Sob comando único de Caiado, DEM vira nanico

Partido do senador carece de representação em mais da metade dos municípios goianos e vai se desestruturando de vez na medida em que os aliados vão se afastando

Senador Ronaldo Caiado: controle absoluto sobre a sigla afasta companheiros

Cezar Santos

Não é segredo para ninguém que o senador Ronaldo Caiado tem projeto de conquistar o Palácio das Esmeraldas. Aliás, é um sonho antigo — disputou em 1994 e ficou em terceiro lugar –, quase uma ideia fixa. Obviamente, qualquer político na ativa pode ter o sonho de conquistar o cargo público mais importante em seu Estado. Mas, para isso, é imperativo que busque novos amigos – leia-se aliados — sem perder os velhos amigos.

E é aí que os problemas de Caiado se agravam. Político preparado, culto, experiente, com a política no DNA, paradoxalmente, ao longo do tempo, o que o senador mais fez foi afastar aliados. Muitos quadros políticos importantes foram deixando o DEM por causa da forma inflexível com que ele comanda a sigla (ver quadro).

Ronaldo Caiado é presidente do DEM goiano desde que o partido foi fundado, em 2007. Aliás, ele já era presidente do antecessor, o PFL. Somando o tempo, são mais de 20 anos de comando da agremiação partidária, onde não dá vez para outras lideranças ganharem destaque.

Um dado interessante nessa história é que Caiado, quando se refere a disputar o governo estadual, fala na necessidade de renovação, que é preciso tirar o grupo marconista que está chegando aos 20 anos de poder. É no mínimo incoerente o discurso de renovação para quem está há mais de 20 anos no comando de um partido.

História

Ronaldo Caiado era do PSD e migrou para o PFL no início da década de 1990, quando o partido já tinha mais de cinco anos de existência. O comando nacional não queria, mas o deputado Vilma Rocha avalizou a entrada do ruralista. Depois, Caiado se entendeu com o comando nacional e acabou se impondo localmente.

Quando o PFL virou DEM, Caiado já estava no controle da sigla. De lá para cá, não teve pra ninguém. Mesmo com uma ala forte contrária a ele, capitaneada por Vilmar Rocha, Caiado soube trabalhar com o comando nacional para impor a própria vontade.

Em 2004, por exemplo, minoritário no diretório metropolitano, fez intervenção para impor a candidatura de Raquel Azeredo à Prefeitura de Goiânia. A candidata do DEM foi um fiasco na campanha. Em 2006, novamente, por força de uma intervenção, Caiado impôs a candidatura de De­móstenes Torres ao governo. A derrota de Demóstenes foi acachapante, como 3% dos votos.

São exemplos da forma como Ronaldo Caiado rege com mão de ferro o DEM. E quando se conversa com ex-democratas, o que mais se ouve é dizer que o senador coloca o partido a serviço próprio e é inflexível. “Ele trata o DEM como um cartório, põe o livro de ata debaixo do braço e ignora qualquer discordância”, diz um aliado que militou muitos anos no DEM.

O resultado é que quem não quiser acatar e pretenda alçar voo na sigla, inevitavelmente tem de sair, o que ocorreu e continua ocorrendo. Nos últimos anos, dezenas de prefeitos deixaram o DEM. Dos dez prefeitos eleitos no ano passado, um já saiu, Paulinho Sérgio, prefeito de Hidrolândia e presidente da Associação Goiana de Municípios (AGM). Outros estão de saída.

É unânime entre os ex-aliados que Ronaldo Caiado jogo o jogo do próprio interesse. Na eleição de 2014, ele se aliou ao PMDB de Iris Rezende – um sacrilégio para muitos democratas, principalmente no interior, onde as duas siglas são adversárias históricas –, e saiu candidato ao Senado. Foi eleito, e os peemedebistas dizem que essa aliança foi boa apenas para ele. “Só Caiado ganhou com essa aliança, para o PMDB não fez nenhuma diferença”, diz um peemedebista.

No ano passado, na campanha municipal, novamente a aliança com o PMDB em Goiânia. Eleito Iris Rezende, esperava-se que Caiado valorizasse quadros democratas que estão no partido há muito tempo. Um desses nomes, Joel Santana Braga, era tido como certo para a equipe de Iris.

Mesmo porque Joel tem trânsito no ministério de Michel Temer, é amigo pessoal do ministro da Educação, Mendonça Filho, o que certamente facilitaria a busca de recursos para Goiânia. Mas Caiado indicou a própria filha, a advogada Anna Vitoria Caiado, que assumiu a Procuradoria-Geral do Município. Em sua defesa, o senador disse que foi escolha pessoal de Iris.

Nanico

O fato é que o comando inflexível de Ronaldo Caiado no DEM apequenou o partido em Goiás a ponto de torná-lo nanico, como se diz no jargão da política. Aliás, uma tendência da sigla em todo o País. Mas, o mais grave é que o DEM já foi forte no Estado, com quadros importantes, já teve quatro deputados estaduais, comandou quase 40 prefeituras.

Em 2010, o DEM elegeu dois deputados estaduais (Helio de Sousa e Nilo Resende) e três federais (o próprio Caiado, Vilmar Rocha e Heuler Cruvinel). E reelegeu Demóstenes Torres para o Senado e colocou José Eliton na vice-governadoria de Marconi Perillo. Hoje, o partido não tem representante nem na Câmara dos Deputados nem na Assembleia. Em Goiânia, só tem um vereador.

Dirigentes do DEM informam que o partido tem 39 diretórios municipais organizados em Goiás e 73 comissões provisórias, com 46 mil filiados. Isso dá uma mostra do desarranjo político e administrativo na sigla. O que se diz é que Ronaldo Caiado dificulta a formação de diretórios justamente para ter maior domínio nas convenções.

Isso, é claro, enfraquece o DEM em termos estruturais. Se são 246 municípios no Estado, a sigla tem presença em 112, ou seja, em apenas 45%. E comissão provisória é uma instância precária, de pouca representatividade, sem voz para decidir.

Um ex-filiado do partido afirma que o DEM está acéfalo, sem capilaridade, sem presença na maioria das cidades goianas. “Não tem nem casa onde possa ir tomar um cafezinho.”
Esse ex-democrata lembra ainda que Ronaldo Caiado dizia que continuaria presidente do partido até o DEM chegar ao governo. “Mas o DEM chegou ao governo com José Eliton. Então, não é o partido, mas ele mesmo, Caiado, que quer chegar ao governo.”

 

Defecções no DEM goiano ao longo dos anos

Alguns políticos que saíram do partido por não concordar com a forma como Ronaldo Caiado dirige a sigla (quem acompanha política, com certeza, vai se lembrar de vários outros nomes para acrescentar na lista)

Nelci Spadoni, ex-prefeita de Rio Verde
Wolnei Siqueira, ex-deputado
Odair de Resende, ex-deputado
Nilo Resende, ex-deputado
Célia Valadão, vereadora por Goiânia
Jalles Fontoura, ex-deputado (atual presidente da Saneago)
Sandro Mabel, ex-deputado estadual e federal
Ademir Menezes, ex-prefeito de Aparecida, ex-deputado
Chico Abreu, ex-deputado federal
José Macedo, ex-prefeito de Aparecida
Vilmar Rocha, ex-deputado federal (atual titular da Secima)
Heuler Cruvinel, deputado federal
Helio de Sousa, deputado estadual
Wilder Morais, senador
José Eliton, vice-governador
José Vitti, deputado estadual, presidente da Assembleia Legislativa

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