O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) descartou nesta quinta-feira, 13, a hipótese de ataque hacker no episódio que fez o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparecer como filiado ao partido Missão no sistema da Justiça Eleitoral. Segundo a Corte, a alteração ocorreu por meio do uso indevido da ferramenta por alguém que tinha acesso às credenciais da própria legenda.

O caso veio à tona quando a equipe jurídica de Flávio preparava a documentação para registrar a candidatura do senador à Presidência da República pelo PL. Ao consultar o sistema eleitoral, os advogados encontraram o parlamentar vinculado ao Missão, situação que impediu naquele momento a conclusão do pedido de registro.

A campanha inicialmente levantou a possibilidade de invasão ao sistema da Justiça Eleitoral. A advogada Maria Claudia Bucchianeri afirmou que a mudança era fraudulenta e disse que uma certidão obtida pela equipe às 23h17 de quarta-feira, 12, ainda apontava a situação partidária anterior do candidato.

A apuração inicial do TSE, porém, afastou a hipótese de invasão. Conforme o tribunal, não houve hackeamento do sistema de filiação partidária. A inclusão teria sido realizada a partir de credenciais vinculadas ao próprio Missão.

Diante da irregularidade, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, encaminhou uma representação à Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) para adoção das providências cabíveis. Também foi determinada a instauração de inquérito pela Polícia Judiciária para apurar quem realizou a alteração e as circunstâncias do caso.

O PL protocolou um pedido para retirar a filiação de Flávio ao Missão. Segundo o TSE, a solicitação já está sob análise da Justiça Eleitoral.

Alteração trava registro da candidatura

A divergência partidária provocou um problema para a campanha porque Flávio foi escolhido pelo PL para disputar a Presidência da República. Com o sistema indicando vínculo com outra sigla, a equipe jurídica não conseguiu concluir imediatamente o registro.

O prazo para que partidos e candidatos apresentem os pedidos à Justiça Eleitoral termina às 19h deste sábado, 15.

Flávio foi oficializado candidato do PL durante convenção nacional realizada em 25 de julho, em São Paulo. A legenda lançou o senador como seu nome para a sucessão presidencial de 2026.

Após a identificação da mudança, Bucchianeri afirmou que a equipe ainda não sabia como o procedimento havia ocorrido e citou, entre as possibilidades consideradas naquele momento, invasão, compartilhamento ou uso indevido de senha. A manifestação posterior do TSE descartou especificamente a hipótese de hackeamento do sistema eleitoral.

Missão diz que tentou cancelar filiação

O Missão também afirma ter sido vítima de uma fraude. Segundo o partido, o próprio sistema da legenda identificou a situação e houve uma tentativa de cancelar a filiação no mesmo dia, mas o procedimento não foi aceito pela Justiça Eleitoral.

A legenda sustenta ainda que o gabinete de Flávio Bolsonaro teria sido informado sobre uma tentativa de filiação desde 2 de agosto. Conforme o partido, e-mails enviados naquela ocasião foram abertos, mas não receberam resposta.

O Missão informou que pretende entregar às autoridades dados relacionados ao episódio, incluindo registros de acesso, e-mails e endereços de IP. O material poderá ser utilizado na investigação para tentar identificar quem utilizou as credenciais da legenda.

Flávio fala em fraude

Depois que o caso se tornou público, Flávio Bolsonaro publicou um vídeo nas redes sociais e afirmou ter sido vítima de uma filiação fraudulenta. O senador também atribuiu o episódio a uma tentativa de prejudicar sua candidatura.

“Vocês viram aí que fraudaram a minha filiação partidária. O sistema vai tentar de tudo para me parar, mas não vai conseguir não, porque Deus está no comando e a gente vai conseguir juntos resgatar o nosso Brasil”, declarou.

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, também classificou a alteração como uma falsificação. Integrantes da legenda chegaram a atribuir o episódio a um ataque hacker, versão posteriormente afastada pelo TSE.

Veja a íntegra da nota do TSE

“O Tribunal Superior Eleitoral informa que a filiação de Flávio Bolsonaro ao partido Missão não foi fruto de hackeamento do sistema de filiação partidária, mas sim de uso indevido da ferramenta por parte de alguém que possuía as credenciais da legenda para efetivar filiações.

O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, enviou uma representação à Procuradoria Geral Eleitoral para providências e determinou instauração de inquérito por parte da Polícia Judiciária.

O Partido Liberal protocolou pedido de desfiliação do Missão, que já está sob análise.”

Veja a íntegra da nota do Missão

“O Partido Missão vem a público informar que foi vítima de uma tentativa de filiação fraudulenta de Flávio Bolsonaro. Nosso sistema, ao notar a fraude, tentou realizar no mesmo dia o cancelamento da filiação, ação que foi rejeitada pelo TSE.

O gabinete de Flávio foi informado dessa tentativa de filiação desde o dia 2 deste mês. Consta em nosso sistema que os e-mails enviados foram abertos, mas não foram respondidos.

A Missão já está adotando todas as providências cabíveis junto à Polícia Federal e ao TSE, a fim de que os responsáveis pelo crime e pela fraude sejam identificados e exemplarmente punidos. Um relatório com todos os logs, e-mails e IPs será disponibilizado para a imprensa e autoridades.

Ressaltamos, ainda, que não é do interesse do partido acolher em seus quadros um parlamentar que, para além do desalinhamento ideológico, figura em acusações e suspeitas de envolvimento em esquemas de corrupção.

O Partido Missão reafirma que não compactua com filiações de natureza fraudulenta e repudia veementemente episódios dessa natureza. Colocamo-nos à disposição das autoridades competentes para a completa apuração dos fatos.”

A investigação deverá esclarecer quem utilizou as credenciais do Missão para efetuar a filiação, como ocorreu o acesso à ferramenta e se houve participação de outras pessoas. Paralelamente, a Justiça Eleitoral analisa o pedido apresentado pelo PL para regularizar a situação partidária de Flávio antes do encerramento do prazo para registro das candidaturas.

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