Tropas e Boiadas de Hugo de Carvalho Ramos
27 março 2026 às 08h00

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Maria de Fátima Gonçalves Lima
UMA POÉTICA DO SERTÃO GOIANO
Tropas e Boiadas de Hugo de Carvalho Ramosé um livro de contos que transmite a essência do ser(tão) goiano, com seus encantos, paisagens, personagens, lendas, usos e costumes. Sua beleza reside no acompanhamento, passo a passo, no encanto das estórias.
Hugo de Carvalho Ramos desde cedo impressionou seus mestres com o fascínio demonstrado pela leitura dos clássicos universais: “Viam-no amiúde à sombra de uma árvore, em frente ao Lyceu, enfronhado na leitura de um romance de Coelho Neto, Balzac ou Flaubert.” (Vitor de Carvalho Ramos, in nota Biográfica sobre Hugo de Carvalho Ramos – Tropas e Boiadas, 1984, 6ª. Ed. p. 11)
Dentre os escritores nacionais, além de Coelho Neto, admirava Afonso Arinos, Euclides da Cunha e Olavo Bilac, deste último, sabia decorados seus versos. Influenciado pela literatura nacionalista de seus contemporâneos, Hugo de Carvalho, mergulhou em Os Sertões do mestre Euclides da Cunha e, em Pelo Sertão, de Afonso Arinos, dos quais absorveu os estilos e temáticas. Hugo descobriu o Brasil com seus diversos Brasis, do Sul, do Norte, do Nordeste e, principalmente, do Centro-Oeste, de Goiás, destes ermos brasileiríssimos, permeados por mistérios, misticismos e lendas, onde o saci brinca, de noite, nas encruzilhadas.
Foi lendo Pelo Sertão, de Afonso Arinos e, acompanhando seu pai, Dr. Manoel Lopes de Carvalho Ramos, Juiz da Primeira Vara da Capital, em suas viagens pelas comarcas vizinhas, no exercício do cargo, que o jovem Hugo de Carvalho Ramos conheceu o Sertão Goiano – imenso, cheio de encanto, magia, folclore, poesia, prosa, surpresas e assombramentos. Nessas viagens formou sua mentalidade de sertão, de sertanejo; e, gravou, pouco a pouco, no subconsciente, o Ser – Sertão; e, sua alma fundia-se poética e literariamente com a alma sertaneja.
Dessa maneira, Hugo de Carvalho Ramos conheceu o ser goiano, a fauna, os frutos da terra, os usos, os costumes. Conheceu as tropas e as boiadas na severa labuta cotidiana, com seus caminhos e descaminhos, idas e vindas, nos passos largos ou “sopitados no fundo da vargem… a trouxe-mouxe…” enfileirando-se “sob o estalo do relho”. E, no pouso, o tropeiro empilhando “a carregação fronteira aos fardos do dianteiro”recolhendo “uma a uma, as cangalhas suadas ao alpendre”, e abrindo um “couro largo” no terreiro, despejando “por cima meia quarta de milho, ao tempo que o resto da tropa ruminava em embornais a ração daquela tarde”. Descreve, minuciosamente, o mundo dos tropeiros, passo a passo, desde o detalhe de uma “cabra, atentando na lombeira da burrada, tirando dum surrãozito de ferramentas, metido nas bruacas da cozinha, o chifre de tutano de boi, e armado duma dedada percorrendo todo o lote, curando aqui uma pisadura antiga, ali raspando, com a aspereza dum sabugo, o dolorido dum inchaço em princípio, aparando além com o gume do freme os rebordos das feridas de mau caráter.” Assim, o escritor constrói sua poética do mundo sertanejo, apegando-se a cada cena, por mais simples que pareça: o chiado ou canto som agudo e rítmico do carro dos bois soltando a poeira do caminho; é a poeira sem fim do sertão; é o guizalhar da cabeça da madrinha; é a mulada remoendo nas estacas, e junto ao couro cru de milho, um outro animal, mais artreiro e manhoso, escoucinhando e mordendo “os demais no afã de maior quinhão”; são os tropeiros assentados sobre os calcanhares e, pachorrentamente, picando miúdo, com uma faca velha, as rodelinhas de fumo e esfrangalhando entre os dedos os resíduos de palha grossa de cigarro encarapitada na orelha; é o cabra de posse de um cuité fumegante comentando, com a voz amolengada, a marcha daquele dia; é o som da viola repassado de ais e suspiros; são os causos de assombrações e folclores impregnados de verdades e mentiras.
Em cada pouso, o jovem escritor registrou como se comportava uma tropa, como se arreiava e desarreiava os equinos, como se descangavam os bois carreiros, como se preparavam a boia no tripé da mariquita, como se cozia uma cangalha suada; como era o chiar dos carros de bois pelas estradas cheias de sol e poeira.
Hugo de Carvalho, registrou ainda, como viviam os homens do sertão – tropeiros, boiadeiros, pequenos e grandes fazendeiros, escravos (negros e brancos), coronéis donos do mundo e homens pobres sem poderes, mas cheios de crenças e descrenças, lendas e estórias. O sertão goiano é transfigurado como um lugar ecopoético, esplendoroso, fértil, paradisíaco, mas, paradoxalmente, tenebroso, árido, repleto de dificuldades, perigos, mistérios, sons naturais e silêncio.
OS TROPEIROS, OS BOIADEIROS E A PAISAGEM
O sertão goiano – retratado por Hugo de Carvalho Ramos – expressa o regionalismo natural daquele cenário de tropeiros, boiadeiros e a natureza, numa espécie de geopoética que sugere uma inteiração entre os homens, suas atividades de sobrevivência e a natureza ali presente. Nesse sentido, esta trilogia; tropeiros, boiadeiros e a paisagem mais do que a um mero regionalismo, corresponde a uma visão antropológica deste espaço geográfico. De acordo com Gilberto Mendonça Teles, tanto no título do livro como na estrutura dos contos, estão refletidas as duas correntes da ocupação humana do planalto central: Uma das tropas, que vinha do Sul do país, outra, a das boiadas, que vinha do nordeste e que penetrando em forma de leque por vários caminhos, atingiu o Norte, o Nordeste e o Leste de Goiás, estabelecendo, assim, no Planalto o ponto de convergência, não só das populações, mas, com elas, o contato cultural inevitável, misturando usos e costumes, crenças e tradições, numa legítima simbiose brasileira, ainda em vias de processamento. TELES, Gilberto Mendonça. (O Conto Brasileiro em Goiás. Go.1969, p. 18).
