Uma borboleta interrompida
06 fevereiro 2026 às 10h36

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A vida é cheia de esquinas. Aquela lagarta não sabia. Mas de que adiantaria saber? As esquinas são especialistas em desmentir até os que se julgam avisados. Em toda esquina, mora um susto em gestação, uma curva que carrega tanto o encontro quanto a perda. O mundo não anda em linha reta. Falando em linha reta, vale a pena ler (para quem não tem a alma pequena) “Poema em Linha Reta”, de Fernando Pessoa.
É nas esquinas que tropeçamos, porque o que se planeja raramente coincide com o que acontece. As surpresas, como eu e você, leitor altaneiro, já aprendemos a duras penas, não batem à porta. Não pedem licença. Chegam. Entortam o rumo. As árvores, por exemplo, não são consultadas pelo vento: algumas ele arranca pela raiz, outras apenas balança, e há aquelas que vergam, rangem, mas seguem de pé.
Aquela lagarta verde cumpria o seu destino com uma paciência alheia à consciência. Viveu seu tempo de lagarta, devorando folhas como manda o roteiro da natureza. Até ali, escapara da fome dos anus, dos pitiguaris, das almas-de-gato…: aves que veem nas lagartas uma refeição nutritiva. Até ali sobreviveu. Chegou longe o bastante para acreditar na bonança do amanhã.

| Foto: Sinésio Dioliveira
Quando chegou o momento do início da borboletização, pendurou-se de cabeça para baixo no galho de um pingo-de-ouro. Tudo indicava iminência de borboleta. Mas as esquinas, às vezes, criam asas. Sua metamorfose interrompida me levou ao jovem Gregor Samsa, e isso não pelo despertar grotesco, mas pela crueldade do acaso. A lagarta não acordou “de sonhos intranquilos” como ocorrera com o jovem, tampouco “encontrou-se metamorfoseada num inseto monstruoso”. Ainda assim, há inseto nesta história. Uma vespa parasitoide.
Aproveitando-se da fragilidade da crisálida, a vespa depositou seus ovos no corpo da lagarta. Silenciosamente, eles eclodiram com o hospedeiro ainda vivo. As larvas, pequenas e vorazes, devoraram a lagarta por dentro e, depois, formaram várias pupas brancas do lado de fora do corpo dela. Ali, diante de mim, uma borboleta foi interrompida. Tristeza das flores. Tristeza também dos poetas, que veem nas borboletas pequenos poemas alados, voando de flor em flor.
Em nossa vida, também surgem vespas. Elas pousam sobre nossos projetos, relações, sonhos em fase de casulo. Sem aviso, depositam seus ovos em nossas ideias maduras, em afetos pendurados no galho verde da esperança. Quando percebemos, algo já nos corrói por dentro. E seguimos. Porque viver é isso: atravessar esquinas sem garantia de voo. Nem toda lagarta vira borboleta. Mesmo se tivesse se tornado uma borboleta, outras esquinas surgiriam. Afinal, como bem disse Guimarães Rosa, “Viver é muito perigoso: sempre acaba em morte”.
Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza
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