Trotes de falso sequestro voltam a assombrar população

Crime que é enquadrado como extorsão estava em desuso, mas crescimento no número de relatos mostra que modalidade está de volta

Foto: reprodução

O crime de falso sequestro ganhou fama após a popularização do telefone celular. Com relatos parecidos, quem já foi vítima desse tipo de tentativa de extorsão certamente não esquece os minutos de terror psicológico. Por ter se tornado popular, as notificações relativas ao crime se reduziram com o passar dos anos. Entretanto dados e relatos revelam a volta da prática em 2019.

A diversidade de horários é a única característica distinta entre as ocorrência. Uma mulher chorando que se identifica como mãe, irmã ou filha anuncia que foi sequestrada e pede ajuda imediata, após a participação da mulher, o telefone é passado para um segundo criminoso, dessa vez homem. É a segunda voz reforça a informação de sequestro e pede colaboração para que nada seja feito com a suposta vítima.

A estudante Samaya Boelter relembra que recebeu a ligação às 3h da manhã. Segundo ela não teve muito tempo para raciocinar sobre o que estava acontecendo: é tudo muito rápido. “A ligação vinha de um número restrito, mesmo assim atendi, uma menina aos prantos pediu ajuda e quando eu perguntei quem era me respondeu que era a minha irmã”, relata Samaya.

Um detalhe exposto pela estudante chama atenção. Todos os oito casos escutados pela reportagem indicam que receberam ligações de número restrito. A ferramenta de ocultar o número dificulta a localização posterior do aparelho celular de onde partiu a chamada.

“Eu vou matar ela”

Outra vítima recente é Marília Carneiro. Ela conta que assim que recebeu o telefonema entrou em desespero. Segundo ela, o pânico gerado fez com que ela reconhecesse na voz do telefonema traços da voz da própria filha. “Eles anunciavam em tom agressivo: ‘se você não fizer o que eu quero eu vou matar ela, eu vou judiar dela’, foi um desespero fora da realidade. Estavam mexendo com o que é mais importante para nós”, relata Marília.

Um desabafo feito por Marília desmistifica a ideia de que apenas pessoas mal instruídas sofrem o golpe. “A gente procura ser instruído, ouve tanto caso, mas na hora que acontece, a gente não raciocina”, disse.

Dona Sebastiana Gonçalves, de 81 anos, conta como quase caiu no golpe. Com as mesmas características que as demais histórias, dessa vez os criminosos pediram R$ 40 mil pelo suposto resgate de sua filha. “Eu tremia tanto que não dava para conversar direito”, conta dona Sebastiana.

Após consecutivas ligações para combinar o rapasse do valor, que a aposentada ainda não sabia como iria conseguir, ela acabou descobrindo através de um vizinho que se tratava de um trote.

O que diz a PM

Procurada pela reportagem, a Polícia Militar do Estado de Goiás (PM-GO) não confirma o aumento de registros desse tipo de crime em específico, já que quando notificado, o trote é qualificado entre os crimes de extorsão. Mesmo assim os números revelam aumento.  Entre janeiro e março de 2019 foram registrados em Goiás 88 casos de extorsão. Ou seja, 29 casos a mais que o mesmo período de 2018.

“Este tipo de crime entra no artigo 158, que lida com extorsão. O telefone, para comunicação de falso sequestro se enquadra na tipificação de extorsão. Então, o Observatório da Segurança Pública de Goiás, assim como de outros estados registra as extorsões”, explicou a assessoria da Secretaria de Segurança Pública.

O número de notificações baixo pode ser reflexo da falta de registro de boletim pela vítimas, já que dos oito casos apurados pelo Jornal Opção, nenhum registrou ocorrência.

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