O autor de Tropas e Boiadas realiza uma organização da POÉTICA da natureza rude do sertão, documentando fielmente ou transfigurando artisticamente a paisagem, a fauna, a flora e os costumes da gente desses ermos goianos. Veja como exemplo, um trecho do conto A bruxa dos Marinhos: Às vezes, nos dias festivos dessa transparência deslumbradora que é característico invariável do estio goiano, topava ele ali gente de fora e a companhia de forasteiros que se deixava a bebericar era animada. Ficava então horas a fio alheado, conversando com a roda nos assuntos do ofício, o olhar devassando pelos corredores o interior varrido e asseado da casa, que findava num terreiro capinado e limpo, aquém do quintal ensombrado, onde pendiam, em festões engrinaldados, os limoeiros azedos, o laranjal pejado, cuja grimpa e joões-congos de peito amarelo e acerado bico, perfumadores dos frutos sumarentos, que se punham a merendar álacres, numa orquestra alada de vivos e azoinantes galreios. (RAMOS, Hugo de Carvalho. Tropas e Boiadas. Go. Cultura Goiana, 1984. 6ª. Ed. p.37)
Gilberto Mendonça Teles, num artigo denominado Interior Goiano fala dos três tipos comuns do homem goiano: O tropeiro mais viajado; o vaqueiro, que se movia no meio rural; e o caipira, ou seja, o agregado, cujo horizonte cultural não passava de sua roça. Isto mostra como o regionalismo de Hugo não foi simplesmente o do pitoresco e da cor local, nem muito menos o do anedótico. A sua visão literária era mais profunda e portadora de um alto sentido estético, capaz de reunir em poucos contos os códigos culturais mais importantes para a visão histórica da época”. Em Tropas e Boiadaspode ser observado uma visão, geopoética, geohistórica e antropológica do homem desse Centro-Oeste, que reuniu o Brasil do Sul e do Norte, sintetizando os diversos Brasis.
O FOLCLORE E O FANTÁSTICO
O universo literário de Hugo de Carvalho Ramos expõe um mundo impregnado de superstição, no qual o medo desencadeia o fantástico e o caboclo oscila entre o real e o imaginário, entre o fato e o mito, entre as histórias e as estórias.
A criação ficcional desse escritor vivifica o mito do saci, o anti-herói, e segundo a lenda é um diabinho de uma perna só, que anda solto pelo mundo, armando reinações de toda sorte e atropelando quanta criatura encontrasse. O saci sempre traz na boca um cachimbo aceso e na cabeça uma carapuça vermelha. A força dele está na carapuça, quem consegue tirá-la fica senhor dele para toda vida. A crença popular afirma, ainda, que o negrinho azeda o leite, quebra a ponta das agulhas, esconde as tesouras de unha, embaraça os novelos de linha, faz o dedal das costureiras cair nos buracos, bota moscas na sopa, queima o feijão que está no fogo, gora os ovos das ninhadas e levanta as saias das moças. Quando encontra um prego, vira de ponta para cima para que espete o pé do primeiro que passe. Tudo que acontece de ruim no sertão dizem que é arte do saci. Contam, ainda, que atormenta os cachorros, atropela as galinhas e persegue os cavalos nos pastos chupando o sangue dos animais. O saci é símbolo de uma liberdade diabólica que sente prazer em fazer peraltices.
No conto O saci (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p.71), o negro Pai Zé consegue tirar a carapuça da entidade, ficando com poder sobre o negrinho. Pai Zé propôs um negócio. Devolver-lhe-ia a carapuça em troca de uma porção mágica para enfeitiçar Sá Quirina, sua enamorada – uma mulata de sustância. Porém, Sá Quitéria, a mulher do Pai Zé, desconfiada, ficou em vigília. Não se sabe se por arma do saci, mas, Sá Quitéria foi testemunha do momento da entrega do feitiço ao marido. Ao descobrir partiu para uma luta corpo-a-corpo com o marido e, no embate, o feitiço foi para os ares. Desde então, nunca mais houve paz no casal, que se devorava às pancadas; e pai Zé a renegava sem descanso o maldito que introduzira a discórdia no seu rancho. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 72))Seria artifício do saci? O fato é que o preto velho que contava essa estória para o narrador, concluiu-a assim: – Porque, Ioiô… a todo aquele que viu e falou com o saci, acontece sempre uma desgraça. RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.72)
Esse saci é revestido, às vezes, de pai Romeu, como aparece no causo de Gente da Gleba (p.85-170): O senhor mandara surrá-lo por vias dum furto, de que o escravo era inocente. Deu-lhe o feitor uma tunda mestra, até não mais poder levantar o braço de cansado. Trezentas lambadas receberam pai Romeu no cangaço sem que desse parecência de dor. Pediu apenas fogo para o pito, que atupiu de cinza. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 137)
Enquanto ouviam o “causo”, os vaqueiros da fazenda ficaram a pensar no fato acontecido ou não, e, João Vaqueiro, um homem sensato, procurava dar explicações plausíveis: Talvez fossem os parceiros de pai Romeu que, aproveitando a ocasião, tivessem dado aquela pisa no filho do senhor, a ponto de não mais poder queixar-se depois. E vieram relatar o caso daquela maneira… Tudo podia ser nesse mundo largo… vingança de cativo tem manha. Enfim, não duvidava… (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 138). João Vaqueiro, traduzia experiência de quem busca a razão e não dispensa a crença, o folclore.
A figura de pai Romeu reaparece no negro Malaquias, que também foi surrado pelo coronel, mas “não turgiu nem mugiu quando recebia a coça”. Parecia ter pacto com o diabo, ficou apenas banzando, pitando as cinzas do seu cachimbo. Neste caso, o filho do coronel não foi surrado, mas a desgraça vai pairar sobre a fazenda, uma vez que, quando o fazendeiro castra o seu afilhado Benedito, a cena de pai Romeu volta a acontecer, como se o negro Malaquias tivesse rogado uma maldição. Nhá Lica, a filha do coronel, morria de amores por Benedito. Quando este foi preso e castrado, a moça sentiu as dores e morreu literalmente. Da mesma forma que o filho do senhor de engenho sentiu as dores de pai Romeu, Nhá Lica sentiu as dores e a morte de Benedito. Esse final trágico, de Nhá Lica e Seo Dito, talvez os únicos que não acreditavam em feitiçaria, foi a praga rogada pelo escravo Malaquias – sujeito que diziam, ter pacto com diabo. Esse negro fugiu da fazenda e foi capturado por Seo Dito. Por esse motivo o negro fujão foi barbaramente torturado pelo dono da fazenda, mas ficou apenas pitando o cachimbo e mandingando. Talvez, fazendo o feitiço que recaiu sobre os amantes.
