Valéria Petersen defende substituição de cota feminina de candidaturas por vagas no parlamento

Para a secretária de Relações Institucionais de Goiânia, o cenário de mulheres que desejam estar em espaços de poder já obteve muitas melhoras, mas ainda é cheio de dificuldades

Tendo sido a segunda mulher eleita como vereadora de Aparecida de Goiânia no pleito de 2020, juntamente com Camila Rosa (PSD), a atual secretária de Relações Institucionais de Goiânia, Valéria Petersen, não poderia deixar de conversar com o Jornal Opção sobre machismo e representatividade feminina no parlamento. Durante entrevista, ao retratar as inúmeras dificuldades já encontradas em sua trajetória, ela chegou, inclusive, a avaliar que o cenário só terá melhoras significativas em termos de representatividade quando, ao invés de cotas para candidaturas femininas, se tiver vagas reservadas para mulheres no parlamento.

“Hoje, na bancada federal goiana, por exemplo, são dezessete deputados, sendo apenas duas mulheres dentro desse número. A lei atual estabelece uma cota para candidaturas femininas, não para cadeiras de mulheres. Quando a lei estabelecer cotas para cadeiras, vagas, você vai ver que realmente existirão mudanças. Aí você vai ver os partidos escolhendo os melhores nomes de mulheres, porque hoje homens não querem bons nomes femininos, já que vão disputar com eles”, opina a secretária. Para ela, não são raras as situações em que a escolha de mulheres acontece “de fachada”.

“Eles escolhem uma candidata, mas não investem na campanha dela”, exemplifica. Ela afirma, inclusive, não ter recebido nenhum tipo de recurso financeiro do partido para financiar sua campanha. “Eu tive ajuda de material, não de dinheiro”, detalha. Segundo Valéria, tudo o que foi utilizado em sua campanha eleitoral foi doado por pessoas que “acreditavam em seu trabalho”. No entanto, o recebimento ou não de recursos para as candidaturas é apenas uma das dificuldades que compõem o cenário de mulheres que desejam estar em espaços de poder.

Para começar, Valéria menciona as próprias dificuldades pessoais que são impostas às mulheres, uma vez que familiares não costumam ter compreensão suficiente quanto aos grandes compromissos e a agitada rotina que cargos de poder demandam. “A política é um mundo muito masculino, e em casa, a mulher precisa de um companheiro ou companheira compreensivos. Na política você não tem horário, não tem fim de semana, seu telefone não desliga em nenhum momento”, detalha. Ela ainda fala da importância da rede de apoio para que a mulher consiga encontrar um equilíbrio emocional, especialmente caso ela seja mãe.

“A mulher acaba precisando ser extremamente equilibrada para entender que ela não vai deixar de ser mãe ou esposa só porque precisa ir a luta todos os dias. Além disso, precisa de tempo de qualidade, bem administrado, para que no pouco tempo que se tem, se consiga fazer o que é preciso”, pondera Valéria. Esse cenário hostil, para a secretária de Relações Institucionais, é composto, inclusive, pela falta de oportunidades até mesmo dentro das legendas. “Quantos partidos têm mulheres como presidente?”, questiona.

Ainda que tenha sido a 7ª vereadora mais bem votada no pleito de 2020, com 2.523 votos, para Valéria, esse descrédito foi um dos grandes motivos de não ter conseguido angariar mais apoios. “Diziam que eu não tinha chance, mas tive coragem de ir para a rua e fui todos os dias”, relembra. Ela conta que, para defender seu projeto, montou uma cartilha que distribuía diariamente a toda a comunidade. “Você precisa ser muita coragem para ir lá mostrar sua capacidade”, completa.

No entanto, ainda que defenda a criação de vagas femininas no parlamento, para maior inclusão e representatividade, a secretária também ressalta a importância de um trabalho de base, para que a mudança seja estrutural quanto a importância de mulheres em espaços de poder. Esse trabalho, inclusive, segundo ela, deve ser iniciado com os jovens. “A política começa com os jovens. É preciso que a menina seja incentivada a ter coragem de participar dos ambientes que a cercam. Da universidade, da escola, e da própria comunidade, se não ela nunca terá espaço”, opina.

Esse cenário, de modo geral, para Valéria, teve muita melhora nos últimos anos, no entanto, ainda há “muitos degraus a serem subidos” para a diminuição do machismo na política e a maior representação das mulheres. Como uma forma de incentivo, a secretária ainda fala sobre a importância de mulheres “serem elas mesmas”, mesmo em meio a uma candidatura. “Não é preciso perder seu jeito, nem sua feminilidade. Vejo diversas mulheres tendo que “cortar os cabelos”, ao entrar no “mundo dos homens”, porque essa questão do estereótipo feminino é muito latente na política. Quando você se candidata, querem criar uma outra versão de você, e isso não pode acontecer. Não se pode perder a essência”, aconselha.

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