial na capacidade de ser uma tecnologia de paz, que aponte para uma “ecologia da mente”. Talvez, a única terceira via viável seja mesmo “a “terceira margem do rio”. Na verdade, toda obra artística nos olha enquanto testemunho ocular autêntico e ambíguo de uma época, mesmo quando, historicamente, toma partido ou é usado para fins comerciais e ou políticos. Os agentes políticos querem cooptar a genealidade atemporal do poeta para transmutar poesia em poder finito. Nesse sentido, a estigmatização simbólica da figura Vandré Jovem, enquanto músico e ativista de esquerda, em relação ao Velho, no sentido contrário, são as expressões mais alegóricas do histórico conflito ideológico polarizado no Brasil, que ainda hoje nos faz viver, esquizofrenicamente, um cabo de guerra psicossocial maniqueísta: Tradição e Modernidade; Cruz e a Espada; Deus e Diabo; Bem e Mal, Nós e Outros. 

Mas afinal, qual é o legado de Geraldo Vandré?

A canção e a não-canção são igualmente de protesto na obra viva de Geraldo, pois que comunicam pelo silêncio, que não houveram mudanças culturais, que justifiquem novas composições. E que, mesmo que o fossem gravadas, seriam censuradas pelo mercado fonográfico e radiofônico em um contexto econômico imediatista, bem diferente da época dos grandes festivais de música. E ainda que houvesse cenário musical favorável à música engajada na MPB, para além do hip-hop, Vandré teria ainda que superar a inércia chicomaníaca e o sudestecentrismo antirnordestino, bem como, o estilo monástico de vida paulistano, ao qual ele aderiu, calcado no individualismo antissocial nas “máquinas celibatárias”, que se tornaram a vida confinada em apartamentos, sobretudo, após a pandemia. Há, assim, muitos motivos para o recolhimento e fazê-lo é respeitar esse ímpeto de defesa e reclusão, mesmo que isso também seja uma forma subliminar patológica de sadismo sarcástico, que ataca pela indiferença e preciosismo. Nada que Vandré faça ou não faça irá mudar o fato de que ele foi um dos precursores dos Direitos Humanos no Brasil, utilizando o veículo de comunicação que é a MPB na época, para tratar temas espinhosos como a opressão política e laboral (vide “Disparada”, p. ex.). A ilusão de ótica da pureza do subjetividade e da perversão de laço (social), faz com o que o sujeito vandreeniano, uma espécie de Zelig brasileiro, tenha que conviver com suas contradições de ser humano de forma abissal, premido em um amplo espectro fenomenológico por demais, com diversos graus de possibilidades situadas entre o estar dentro ou o estar fora, o ser eterno ou o ser etéreo, o ser ou não ser, a montanha russa ou a roleta russa.

 O PROCESSO DE METAMORFOSE DE GERALDO V.

cura e trauma, silêncio e silenciamento na obra de G.Vandré

Premiere digital: dia 25 de maio às 19:00

Direção Fred Le Blue (ARTetetura e HUMANismo)

Duração: 75 minutos

https://www.youtube.com/watch?v=3ia4FHMaeDw