Universidade fomenta mercado regional de startups

Centro de Empreendedorismo e Incubação da UFG apoia projetos em áreas como agronegócio, alimentação e saúde

Ednamar Dias dos Santos

Depois que o carro do anestesista Remulo Orlando Borges foi arrombado, em 2017, começaram a aparecer atestados falsos com os dados do médico. Empregadores procuraram o profissional para atestar a veracidade dos documentos e descobriram que se tratava de golpe.

Os ladrões levaram o carimbo do CRM com a identificação do médico e o número de registro no Conselho Regional de Medicina, e fabricaram os atestados.

Atestados falsos prejudicam médicos, empresas e colegas de trabalhadores faltosos

A prática, prevista no artigo 302 do Código Penal Brasileiro como falsidade ideológica, é recorrente no Brasil e prejudica tanto profissionais de saúde como empresas e trabalhadores, que ficam sobrecarregados  por causa do absenteísmo dos colegas.

Em Goiás, a falsificação de atestados preocupa o Conselho Regional de Medicina(CREMEGO). Para tentar coibir o problema, solicitou ao  Conselho Federal de Medicina (CFM) a normatização dos atestados com certificação digital.

Oportunidade

Contornado o problema com os atestados, Remulo Orlando e seu colega de profissão José Antônio de Oliveira e Silva Júnior decidiram buscar soluções para esse tipo de fraude. Em parceria com o desenvolvedor de Software Giuliano Rezende, os médicos se arriscaram no mundo do empreendedorismo.

Mas foi com o apoio do programa de pré-incubação do Centro de Empreendedorismo e Incubação da Universidade Federal de Goiás (CEI), regional Goiânia, que a ideia saiu do papel.

O programa oferece qualificação e mentorias para o desenvolvimento de projetos em fase de ideação.”O suporte do CEI foi decisivo para a criação do nosso produto; uma ideia pode ser genial, mas não decola sozinha, precisa de um estudo de mercado e planejamento para escalar”, afirma Remulo.  

Com o suporte do CEI, a startup Atestify desenvolveu um sistema para a emissão de atestados online. O médico envia seus dados e se cadastra por meio da plataforma; o empregador também. Desta forma, a empresa é notificada em tempo real quando um de seus colaboradores recebe um atestado. Em seguida, o documento é impresso com um código de validação, o QR Code.

Esq p dir/ Giuliano Rezende, Remulo Orlando e José Antônio e Silva, sócios da Atestify

No próximo dia 09 de maio, a plataforma estará disponível para clínicas e Programas de Saúde da Família (PSFs) no município de Paraúna, a 100 quilômetros de Goiânia. “A meta é reduzir em 30% a emissão de atestados na região e eliminar fraudes”, afirma o desenvolvedor Giuliano Rezende.

Pelo sistema, a empresa também receberá relatórios de endemias e poderá adotar medidas preventivas e profiláticas para a saúde de seus colaboradores, garantem os sócios da startup.

O acesso à plataforma é gratuito para médicos, instituições de saúde e pequenas empresas. Das empresas de grande porte será cobrada uma taxa de acordo com a demanda.  

Chocolate com beterraba

Um creme de chocolate produzido com cacau e extratos de couve e rúcula foi outra ideia que recebeu o apoio do Centro de Empreendedorismo e Incubação da UFG para se tornar um negócio.

Em 2017, o estudante de Engenharia Química da UFG Gustavo Henrique Rocha do Amaral, criador da mistura, entrou para a  pré-incubação do CEI.  Durante o programa, ele começou a desenvolver habilidades para potencializar sua criatividade, identificar o seu público e ampliar as possibilidades de um futuro negócio. Assim nasceu a Nutricandies, uma startup especializada em cremes de chocolate saudáveis.


Gustavo Henrique Rocha:conhecimentos acadêmicos e apoio do CEI para inovar na área de alimentação

Após vários testes e degustações, hoje o chocolate é preparado nas versões beterraba, cenoura e maçã e pode ser consumido na colher, como ingrediente de receita ou insumo de produção. O alimento não possui glúten nem lactose e é indicado para portadores de alergia e intolerância, bem como para os apreciadores da alimentação natural.

A engenheira agrônoma Janaine Rezende começou a consumir o chocolate por causa de sua filha de 4 anos, que possui múltiplas alergias. “No início, só a nossa filha comia; agora eu e meu marido também consumimos e gostamos muito”, garante Janaine.

Produzido em Goianira, a 20 quilômetros de Goiânia, o chocolate já é comercializado fora de Goiás, inclusive em São Paulo. “Com a parceria do CEI, alcançamos a maturidade e a visibilidade necessárias para encarar o mercado”, analisa Gustavo – CEO da Nutricandies.