Assombrações, bruxas, medos e muitos mistérios do sertão são contados e recontados nos pousos, nas rodas dos peões e boiadeiros. No sertão o fantástico se mistura com a realidade e as crendices moram na alma do povo. Não há como fugir das crenças. Um bom exemplo é a estória de Seo Dito de Gente da Gleba.
Benedito dos Dourados era um rapaz valente, destemido, porém não deixava de temer as assombrações. Contam que, quando pequeno, um velhote chamado Zé Caolho metia-lhe medo com compridas unhas de pássaros agoureiros e as histórias infindáveis de sacis-pererês assobiando ao lusco-fusco no olho do pau, gemidos de menino pagão no cemitério, pragas de rola fogo-pagou no alto dos telheiros e cousas mais, que asseverava à noite aos pequenos, enquanto a cachorrada saía a ganir à lua no terreiro. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 89)
Desde então, sempre que o jovem passava na Estiva, um profundo mal-estar danado cerrava-lhe o peito; e era quase aos choros, geladinho de terror, juntando-se muito aos que com ele iam, que atravessava a ribeira. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed. p. 89). Cresceu tendo um medo de alma errante e sentia uma sensação incômoda de qualquer cruz que encontrasse pelos caminhos e descaminhos desse cerrado belo e místico. As crendices, as lendas, e o folclore adquiriram vida e foram eternizados na palavra, nos enredos dos “causos” e dos contos deste jovem criador de Tropas e boiadas.
A LINGUAGEM
Hugo de Carvalho Ramos, como um escritor considerado na história da literatura brasileira como pré-modernista, ainda estava preso a certos padrões linguísticos do vernáculo erudito do seu tempo, mas, já antecipa os ideais modernistas como a valorização da língua brasileira, ao registrar a fala do sertanejo. Desta maneira, o autor utiliza uma fala culta mesclada com o vocabulário dos tropeiros e, às vezes, cede a palavra para algum sertanejo, como se pode ver nos seguintes fragmentos: Joaquim Culatreiro, (…) foi prendendo às estacas a mulada, e afrouxou os cambitos, deitando abaixo arrochos e ligais, enquanto um camarada serviçal dava a mão de ajuda na descarga dos surrões. (p. 27) – Pois perdigueiro como este, estou ainda à percura. (…) – Vai mesmo, compadre. Criação no terreiro ’stá de gogo que é um castigo; o Vicente não tem tempo para caçadas; só assim terei uma perna de galinha para ir “debicando” com farofa… (…) – Não imagina como ando enfarada estes dias! Já me estava dando no goto o quitute… (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 53)
No primeiro fragmento, o escritor registra vocábulos, como mulada (manadas de mulas; palavra de influência gaúcha); arrochos (pequeno pedaço de madeira utilizado para apertar as sobrecargas) e surrões (bolsa usada no transporte de cargas no lombo de burros). Esses vocábulos são comuns entre pessoas que trabalham no universo das tropas, mas pouco utilizados por outros falantes e, por isso, considerados eruditos por alguns. Em toda a obra de Hugo de Carvalho Ramos pode ser percebido a utilização de vocábulos próprios do povo sertanejo, difundidos pelo contista através de um retrato linguístico do sertão.
No segundo fragmento, o narrador concedeu a palavra ao personagem Guilherme de Caçando perdizes (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 53) e registrou, em alguns momentos da frase, a fala do homem do campo. Dessa forma, o autor harmoniza a sua fala culta com a do sertanejo, revelando aqui e acolá expressões consideradas irregulares dentro das normas gramaticais, como: “debicando” com farofa… percura, ‘stá de gogo, debicando, goto o quitute. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 53).
Estes fragmentos revelam como Hugo de Carvalho Ramos trabalhou com a linguagem nesta obra que abria caminho para os ideais modernistas da valorização da língua do povo, como queria Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Manoel Bandeira. Este último afirmou que: A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros / Vinha da boca do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque é ele que fala gostoso o português do Brasil. O criador de Tropas e Boiadas dentro do seu limite de pré-modernista já revelou um pouco da língua errada do povo e, principalmente, os vocábulos comuns nos ermos goianos.
Deve ser enfocado ainda, a respeito da linguagem do autor a poeticidade ao descrever a paisagem do solo goiano por meio de figuras de linguagem como: metáfora, prosopopeia, metonímia, onomatopeia e sinestesia.
O NACIONALISMO CRÍTICO DE HUGO
Hugo de Carvalho Ramos refletiu sobre o espaço do sertão goiano ainda desconhecido, num período em que o Brasil se preparava para a revolução literária de 1922. Nas narrativas do jovem contista goiano, desponta um realismo social – telúrico que traduz a abordagem do nacionalismo crítico desse escritor que redescobre o Brasil por meio do seu Estado – seu Goiás-Sertanejo e, ao mesmo tempo, denuncia a tradição feudalista, o coronelismo – com seus desmandos e ambições -, a vida sub-humana, do sertão do Centro-Oeste, a pobreza da mentalidade que envolve a sua gente, o misticismo, as crendices, os usos e os costumes.
O SERTÃO DO SERTÃO
As inovações sociais e culturais que anteciparam a Semana de Arte Moderna (1922) não são matérias da realidade que viviam as personagens de Hugo em virtude do isolamento em que estavam sujeitos. Os rincões goianos se ligavam às outras regiões da nação por meio dos tropeiros vindos do Sul e dos boiadeiros vindos do Nordeste. Aqui, no Centro-Oeste, havia um entrecruzamento dos costumes e vivências destas atividades. Ao lado dessas personagens que protagonizaram sertão goiano, estavam os coronéis com suas forças e barbáries. Compondo esse conjunto, figuravam os caboclos subjugados e escravizados pelo tacanhez e autoritarismo dos coronéis. E sobre o Sertão Gilberto Mendonça Teles escreveu “ A palavra sertão tem servido, em Portugal e no Brasil, para designar o “incerto”, o “desconhecido”, o “longínquo”, o “interior”, o “inculto” (terras não cultivadas e de gente grosseira), numa perspectiva de oposição ao ponto de vista do observador, que se vê sempre no “certo”, no “conhecido”, no “próximo”, no “litoral”, no “culto”, isto é, num lugar privilegiado — na “civilização”. É uma dessas palavras que traz em si, por dentro e por fora, as marcas do processo colonizador. Ela provém de um tipo de linguagem em que o símbolo comandava a significação (re)produzindo-a de cima para baixo, verticalmente, sem levar em conta a linguagem do outro, do que estava sendo colonizado. Refletia na América o ponto de vista do europeu — era o seu dito (ou seu ditado), enquanto nas florestas, nos descampados, nas regiões tidas por inóspitas, de vegetação difícil, se ia criando a subversão de um não-dito nativista e sertanista que se tornou um dos mais importantes signos da cultura brasileira, sobretudo depois que Euclides da Cunha, no início do século XX [1902], publicou o seu livro magistral, Os sertões, escancarando a realidade brasileira para os próprios brasileiros que, durante todo o século XX, discutiu e louvou este livro, pondo sempre em evidência a sua linguagem, mas sem compreender bem os sentidos latentes na tortuosidade de uma escrita que a crítica, apalermada, pensou fosse uma “prosa parnasiana”, tratando logo de classificar o livro como “romance” [José Veríssimo e João Ribeiro], como “epopeia” [Afrânio Peixoto]e até como “poesia”[José Veríssimo]. Afrânio Coutinho chega ao cúmulo da baianidade, no fim de sua vida, a por ossertões no gênero épico, ao lado de Os lusíadas, do Uraguai, do Caramuru, em vez de incluí-lo entre os grandes ensaios brasileiros. Confundia a metáfora hiperbólica “a epopeia de Canudos” com a sua falta de rigor no estudo do texto de Euclides da Cunha. (TELES, Gilberto Mendonça Teles, O LU(g) dos sertões. Revista Cultura local, v. 3 n. 6 (2011) , p. 1).
