Por mais de 30 anos, o Brasil foi referência mundial no combate ao tabagismo. O país abraçou a campanha de tal forma que, em 2023, os fumantes eram apenas 9% da população, nível comparado ao da Holanda, que, também, na época, obteve o mesmo índice. Um sucesso global. Mas, no ano seguinte, tudo mudou, e pela primeira vez, em décadas, o número de fumantes adultos saltou para 12%. Um aumento assustador de quase 30% em apenas um ano. Só que a fumaça tinha outra origem: os famosos vapes ou cigarros eletrônicos.

A indústria do cigarro convencional começou a ganhar essa guerra quando percebeu que iria à falência se o número de fumantes continuasse despencando. A estratégia foi criar um produto que pudesse atrair principalmente os jovens e que parecesse um acessório. Surgiu então, um aparelho discreto, que tem diversos formatos e cores, desperta curiosidade porque a engrenagem é tecnológica e a fumaça tem o gosto que o cliente quiser, com sabores de frutas como melancia, morango e doces. Pra completar, quem fuma um vape não fica com cheiro desagradável do tabaco.

Desde 2009, a Anvisa proibiu a venda, fabricação e importação dos cigarros eletrônicos no Brasil. Mas na prática, a portaria que proíbe é a mesma que abriu o caminho para o crescimento de 600% do uso de vapes no país. Nos últimos 17 anos, esse produto altamente perigoso e viciante, nunca esteve tão disponível. E isso acontece porque não há fiscalização. Na verdade, ela nunca existiu, assim como amplas campanhas de saúde que pudessem chamar atenção para algo que atinge diretamente a população mais jovem do país.

Trata-se de um problema de saúde pública. O vape não é inofensivo, nem representa uma alternativa segura ao cigarro convencional. Diversos estudos já demonstraram entre os compostos presentes na fumaça que ele produz há “sais de nicotina”, uma molécula alterada com ácido benzoico, e altamente viciante porque, ao ser tragada, chega ao cérebro mais rápido, não arde a garganta, é palatável e ainda dá sensação imediata de prazer. No ano passado, uma pesquisa da Universidade de São Paulo apontou que os fumantes de vape tinham o mesmo nível de nicotina equivalente a quem fuma 20 cigarros por dia. 

O cigarro eletrônico nada mais é do que o remanejamento eficiente de uma indústria que foi obrigada a abandonar seus velhos clientes e partiu em busca daqueles que nunca haviam fumado antes: jovens entre 13 e 20 anos. E a conta vem na mesma velocidade que a fumaça eletrônica leva para chegar ao pulmão de quem está “vapando”.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), quem fuma vape dos 15 aos 40 anos certamente terá horário marcado em algum hospital para tentar reverter o mesmo diagnóstico de todos usuários: câncer de pulmão.

O Brasil, que levou 30 anos para conseguir diminuir o tabagismo à níveis históricos, agora corre o risco de, em apenas dez anos, colocar tudo a perder, simplesmente porque não combateu, com eficiência, algo que certamente vai alterar o destino de toda uma geração.

O vape mata silenciosamente, e ao contrário do que acontece com os tabagista do cigarro comum, quando surgirem os primeiros sintomas do câncer, o pulmão não vai arder, mas a doença terá gosto de morango, melancia ou maçã. E tudo isso, apenas porque a fiscalização jamais existiu. 

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