Chocolate vegano produzido pela Nutricandies

Atualmente, a Nutricandies é formada pelo estudante e pelas alunas da UFG, Joyce Beatriz, acadêmica de Engenharia de Software e Ana Caroline Teixeira , estudante de Farmácia. A startup já está inserida no programa de incubação do CEI. “Este é um processo mais avançado que busca o fortalecimento da empresa, o aprimoramento do produto, da comercialização e a maturação dos processos e serviços administrativo-financeiros”, explica a gerente do CEI, Emília Rosângela.

Inseto que protege lavouras                       

A BioGyn, startup especializada no controle biológico de pragas em lavouras, também  está inserida no processo   de incubação do CEI. Em laboratório, as irmãs Rizia Andrade, engenheira agrônoma e pesquisadora e Glaubia Cavalcanti, responsável pela área administrativa, criam milhares de Trichogrammas, vespas com menos de um milímetro de comprimento, mas muito poderosas contra um inimigo conhecido dos produtores rurais: as lagartas.


Larvas para o controle de pragas em cultura de tomate

Fixadas em cartelas de papel e distribuídas nas plantações, as vespas, ao se reproduzirem, sabotam os ovinhos da lagarta sem oferecer prejuízos ao meio ambiente. Sete pequenas culturas de tomate e duas produções de milho já utilizam a tecnologia. “Esperamos sensibilizar também os médios e grandes produtores acerca  dos prejuízos que os agrotóxicos ocasionam ao ecossistema, de modo a ampliar o controle biológico nas culturas”, observa Glaubia.

Uma das produções de milho atendidas pela Biogyn fica na Embrapa em Santo Antônio de Goiás, na região metropolitana de Goiânia. O agrônomo e pesquisador da Embrapa Eduardo Costa Eisert afirma que a tecnologia é muito importante sob o aspecto do Manejo Integrado de Culturas (MIC), que começa com a preparação da terra e envolve vários processos, entre eles a defesa das culturas. “Quando este protocolo é cumprido, o controle biológico funciona como um aliado muito importante e pode sim auxiliar no combate aos pesticidas”, explica Eisert.

Rizia aprendeu a lidar com o controle biológico durante o mestrado na USP, mas foi com o apoio do CEI que as pesquisas saíram da ideação e foram para o campo. “Pensar em algo novo não é suficiente, você tem que descobrir se existe demanda e viabilidade para crescer. Nesse sentido,  a pré-incubação nos ajudou a encontrar   respostas”, afirma a pesquisadora.

Esq p dir/ Rizia Andrade e Glaubia Cavalcante da BioGyn

Entre as empresas que participaram da pré-incubação e incubação do CEI, 25 já estão graduadas. Isto é, prontas para se desenvolver sozinhas, mas ainda assim devem manter vínculo com a incubadora. Atualmente 09 projetos encontram-se pré-incubados e 08 incubados.

Gerente do CEI, Emilia Rosângela, sugere criatividade para saber o que mercado busca

Para a gerente do CEI, além de contar com o suporte de uma incubadora, todos esses empreendedores devem explorar a criatividade. “Em um contexto de crise e com as pessoas cada vez mais exigentes, o produto deve ser realmente  inovador e mudar a vida de todos os envolvidos”, finaliza.  

CEI UFG

O Centro de Empreendedorismo e Incubação é um programa vinculado à Diretoria de Transferência e Inovação Tecnológica da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação da UFG.

Foi uma das primeiras incubadoras do Brasil a receber a certificação de Centro de Referência para Apoio a Novos Empreendimentos, CERNE1, um modelo de gestão reconhecido pelo Sebrae Nacional e pela Associação Nacional das Entidades de Apoio a Empreendimentos Inovadores (Anprotec). Recentemente, o CEI foi também a primeira incubadora do país certificada com o CERNE, um estágio ainda mais avançado em sua qualificação.


CEI: apoio nas áreas em gestão, mercado, finanças e assessoria de comunicação

Além dos programas de pré-incubação e incubação, o CEI oferece formação empreendedora por meio de palestras, workshops e cursos voltados para a comunidade acadêmica e para o público externo. A incubadora também promove desafios, e outras atividades, para desenvolver nos alunos habilidades empreendedoras visando à criação de um futuro negócio ou a um melhor desempenho na futura profissão.

Os interessados podem procurar a unidade 1 do CEI, localizada na Rua 235, nº 294, no Setor Universitário ou a unidade 2, na Alameda Flamboyant, quadra K, no Campus Samambaia. Também estão disponíveis os telefones (62) 3209-6034 e (62) 3521-2047, o endereço de e-mail: [email protected] e o portal: cei.ufg.br

Ednamar Dias dos Santos – Jornalista e Assessora de Imprensa do Centro de Empreendedorismo e Incubação da UFG

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