O sertão goiano era um imenso torrão de terras ilhadas pela ausência de comunicação, cultura e civilização. Era o Sertão do Sertão, lugar ermo, distante ainda desconhecido do centro político e cultural do brasileiro. Seguia o conceito de Guimarães Rosa para quem o Sertão “não é apenas um pedaço de terra árida ou uma simples geografia, mas um vasto território de emoções, de desamparo, de luta contra as intempéries da vida e da natureza. Não se restringe à paisagem seca e inóspita que o imaginário popular conheceu, mas se expande como um universo simbólico, um reflexo das angústias humanas, um pedaço da alma do Brasil. Uma civilização”: O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucaia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. Rosa, Guimarães.Grande Sertão Veredas, Nova Fronteira 2006, p. 8)
O SOCIAL
Em Tropas e Boiadas a crítica social se faz mais acentuada na novela Gente da gleba. Nesse texto o autor reflete uma sociedade medieval ou anterior à Idade Média, em que as classes menos aguilhoadas pela sorte são colocadas sob o jugo dos senhores feudais ou, no caso das sociedades rurais, dos coronéis. O processo de endividamento dos peões comum durante a colonização do país e até hoje, nos meios rurais, transforma o homem em mercadoria ou escravo por dívida. Assim, quando o negro Malaquias sai da fazenda Estiva levando o equino do coronel praticou mais do que um simples furto, buscou, principalmente, a liberdade. Malaquias era um escravo por dívida.
Benedito, afilhado do fazendeiro, era uma espécie de peão e se julgava um homem livre. Incumbido de buscar o fugitivo não deixou de refletir sobre a condição do negro Malaquias: Geralmente, o empregado na lavoura ou simples trabalho de campo e criação, ganha no máximo quinze mil-réis ao mês. Quando tem longa prática no traquejo e é homem de confiança, chega perceber vinte, quantia já considerada exorbitante na maioria dos casos. É essa a soma irrisória que deve prover às suas necessidades. Gasta-a em poucos dias. Principia então a tomar emprestado ao senhor. Dá-lhe este cinco hoje, dez amanhã, certo que cada mil-réis que adianta, é mais um elo acrescentado à cadeia que prende o jornaleiro ao seu serviço. Isso, no começo do trato; com o tempo, a dívida avoluma-se, chega a proporções exageradas, resultando para o infeliz não poder saldá-la e torna-se assim completamente alienado da vontade própria. Perde o crédito na venda próxima, não faz o mínimo negócio sem pleno consentimento do patrão, que já não lhe adianta mais dinheiro. É escravo da sua dívida, que, no sertão, constitui hoje em dia uma das curiosas modalidades do antigo cativeiro. Quando muito, querendo dalgum modo mudar de condição, pede a conta ao senhor, que fica no livre arbítrio de lha dar, e sai à procura dum novo patrão que queira resgatá-lo ao antigo, tomando-o ao seu serviço. Passa assim de mão em mão, devendo em média de quinhentos a um conto e mais, maltratado aqui por uns de coração empedernido, ali mais ou menos aliviado dos maus tratos, mas sempre sujeito ao ajuste, de que só se livra, comumente, quando chega a morte. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 108)
Ditinho dos Dourados, apesar de ter a capacidade de refletir sobre a condição de ser escravo, foi obrigado a buscar o negro fujão e entregá-lo ao jugo do patrão. Este, depois de ter seu desejo de vingança realizado, foi dominar a vida do afilhado, castrando o rapaz e tirando-lhe a possibilidade de amar e viver: num gesto rápido, o Coronel desabotoava-lhe d”alto as braguilhas da calça (…) mostrou uns flancos robustos, peludos, de Hércules rústicos. A operação foi demorada, cruenta, dolorosa (…) o Coronel, finda a tarefa, recolhia os despojos sangrentos de sua vítima num caco de telha, que depôs num cercado, onde já voejava moscas varejeiras, e foi lavar as unhas sujas no limo do rego. Deu mais uma vez ordem a que atirassem com aquela rês pesteada no quarto escuro do tronco, e fechou a casa-grande, sem mais palavras. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 165).
O crime não teve justiça diante dos homens. O coronel foi aclamado por outros fazendeiros e correligionários políticos do lugar, as quais lhe deram razão: – Coronel, disse um da comitiva, fez muito bem; que essa gente, traste imprestável e traiçoeiro, só serve mesmo para nos dar prejuízos e cabelos brancos. Ainda a semana passada, morreu-me um dos tais, com uma dívida de um conto e quinhentos mil-réis no costado por pagar. E, se não mostrarmos energia, montam-nos o pelo de botas e esporas… Gente ordinária até ali… (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 165). Nesse sentido, os fazendeiros veem os caboclos, como gente ordinária e não percebem a grande verdade de que eles são os homens humildes do sertão, gente da gleba – preto ou branco – todos escravos que somente trabalham para enriquecer o patrão-fazendeiro.
