O Centro de Excelência em Inteligência Artificial (Ceia), da Universidade Federal de Goiás (UFG), lançou nesta quarta-feira, 28, o CEIA Lumi, modelo de inteligência artificial desenvolvido para a língua portuguesa e adaptado ao contexto brasileiro. A ferramenta é disponibilizada gratuitamente em código aberto e permite que empresas utilizem a tecnologia como base para criar soluções próprias, personalizadas de acordo com suas atividades e necessidades.

O lançamento ocorreu durante o AI Brasil Experience 2026, em São Paulo. Com 4 bilhões de parâmetros, o modelo foi projetado para funcionar em estruturas computacionais mais acessíveis, reduzindo a necessidade de grandes investimentos em infraestrutura e ampliando as possibilidades de adoção da inteligência artificial por empresas brasileiras.

Diferentemente de ferramentas como ChatGPT e Gemini, voltadas ao uso direto por meio de interfaces de conversação, o Lumi funciona como uma base tecnológica que pode ser baixada e adaptada. As empresas podem incorporar seus próprios dados e dar continuidade ao treinamento do modelo para desenvolver aplicações específicas, inclusive com processamento em infraestrutura própria.

Ao Jornal Opção, Arlindo Galvão, diretor de Inovação Aberta do Ceia e um dos responsáveis pelo desenvolvimento da tecnologia, afirma que a proposta é reduzir as barreiras de entrada para empresas interessadas em incorporar inteligência artificial aos negócios. Segundo ele, a dependência de plataformas estrangeiras e os custos de operação, muitas vezes vinculados ao dólar, dificultam o acesso de parte do setor produtivo a essas ferramentas.

“Ele é um modelo que você pode baixar e configurar para a sua empresa, personalizar com os seus dados e continuar o treinamento para utilizá-lo gratuitamente dentro do negócio”, explica Galvão. O diretor ressalta que o Lumi foi concebido para atender especialmente a empreendedores, startups e indústrias que precisam desenvolver soluções próprias sem depender integralmente de serviços externos.

Modelo foi treinado com mais de 100 bilhões de tokens em português

Um dos diferenciais do Lumi, segundo o Ceia, é o treinamento direcionado à língua portuguesa. De acordo com Galvão, o modelo foi desenvolvido a partir de uma base superior a 100 bilhões de tokens em português, unidades de texto utilizadas no treinamento de sistemas de inteligência artificial.

O objetivo é melhorar a compreensão de expressões, construções linguísticas e particularidades do contexto brasileiro. Para o pesquisador, essa preparação pode favorecer o desempenho em aplicações que exigem conhecimento específico do idioma e, posteriormente, a incorporação de informações próprias de cada organização.

“Quando você utiliza um modelo de propósito geral, ele não necessariamente tem todo o acervo linguístico que um modelo treinado com dados em português brasileiro pode ter”, afirma. Segundo Galvão, a combinação entre o treinamento linguístico e a personalização com documentos e informações empresariais pode tornar as respostas mais adequadas às necessidades de cada setor.

O diretor cita aplicações já testadas pelo Ceia em áreas como energia e educação. Em um projeto desenvolvido em parceria com a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), a equipe trabalhou com dados específicos do setor elétrico para construir o Energy GTT. Segundo Galvão, a experiência demonstrou o potencial de adaptar modelos de linguagem a demandas técnicas de segmentos determinados.

O pesquisador também afirma que o Lumi apresentou resultados competitivos em testes de desempenho, inclusive diante de modelos de propósito geral. A comparação, segundo ele, depende do contexto e da tarefa avaliada. Os resultados e os critérios utilizados nos testes precisam ser considerados para estabelecer o desempenho em cada aplicação.

Tecnologia pode atender empresas goianas

A expectativa do Ceia é que a ferramenta seja utilizada por empresas de diferentes setores, incluindo agronegócio, serviços financeiros, saúde e indústria. Para Goiás, a iniciativa pode ampliar as possibilidades de desenvolvimento de produtos digitais e de soluções de inteligência artificial por startups e negócios que ainda enfrentam dificuldades para acessar tecnologias de maior custo.

Galvão afirma que o centro já mantém contato com empresas goianas e acompanha iniciativas locais que poderiam se beneficiar da tecnologia. Como o lançamento havia acabado de ocorrer no momento da entrevista, ainda não havia um levantamento consolidado sobre a quantidade de empresas interessadas em adotar o Lumi.

O modelo permite que cada organização desenvolva aplicações de acordo com suas necessidades, desde que disponha de recursos técnicos para realizar a configuração e o treinamento complementar. A possibilidade de operar localmente também pode ajudar a manter dados sensíveis dentro da infraestrutura da própria empresa, conforme a arquitetura adotada.

A diretora do Ceia, Telma Soares, afirmou que o lançamento busca aproximar a pesquisa científica das demandas do mercado. A iniciativa pretende oferecer uma base tecnológica nacional que possa ser adaptada a diferentes realidades, ampliando a autonomia das empresas brasileiras no desenvolvimento de soluções de inteligência artificial.

O Lumi também faz parte de uma estratégia de expansão do portfólio de tecnologias desenvolvidas pelo centro. Segundo Galvão, o Ceia prepara novos lançamentos, incluindo modelos direcionados a áreas como saúde, direito e educação.

A proposta é aproveitar a experiência adquirida com o modelo-base para desenvolver ferramentas mais especializadas, capazes de atender a demandas de diferentes segmentos econômicos. O diretor afirma que novos modelos devem ser apresentados em breve, embora não tenha detalhado datas ou características técnicas das próximas versões.

Pesquisadores, desenvolvedores e empresas podem acessar o CEIA Lumi pela plataforma Hugging Face. Materiais de apoio ao projeto também serão disponibilizados no GitHub, segundo as informações divulgadas pelo centro.

Leia também

Saúde: veja as principais propostas apresentadas por Ronaldo Caiado em seu plano de governo