“Uma mulher e uma criança foram mortas a facadas e ficou por isso mesmo”

Absolvição dos réus acusados no caso da empresária Martha Cozac gera sensação de injustiça e é justificada por insuficiência de provas, somada à excelência da defesa

Advogados Valério Luiz Filho e Pedro Paulo de Medeiros comentam julgamento e sentença do Caso Martha Cosac

Advogados Valério Luiz Filho e Pedro Paulo de Medeiros comentam julgamento e sentença do Caso Martha Cosac

“Uma mulher e uma criança foram mortas a facadas e ficou por isso mesmo.” A declaração é do advogado Valério Luiz Filho sobre o inconclusivo desfecho do caso Martha Cozac na Justiça. O julgamento dos dois réus acusados pela morte da empresária e de seu sobrinho, Henrique Talone Pinheiro, de 11 anos, demorou exatos 20 anos para acontecer e teve fim com a absolvição de ambos por insuficiência de provas.

Lentidão na investigação policial, morosidade da tramitação em instâncias superiores e artifícios da defesa são alguns dos motivos que podem explicar as duas décadas de desgaste enfrentadas pela família das vítimas.

O advogado Pedro Paulo de Medeiros, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e membro de uma comissão de juristas instalada no Senado para discutir a reforma do Código Penal Brasileiro, também atribui a longa espera a erros ocorridos ao longo do processo, tanto por parte da acusação como da defesa.

“A demora se deveu principalmente a recursos obtidos pela defesa, somada a erros de ambas as partes”, disse, emendando: “Não se saberá quem foi o verdadeiro autor dessa trágica morte. Como se passou muito tempo, não há como reabrir o processo e voltar para saber quem é o culpado”.

O jurista admite uma demora “excessiva”, mas ressalva que, no Brasil, as pessoas insistem “em privilegiar o fim, independente do processo”. “Até onde posso afirmar, a defesa agiu dentro da Constituição e do que exige a Ordem. Temos que aplaudir a estratégia dos advogados, com certeza uns dos melhores do Estado de Goiás e do País”, destacou.

Já para o advogado Valério Luiz Filho, autor da declaração que abre a matéria, a negativa de autoria, estratégia adotada pela defesa, é típica de um inquérito que não possui provas conclusivas. Ele elogia a atuação do trio de advogados, mas atenta que o viés jurídico e técnico não deve ser o único levado em conta; “é preciso olhar também para a questão humana”.

O jovem também é vítima e luta na Justiça para solucionar o assassinato de seu pai, o cronista esportivo Valério Luiz, morto em julho de 2012 . “A tese da defesa no caso do meu pai deve ser a mesma, até porque não existe nenhuma outra justificativa que pode ser usada.”

Valério enfatiza a sensação de injustiça causada pela não resolução do caso Martha Cozac, mas acredita que o resultado no processo de seu pai será diferente. “Temos vários diferenciais. Desde os anos 1990, a Polícia Civil evoluiu bastante, por exemplo, e possui mais capacidade técnica para construção de provas. Fora isso, tenho acompanhado de perto o caso nas instâncias superiores e acredito que até o próximo ano será possível marcar a data do júri popular.”

Avaliações à parte, o jurista Pedro Paulo de Medeiros acrescenta que tanto a defesa quanto a acusação no julgamento do caso da empresária goiana cumpriram os seus papéis com habilidade e reitera que a decisão do júri deve ser soberana. “Ouve sim um julgamento popular. Já se passaram 20 anos. Nada mais justo que todos possam conseguir seguir em frente”, conclui o advogado.

Familiares das vítimas e réus acompanharam julgamento na última quarta-feira (8) | Foto: Assessoria TJGO

Familiares das vítimas e réus acompanharam julgamento na última quarta-feira (8) | Foto: Assessoria TJGO

Relembre o caso

Martha Cozac e Henrique Talone foram mortos a facadas, no interior da confecção “Última Página”, de propriedade de Martha, no Setor Sul, em Goiânia, em outubro de 1996. Na época, o crime ganhou grande repercussão na mídia local e nacional pela brutalidade dos assassinatos.

Foram deferidas facadas em regiões vitais do corpo da mulher, que foi encontrada nua e com os pés e mãos amarrados. O garoto teria sido morto por presenciar o assassinato da tia. Ele foi encontrado com as mãos e pés amarrados, os olhos vendados e a boca amordaçada. O menino levou dois golpes de faca, que foi deixada cravada em seu corpo.

Segundo a denúncia do Ministério Público de Goiás (MPGO), Frederico da Rocha Talone, sobrinho de Martha, e Alessandri da Rocha Almeida teriam cometido o crime e em seguida roubaram um cheque preenchido, assinado e endossado por Martha, no valor de R$ 1,5 mil, a carteira de identidade, cartões de crédito e de banco dela, aparelho de som, joias e dinheiro.

Frederico era empregado de Martha, responsável por serviços de contabilidade da empresa, e tinha acesso à senha pessoal da conta dela. De acordo com a denúncia, no dia do crime Martha havia chegado de uma viagem e telefonado para Frederico, pedindo que ele fosse à confecção no dia seguinte para lhe entregar cheques de terceiros que estavam com ele.

Ainda de acordo com o MP, Frederico e Alessandri teriam ido à confecção no mesmo dia, por volta das 23 horas. Martha abriu o portão de sua residência, onde também funcionava a confecção, e a partir daí a dupla teria praticado os assassinatos e fugido com o dinheiro e objetos.

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