Uma senhora e várias histórias

Dona Cecília anima a feirinha na Praça do Chafariz, onde fica junto com outras companheiras do projeto “Mulheres Coralinas”

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Dona Cecília alegra a feirinha na Praça do Chafariz, em Goiás | Foto: Sarah Teófilo

Sarah Teófilo
Da Cidade de Goiás

A idade não é limitação para a Dona Cecília Sousa dos Santos. Aos 71 anos, o bom humor contagia a barraca de doces, na feirinha da Praça do Chafariz, durante a 17ª edição do Festival Internacional de Cinema Ambiental (Fica).

Nascida na Rua Machorra — “Onde tinha o poste para enforcamentos”, explica –, dona Cecília festeja o fato de ser casada com um homem 20 anos mais novo. “Meu marido tem os olhos verdes!”, e assegura: “Ainda me dei bem na vida, minha filha.”

Entre as histórias da cidade, conta que quando criança sempre ouvia o caso de um menino que começou roubando pequenos objetos, e no final da vida terminou na forca. “No dia, o último pedido dele foi dar um beijo na mãe. Quando a mãe chegou perto, o filho deu uma mordida que arrancou um pedaço do seu nariz, e disse: ‘Se a senhora tivesse me corrigido antes, eu não estaria aqui sendo enforcado’. Por isso, dizem que filho de Goiás não dá para ladrão.”

Aos 7 anos de idade, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, mas sempre sentiu falta da velha Goiás. Casou-se, teve um filho e o perdeu na cidade maravilhosa. Assim que aposentou, decidiu voltar para onde o coração sempre esteve. “O que eu passei na vida, minha filha, as coisas que eu vi lá… Só eu sei.”

Mas garante que a experiência foi boa, já que no Rio teve oportunidade de estudar Administração e Contabilidade. E o método para estudar é interessante: prendia os livros no varal, e lia enquanto passava roupa. “A vida era corrida demais. Mas quando eu nasci, no calendário não existia preguiça nem medo”, garante.

Dona Cecília se diverte com um grupo de colegas que também fazem parte do projeto “Mulheres Coralinas”, que ensina mulheres a fazerem doces e artesanatos, dependendo do interesse de cada uma. Dona Cecília já fazia pé-de-moleque, e viu uma oportunidade de aprender a fazer outras delícias goianas. “Se tiver disposição, não tem crise. A gente vai se virando”, afirma.

Dona Cecília, Dulce e Lourdes na barraca de doces | Foto: Sarah Teófilo

Dona Cecília, Dulce e Lourdes na barraca de doces | Foto: Sarah Teófilo

Lourdes e Dulce também estão na barraca de doce, na Feira de Artesanatos. Lourdes afirma que o projeto ajuda a resgatar a cultura local. “Essas coisas que a gente via nossos avós fazendo, vão sumindo”, explica. A doceira começou no grupo buscando um apoio no negócio de venda de empadas — o que gosta mesmo de fazer.

Ação foi idealizada por Elenízia da Mata, educadora formada na área de Letras e estudiosa de questões de gênero. Ela, que coordena o Caem na cidade, se juntou a doutora Goiandira Ortiz e Ebe Siqueira para escreverem um projeto e enviá-lo ao governo federal. O objetivo é dar autonomia emocional e econômica às mulheres. “Às vezes, muitas são ligadas a uma situação de opressão, porque não tem poder sobre a própria vida”, explicou.

Além destas questões, o programa pretende que a população se aproprie do que é de Goiás — seja por meio do artesanato ou da culinária. A inspiração, segundo Elenízia, é a poesia de Cora Coralina. “A partir deste universo e do que temos como expressão de cultura local, construímos o projeto”, explicou.

Dona Cecília, assim como as outras “coralinas”, estão alegres com a viagem que farão para Belo Horizonte, Itabira e Diamantina. O grupo irá fazer um intercâmbio das produções associada ao turismo, mostrando os produtos feitos em Goiás.

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