Um em cada cinco cidadãos diz que universidades públicas são doutrinárias

Visão sobre as universidades públicas brasileiras reflete polarização da sociedade brasileira. E mais de ⅓ dos brasileiros ainda desconhecem o que nelas é feito

Sociedade também quer ter mais informações sobre gastos de recursos pelas universidades públicas e impacto dos cortes | Foto: Divulgação

Um em cada cinco cidadãos entende que a principal ação das universidades públicas seria a doutrinação ideológica, partidária, comunista, de gênero, entre outras, revela pesquisa feita pelo Centro SoUCiência, em parceria com o Instituto Ideia Big Data. Segundo o estudo, a visão sobre o que se faz nas universidades é oposta entre os favoráveis e os críticos do governo atual, a cargo de Jair Bolsonaro (PL), que busca a reeleição. Entre os que avaliam positivamente o governo Bolsonaro como bom ou ótimo, a doutrinação ideológica foi apontada por 20,9%. Já no recorte dos contrários ao executivo federal, essa taxa despensa para 2,4%.

Inversamente, 47,6% dos críticos ao governo Bolsonaro consideram que o ensino e a pesquisa de qualidade são as atividades definidoras das universidades públicas, enquanto 15,3% dos pró-Bolsonaro tem esse entendimento. Para os pesquisadores, os dados revelam que a visão sobre as universidades públicas brasileiras reflete polarização da sociedade brasileira e que mais de ⅓ dos brasileiros ainda desconhecem o que nelas é feito de fato. Tanto, que o impacto da polarização de opinião também aparece na análise sobre o reconhecimento da pesquisa científica. Críticos do governo apontam que a pesquisa científica é a segunda atividade mais relevante das universidades públicas (empatada tecnicamente com ensino de qualidade): apontada por 22,3% dos críticos ao governo contra apenas 4,5% dos pró-governo.

Além de considerarem local de doutrinação ideológica, as outras duas características mais lembradas por apoiadores do governo Bolsonaro foram: má qualidade de ensino e dos docentes (12%) e o “clima de balbúrdia” (drogas, bebidas, curtição, não fazer nada – com 11%). Entre os críticos ao governo, depois de ensino e pesquisa de qualidade, a terceira principal característica destacada sobre as universidades públicas são os ataques e cortes orçamentários que vem sofrendo. Para o filósofo Pedro Arantes, “a posição polarizada sobre as universidades públicas é sintomática e emblemática, é quase um divisor na sociedade brasileira, como é a posição antagônica em torno do legado e memória de Paulo Freire”, educador e filósofo brasileiro considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial.

“Nossa pesquisa revelou que os pró-governo consideram a universidade como espaço de doutrinação, balbúrdia e má qualidade de ensino. Nos perguntamos, baseados em quê? Em declarações e publicações nas redes sociais do próprio governo”, conta. Pedro inclusive está monitorando as redes sociais com intuito de mapear quais os principais divulgadores “dessa maneira de descrever as universidades públicas, suas ‘narrativas’, posts e memes.”

Transparência

Ao tratar do que as pessoas gostariam de saber mais sobre as universidades públicas, a pesquisa revela que a principal demanda da sociedade é que as universidades deem maior transparência no uso dos recursos públicos. A população com nível superior, maior renda e pró-Bolsonaro é a que mais cobra transparência das universidades no uso de recursos. Os dados apontam a importância de se ampliar a divulgação e a transparência dessas informações, especialmente para esclarecer diversos “mitos e verdades” sobre o custo das universidades públicas, o custo-aluno (ao se comparar com o setor privado e internacional), o salário de docentes, entre outros. O levantamento ressalta que a prestação de maiores esclarecimentos sobre esses temas são demandas relevantes da opinião pública na atualidade, apesar das universidades terem portais de transparência, ouvidorias e relatórios anuais de prestação de contas que são públicos a analisados pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

Sobre o tema, enquanto a transparência do uso das verbas é a maior demanda apontada em geral, com destaque para servidores públicos, empresários/acionistas e trabalhadores (CLT e autônomos), a preocupação com os cortes orçamentários e os impactos deles foi o terceiro tema com mais citação e o que mais interessa estudantes. Os professores Soraya Smaili, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e Nelson Amaral, da UFG, considerado um dos maiores especialistas no Brasil em financiamento da educação superior, inclusive trabalha na elaboração de um curso que visa discutir mitos e verdades sobre os custos das universidades e a melhor forma de apresentar isso para a sociedade.

Além disso, conhecer o funcionamento da política de cotas, acesso e permanência é a segunda principal demanda da sociedade para a universidade. O interesse pelas políticas de acesso e inclusão, cotas e bolsas é muito maior entre críticos do governo (12,9%) do que entre bolsonaristas (apenas 3,5%). Além disso, verifica-se que desempregados/sem renda são os maiores interessados em saber sobre cotas nas universidades públicas (somam 15,4%, diante da média de 9,9% que apontaram o tema).

Desconhecimento

Ainda de acordo com a pesquisa, cujo grau de confiança é de 95%, 36,1% dos brasileiros disseram não saber o que ocorre nas universidades públicas. Esse percentual é maior (40-42%) quando se trata da população de menor renda e menor escolaridade. Outro dado preocupante é que essa taxa fica ainda mais elevada entre os respondentes identificados como estudantes: 42,2% informaram que não sabem o que acontece nas universidades. Mesmo entre jovens em idade universitária (de 16 a 29 anos) há alto grau de desconhecimento sobre o que as universidades públicas realizam (37,1%). O percentual cai um pouco entre os mais ricos (acima de seis salários mínimos) e com ensino superior. No entanto, o desconhecimento sobre o que é feito nas universidades ainda é citado por 23-25%.

A pesquisa também indicou que apenas 2,3% dos brasileiros identificam atividades relacionadas à extensão universitária e à função social da universidade . O dado revela que há ainda um grande trabalho a ser feito para o reconhecimento efetivo da extensão universitária como uma das três bases fundamentais das universidades públicas. O chamado “tripé” do ensino, pesquisa e extensão das universidades foi estabelecido na redemocratização do país e na Constituição Federal de 1988. Em pergunta estimulada, contudo, 21,7% dos respondentes disseram que as universidades devem colaborar para fortalecer políticas públicas e 21,4% para apoiar comunidades vulneráveis – ambas ações de extensão universitária.

A pesquisa envolveu 1.500 respondentes, entre homens e mulheres residentes em todas as regiões do Brasil, com idade igual ou superior a 16 anos, de diferentes escolaridades, raça/cor, renda e classe social. A amostra seguiu cotas variáveis, segundo distribuição da população por região e com proporções definidas com base nas pesquisas Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2018 e Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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