Hugo de Carvalho Ramos, neste conto – Gente da gleba, disserta ainda, sobre as queimadas que devastam a nossa fauna e flora:Pelos dias de agosto, todo o horizonte goiano é um vasto mar de chamas: fogo das queimadas que ardem, alastrando-se pelos Gerais dos tabuleiros e chapadões a afugentar a fauna alada daqueles campos; fogo dos cerrados que esbraseiam, estadeando à noite os seus longos listrões de incêndio nas cumeadas das serras, intrometendo-se léguas e léguas pelo mato grosso e travessões do curso dos rios e subindo, carbonizadas as folhas secas que o vento acamara, pelo cipoal e trepadeiras dos troncos seculares, cuja casca rugosa tisna de sobreleve para ir em fúria crepitar nas grimpas, entre as galharadas verdes, reduzindo a cinzas os ninhos balouçantes do sabiá nativo, as caixas extravagantes da borá e mandaçaia, quando não enxota de pouso em pouso as guinchantes guaribas, os velozes caxinguelês, das alturas prediletas do tamboril, jatobá, aroeira ou barriguda – os mais comuns – daquelas matas. Através do espesso lençol de fumaça que à noite encobre o lume das estrelas, o sol semelha de eito a eito um enorme carvão aceso e sangra pelos flancos a sua luz avermelhada e mortiça, numa atmosfera de forja, que nenhum
sopro de aragem alenta. (…) A obra de destruição vai lento e lento preparando ali a ruína das gerações futuras, embora a natureza opulenta exubere a cada nova hecatombe com redobrado vigor e esplenda em louçanias aos primeiros aguaceiros, espalhando aos quatro ventos, indiferentemente, as messes abundantes com que retribui de ano a ano a bronca insensatez do matuto. E ai! Do destino daquele ubérrimo rincão, não fora o recurso natural das imensas florestas virgens e dos sertões ainda por violar. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed. p. 127-128).
No início do século XX, Hugo de Carvalho Ramos já delatava os problemas do sertão e do Brasil da atualidade, as queimadas, o descuido com a natureza. Na primeira década de 1900, o jovem contista já realizava o que chamamos hoje de ECOCRÍTICA, ou ECOCRITICISMO corrente teórica-crítica que tem como meta refletir, por meio da arte da palavra (poesia ou prosa), as questões que abordam o homem e sua conexão com: a natureza, a cultura e a sociedade que habita sendo, inclusive, responsável ética e moralmente. Naquele tempo, o meio ambiente já estava em fase de devastação e sofria as consequências do descaso com o Planeta e questões ambientais, ecológicas. O eco nos remete ao termo grego oikos, significando “casa”, lugar em que se habita. Essa ausência de cuidado com a TERRA e aquecimento global e se alarga a cada dia e se torna quase que irreversível. Peru de roda é um dos contos que também traz reflexão sobre os desmandos dos coronéis.
OS CONTOS
Em CAMINHO DAS TROPAS, o conto que abre o livro com o registro dos hábitos, dos costumes e com a rotinas dos tropeiros. Apresenta as atividades do sertanejo-goiano do início de 1990. Hugo de Carvalho Ramos estrutura essa narrativa com sua lente literária, pois apesar de dar detalhes que podem até dizer que seja fotográfico, registra como artista da palavra as cenas das tropas, dos tropeiros, de como eles gerenciam animais para o novo dia, do pouso, dos “causos” e principalmente do modo de falar do goiano sertanejo: O tropeiro empilhou a carregação fronteira aos fardos dodianteiro, e recolheu depois uma a uma as cangalhas suadas aoalpendre. Abriu após um couro largo no terreiro, despejou por cima meia quarta de milho, ao tempo que o resto da tropa ruminava em embornais a ração daquela tarde. O cabra, atentando na lombeira da burrada, tirou dum surrãozito de ferramentas, metido nas bruacas da cozinha, o chifre de tutano de boi, e armado duma dedada percorreu todo o lote, curando aqui uma pisadura antiga, ali raspando, com a aspereza dum sabuco, o dolorido dum inchaço em princípio, aparando além com o gume do freme os rebordos das feridas de mau caráter.Só então tornou à roda dos camaradas, ao pé do fogo docozinheiro, no interior do rancho, onde chiava atupida a chocolateira aromatizada do café. (…)- Homem, inda agorinha – atalhou o Manuel, o dianteiro – relembrava um fato que me sucedeu duma feita, quando viajava escoteiro, às ordens do major Matos, pr’essas bandas. O caso é que era então acostado, e de fiança, daqueles de pouca conversa e de grande estadão. Na quinta-feira das Dores, o sol ia descambando, o patrão manda-me chamar, passar a cutuca no lombilho do matungo, e partir sem detença para o povoado, uns papéis de eleição bem arrumadinhos na patrona. Meces devem estar lembrados que na altura dos Marinhos, num estirão de meia légua de tabatinga e terra puba, fica um cemitério abandonado, há muito toca de tatus e camundongos-do-campo. Semana atrás, numa rusga de cachaça e mulheres, esticara a canela ali perto o Bentinho Baiano, um cafuzo intrometidiço, baleado por dois tiraços de rifle na volta esquerda da pá. Para poupar maior trabalho, aproveitaram a serventia antiga do terreno, sepultando por ali mesmo o assassinado. Fora eu até quem, de passagem, cedera a mortalha de ocasião com que o embrulharam, uma larga pala branca,enfeitada de bambolins, que me presenteara alguém que não tem a ver cá com a questão. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed. p. 29)
Assim, o autor focaliza uma nuance espacial “Chouto sopitado do fundo da vargem, e veio a trouxe-mouxe enfileirar-se, sob o estado do relho, na outra aba do roncho, poucas braças adiante da barraca do patrão” (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p.27); e temporal “A tarde morria nuns visos de crepúsculo pelas bandas da baixada” (p.27) preparando a moldura espaciotemporal dentro da qual os episódios vão acontecer. Na criação desse quadro o narrador se detém em fotografar minuciosos detalhes das atividades dos tropeiros numa parada para pouso no fim do dia. À medida que apresenta todas as ações dos tropeiros, de acomodar a tropa em lotes organizados, desencilhá-la, curar as suas feridas e alimentá-la, vai apresentando, também, os personagens e suas respectivas funções: é o Joaquim Culatreiro, arrieiro das tropas; o Cabra ajudante, quem cuida das feridas dos animais; o tropeiro que empilha a carregação e alimenta a tropa; o cozinheiro; e o Manoel, o dianteiro, cuja função é de ser o guia da boiada, também chamado de ponteiro; vai à frente dos animais abrindo o caminho.
Após o desvelamento do contexto narrativo – a apresentação da viagem – o narrador que até então trabalhara com a descrição dos sertanejos, congela na câmera-palavra as imagens do momento em que todos os tropeiros já estão reunidos para o repouso da labuta diuturna e cede a palavra a um personagem – o Manoel.
A partir desse ponto do enredo, o relato passa a ser feito em primeira pessoa e refere-se a outro lapso temporal – o passado remoto dentro do qual, Manoel relembra e nos conta um dos “causos” típicos das vivências do sertanejo – o equívoco do assombramento: – Homem, inda agorinha, atalhou o Manuel, o dianteiro, relembrava um fato que me sucedeu duma festa, quando viajava escoteiro, às ordens do Major Matos, pr’essas bandas. O caso é que era então acostado, e de fiança, daqueles de pouca conversa e de grande estadão. Na quinta-feira das Dores, o sol ia descambando, o patrão manda-me chamar, passar a cutuca no lombilho do matungo, e partir sem detença para o povoado, uns papéis de eleição bem arrumadinhos na patrona. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p.71p. 27)
Certa feita esse narrador-personagem percorria sozinho, à noite, um trecho “na altura dos Marinhos, num estirão de meia légua de tabatinga e terra puba”, onde ficava um cemitério abandonado. O narrador, distraído, não se recordava de que naquele trecho, precisamente, no cemitério ali abandonado, dias antes ajudara a enterrar o Bentinho Baiano, “um cafuso intrometidiço”, assassinado “numa briga de cachaça e mulheres”. Só se deu conta desse episódio quando o seu pangaré estacou de supetão. Por mais que insistisse, o animal não quis prosseguir viagem. Manoel, observou o caminho à frente e percebeu que ia roçando o chão, um lençol aberto, brancacento. Desmontou-se do animal, amarrou-o a um tronco e se aproximou da suposta assombração. Percebeu que o lençol era a pala branca que havia doado para enrolar o corpo do defunto Bentinho Baiano, quando de seu enterro, no velho cemitério, naquelas proximidades.
Nesse ponto do relato, o narrador retoma a palavra, focaliza como se estivesse câmera-palavra e mostra a expressão interessada dos ouvintes e as ações do personagem Manoel que saboreia o prazer da expectativa e da curiosidade criadas na mente de seus companheiros: – Parou, gozando a expectativa angustiosa que errava derredor, entre os parceiros. Bebeu uma última golada de congonha, que lhe servira atencioso o cozinheiro; bateu fogo na pedra do isqueiro, acendeu o cigarrão e olhou para fora, vagamente, meneando. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 29). O narrador onisciente, presente nesse universo narrado, devolve a fala ao personagem Manoel e este apresenta o desfecho do suspense criado: diz que se aproximara da mortalha caminhante, acendera sua binga, pesquisara com cuidado e descobrira que era apenas um tatu peba que penetrara na cova rasa do defunto, para alimentar-se de seus restos mortais e, certamente, no afã do festim, enrodilhara-se no tecido envolto no cadáver.
Conforme já dissemos, o narrador em terceira pessoa oniscient abre o relato, criando um quadro narrativo. Quando transfere a voz ao narrador personagem cria outra narrativa que se encaixa dentro da primeira. Temos, assim, em Caminho das Tropas, uma narrativa encaixada que se justifica pela própria necessidade do autor em registrar os costumes do homem do sertão goiano. E, ao construir a segunda narrativa – o assombramento vivido pelo personagem Manoel da primeira narrativa, Hugo de Carvalho documenta um detalhe da cultura popular do sertanejo: o de contar causos nas rodas de peões em torno do fogo, enquanto aguardam a chegada do sono.
No conto MÁGOA DE VAQUEIRO, o narrador em terceira pessoa onisciente, utilizando-se de uma linguagem erudita e poética, apresenta-nos a dimensão da dor mais profunda da alma sertaneja: o vaqueiro Tonico, um pai, “virando seus sessenta anos bem puxados”, vê-se de repente abandonado por sua única filha, a jovem Maria, que fugira em companhia de Zeca Menino, Um perdido de pagodeiras e do truque, brigão vezeiro nas redondezas, sujeito que além de garrucha e da besta de sela só tinha por si essa estampa escorreita de mestiço madraço e preguiçoso. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 33). Nesse conto, o narrador antecipa o clímax, apresentando-o na introdução do conto por fragmentos narrativos como a fuga da personagem Maria e os versos contados por tio Ambrosino. Ao relatar as ações da fuga de Zeca Menino e Maria, o narrador onisciente situa-as no tempo: “Como os galos viessem amiudando e fora andasse a garoa fria de inverno que precede as primeiras horas do amanhecer”; e no espaço: o Zeca Menino, largando num tamborete o par com quem dera a última volta do catira, esgueirou-se pelo corredor, atravessou sorrateiramente a varanda de terra batida, (…) e saiu pelos fundos da casa. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 35)
À medida que apresenta o espaço e o tempo, o narrador aninhava-lhes detalhes do enredo e assim, o leitor toma conhecimento da festança junina na casa do velho Tonico, da crendice dos sertanejos em – Carijó que assim canta, é que fugiu a moça de casa; namoro contrariado, quando o pai não aprova a escolha da filha, tão real nas questões familiares e do valor dado à honra como se nota no fragmento: (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 34).
É evidente, nesse conto, que o autor focaliza o ser e não o sertão. É o sertanejo, é o homem, é o humano e encontra-se no fim de sua travessia pelo ser(tão) existencial e se apega à sua única alegria, o seu único mimo na sua velhice desamparada e solitária de viúvo, à beira dum atalho sempre deserto e cujo vizinho mais próximo, o Ambrosino, ficava a duas léguas de distância. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 35). Ao desvelar o drama desse velho vaqueiro, Hugo de Carvalho Ramos construiu uma narrativa sociológica, pois centrada numa problemática familiar, porém de ambiência rural.
A BRUXA DOS MARINHOS possui uma arquitetura literária construída em dois pavimentos narrativos. O primeiro, traçado por um narrador em terceira pessoa onisciente, é marcado pela descrição. Esse narrador é alguém que, pode ser o próprio autor, conhece a região, mas é elitizado. A descrição decorativa, poetizada, da fauna, da flora e da terra, apresenta uma construção positiva de uma identidade geográfica do sertão goiano, especialmente nos três primeiros parágrafos do texto. Observa-se, assim, que a ênfase temática desse conto é o cenário. Dentro de um espaço geográfico de riquíssima flora e abundante fauna está encravada a venda da bruxa dos Marinhos, palco dessa lenda narrativa. Ao lado da estrada real e à sombra espessa duma gameleira centenária em cujos esgalhos finos cantava em épocas de sazão a passarada, e arquitetavam o ninho gentil os povis e tiês mimosos de papo fulvo e penugem azulejada das campinas, ficava e venda da bruxa dos Marinhos, assim como a nódoa minúscula e alvinitente duma rês branca, sobre o fundo verde-dourado da imensa malhada que eram aquelas paragens. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p.37). Ainda no primeiro pavimento narrativo, além dos closes paisagísticos de beleza cinematográfica, o narrador apresenta a história do moço arrieiro, personagem inominado, é um tropeiro qualquer, que ao passar pela região, desvia-se dos demais e faz parada na venda da bruxa, “atraídos pelos olhos langorosos e quebrantadores da bela cabocla – arteira e artificiosa em seus gestos provocativos”, “enrabichado”, “presa duma suçuarana de nova espécie”. Por meio desse fragmento, o autor caracteriza a cabocla goiana, como uma felina, onça parda, de porte médio, feroz. É a sertaneja de: beiços polpudos, seios sublevados e as faces carnudas; (…) sensual cabocla, desespero de quantos boiadeiros brônzeos e ricaços em trânsito nessas plagas, que se iam sertão em fora ruminando desaforados e impotentes, quizílias e secretas maldições contra as feitiçarias e quebrantes em que os traziam envoltos o riso e o olhar felinos da terrível ensalmadora. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 40). Conforme se observa, a sertaneja goiana é vista como um dos perigos do sertão. Sensual e encantadora, essa mulher torna-se uma felina perigosa, porque exerce um forte magnetismo sobre os sertanejos, homem valente, capaz de enfrentar as adversidades do seu meio destemidamente. Todavia esse ser se fragiliza quando aprisionado pelas garras dessa mulher felina que o subjuga aos seus encantos sensuais. Assim o valente tropeiro vai sertão afora levando em sua bagagem o peso da saudade da qual não consegue se libertar.
Hugo de Carvalho Ramos esmerou-se no manuseio das técnicas narrativas ao documentar as histórias do sertão goiano. Em sua maioria, os contos de Tropas e Boiadas apresentam um foco narrativo especial. É o caso, por exemplo, do conto em análise, no qual o autor sabotou o relato em terceira pessoa onisciente, quando construiu o segundo pavimento narrativo do texto, usando a ótica de um narrador em primeira pessoa, presente no universo narrado: Ali passei eu duma feita pelo arroxear suave de melancólica tarde de fins de verão, (…)A vivenda lá continuava ao sopé da estrada, e à sombra da mesma centenária gameleira. Não mais porém, em rumorosas manhãs de estio, ao guizalhar festivo das tropadas passantes, se via o freteiro abandonar pressuroso o roteiro batido para vir ali, sedento, matar pesares e saudades da ausência prolongada. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 42-43). Percebe-se pelos fragmentos transcritos que esse narrador em primeira pessoa inserindo num procedimento narrativo que até então vinha adotando uma ótica em terceira pessoa é o narrador-autor fazendo uso da técnica do reconto. E inserido no universo sertanejo, acompanhando as suas idas e vindas, o narrador torna-se um ouvinte do segundo episódio de A bruxa dos Marinhos: a história do crime passional que vitimou dois irmãos, num duelo de sangue, devido à paixão que ambos sentiam pela cabocla. Esse narrador, em viagem, ao lado do condutor um tipo robusto e acaboclado de nortense, lábios finos e olhos profundamente rasgados de índio (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p.44)- torna-se um ouvinte dos fatos narrados, acompanha as alterações emocionais do condutor ao fazer os relatos e indaga-lhe acerca do destino da cabocla feiticeira, cujo desaparecimento revela a crendice do sertanejo nas bruxas dos assombramentos. Assim o narrador em terceira pessoa da primeira parte desse conto é o narrador-viajante, que se manifesta em primeira pessoa na segunda parte do texto. Ele não é um personagem, pois não participa dos episódios relatados. Ele ouve as histórias contadas pelo seu companheiro de viagem – o condutor – e reconta-as ao leitor, dando mais ênfase às emoções do moço arrieiro diante da “bruxa” da venda, que enfeitiçava os homens com sua sensualidade sertaneja, do que à história dos irmãos que se matam por paixão a essa mulher.
NOSTALGIAS é uma das mais belas páginas de Tropas e Boiadas é considerado pela crítica como o mais significativo documento da vida subjetiva de seu autor. Nesse texto, uma carta-conto, um emissor dirige-se ao seu interlocutor e pede-lhe: Já que vais brevemente à Chapada, vê se ainda se encontra legivelmente o meu nome num tronco novo de jenipapeiro que fica junto à casa do teu agregado (se é que ainda o manténs), próximo a umas goiabeiras, e aí talhado por mim a última vez que lá estive. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 45). Todo o texto é relatado nesse tom de muita cor local e apresenta um profundo saudosismo do autor pelo seu sertão goiano.
Victor de Carvalho Ramos, irmão e biógrafo de Hugo de Carvalho Ramos, afirmou na biografia do escritor: Hugo lia muito, escrevia ainda mais. Tornou-se por isso um rapaz sombrio, tímido, arredio das rodas de colegas. Quando queria distrair-se, ia a cavalo à “Chapada”, pequeno sítio de seu tio, onde passava semanas em pescarias e passeios campestres, em companhia de filhos de agregados. Lá está seu nome gravado a canivete na casca de um jenipapeiro fronteiriço à morada de Cassemiro, conforme evoca em Nostalgias. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 21)
Encontramos, no conto em análise, um longo poema de amor desse autor pelo seu estado. São reminiscências sobre o paraíso perdido. E nessa “nostalgia regressiva” em relação ao passado feliz e despreocupado na Chapada, Hugo de Carvalho Ramos, além de marcar o contraponto entre o campo e a cidade grande, registrou hábitos, costumes e a vida doméstica do sertanejo: Anoitecia. A paz do sertão, sugestiva e boa, descia nos escampos solitários. Na mesa tosca, ao canto da sala, fumegava a ‘janta’ sobre a toalha alvacenta d’algodão, (…) Surgiram o angu de caruru nos tigelões pintalgados, a feijoada, o ensopado de peixe, farto, em travessas e pratos estanhados, rebrilhando à luz entre olhos de gordura. (…) Que rica ‘bóia’ e depois que rico sono, aquele que nos surpreendia pela volta das nove, ao tempo que se contava ainda na fieira dos anos onze, doze treze primaveras apenas! (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 47). Está presente nos trechos transcritos um estilo idealizado de vida. A paz e a alegria proporcionadas pela natureza, a vida sem a vertigem dos grandes centros; a alimentação farta, sem a censura do regime alimentar da cidade.
Em outros trechos desse texto epistolar o narrador-emissor faz referência ao lazer, à boa pescaria, aos causos contados pelos sertanejos, histórias impregnadas de folclore; a liberdade do campo, a paz de espírito, a convivência familiar tão saudável e edificante, a lentidão, a beleza dos dias. Essas nostalgias do autor são, na verdade, as nostalgias de todos nós. Cada ser humano ao construir a sua história, faz renúncias, as quais, muitas vezes, deixam marcas nostálgicas dentro das pessoas. Considerando isso, essa narrativa contém a sua dose de existencialismo. … – Aí, a nostalgia do sertão! (…) Revê-la-ei? Não sei. Talvez nunca. Entanto, nesta luta insana pela existência que é o viver cotidiano das grandes cidades, assediado a cada momento por vivos e contrários embates de interesses e paixões mesquinhas, sinto que o meu íntimo permaneceu o mesmo doutrora, insensível e sereno a todas as agressões brutais deste meio material e grosseiro que o cinge e aperta num supremo e frenético esforço de conquista e erguendo, em meio o seu abandono e em meio a sua tristeza, a grande escada de fogo por onde se guindará a outras paragens mais amigas, filhas do meu Sonho e da minha Saudade… Vale. (Tropas e boiadas Rio, 1915 RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 52).
No conto CAÇANDO PERDIZES, outra vez, Hugo de Carvalho Ramos assume uma atitude de sabotagem narrativa ao construir esse conto. O narrador em terceira pessoa onisciente inicia o enredo apresentando os personagens que serão envolvidos na trama: O Guilherme pede emprestado, ao seu compadre Vicente Peludo, o cachorro perdigueiro, Belém, a fim de experimentá-lo pelos lados do Lambedor. A partir desse detalhe, o leitor já converge seu foco de atenção para o cachorro Belém. Este, em companhia de Guilherme, parte para uma caçada e não retorna à casa de Vicente que juntamente com a esposa aguardam a volta dos caçadores. … Amarrara a besta num retiro; trepou para a espera, supondo que o perdigueiro tivesse tomado o rumo de casa. – Pois aqui não voltou; você botou fora o meu cachorro, compadre. – Espera que há de aparecer; bicho de faro como aquele não toma sumiço assim, compadre. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 54)
Observa-se nesses fragmentos a complicação do enredo em torno do sumiço do cachorro. O personagem Guilherme regressa à cidade e o dono do animal, Vicente, sai à procura deste. Vai à casa do defunto Amâncio, outro morador naquelas redondezas, porém não encontra o cão. Desacorçoado, tomou rumo de casa. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p.55)Ia distraído, quando o animal o alertou sobre algo estranho no caminho. Atirou no toro de madeira. Era a sucuri. Após o almoço tornou ao lugar, abriu a barriga da cobra de extremo a extremo e tirou de dentro dela, todo inteiro, enrodilhado e gosmento, (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p.55) o cachorro. Até o penúltimo parágrafo do texto, o leitor é levado a acompanhar a história de um cachorro de estimação, caçador, que fora caçado por uma sucuri. Entretanto quando lê o último parágrafo: E a pele dessa sucuri, ainda há três meses viva lá no meu sertão adusto, tenho-a presente agora sob os olhos, dando volta aos quatro ângulos do meu quarto de estudante… (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 55). O leitor descobre que fora ludibriado pelo narrador. Este, ao se apresentar em primeira pessoa, mostra que o elemento central da narrativa não é o cão, mas a sucuri que engolira o animal e foi morta pelo sertanejo. Evidencia-se assim a sabotagem, ou uma espécie de ludismo narrativo, na estrutura do conto, a qual é inteiramente desmontada com a alteração do foco narrativo.
Em ALMA DAS AVES, Hugo de Carvalho Ramos apresenta expressivas passagens da luta feroz e mortal entre uma galinha da terra, na defesa dos ovos a chocar, e uma cascavel que ali viera se enrodilhar podem ser lidas nessa narrativa. A ronda da morte é um traço marcante nos contos de Hugo. Nesse conto, o narrador a princípio numa visão distanciada, descreve minuciosamente o terreiro da fazenda repleto de galinhas e faz a transfiguração de todo o burburinho e movimento que produzem. Após a construção da nuance espaço temporal, esse narrador se insere no contexto narrativo e passa a fazer parte da trama como uma personagem secundária. Porém, a história é centrada na galinha poedeira que morre na batalha travada com a cascavel, numa tentativa de defender sua ninhada. Esse aspecto configura o narrador em primeira pessoa testemunha da saga da ave.
É importante ressaltar, ainda, que a morte, no sertão, anda a espreitar, nos perigos da mata, homens, plantas e animais. E quando essa “indesejada das gentes” chega, (lembrando Manuel Bandeira) ela deixa perplexos os seres como ocorre em Alma das aves. O narrador-testemunha e outros personagens ficaram paralisados ante a luta desigual entre a galinha e a cobra: A ave, nuns pulos bruscos, bizarros, de batráquio em fúria, acossava de perto o réptil aos esporeios e bicadas. Este, a cada novo assomo, mordia-a desapiedado, chocalhando incessantemente. De novo, voltava à riça o animal, arremetendo corajosamente de unhas e bicos. Novamente sibilava a cobra, ferindo-o, injetando-lhe o pescoço, as asas, o peito incidente e agudo, da mortal peçonha. E o nosso pasmo era tal, que ainda assim permaneceríamos, a ver em que dava a singular briga, se o caseiro, pondo termo à luta desigual, não arrancasse uma estaca, abatendo a cascavel em duas certeiras pauladas. Lanhosa e escamada, ficou-se ela por ali a enrodilhar, enquanto lhe esmagávamos a cabeça. Arrastada para o terreiro, medimo-la com cuidado, achando-
se seis palmos e tanto de comprimento, fora a cauda, cujo crótalo dizia oito anos de idade. Voltamos depressa
à ave. Deitada sobre o ninho, dormia já, mais negra que o carvão.”. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 58-59). Hipnotizados ante o quadro que se desenrolava no aceiro, permitiram que a frágil ave fosse sucumbida pelos ataques venenosos da serpente. E quando o caseiro resolveu interferir na luta e todos passaram a esmagar a cabeça da cobra, a galinha já dormia o seu sono eterno mais negra do que o carvão.
O conto À BEIRA DO POUSO revela, desde o início, o caráter metalinguístico dessa narrativa: Contavam casos. Histórias deslembradas do sertão, que aquela lua acizentada e friorenta de inverno, envolta em brumas, lá no céu triste e carregado, insuflava perfeita verossimillhança e vida animada. Ela maioria, contos lúgubres e sanguinolentos, eivados de supertições e terrores, passados sob o clarão embaçado daquela mesma lua acizentada e friorenta de inverno, no seio aspérrimo das solidões goianas. Acocorados à sertaneja sob a copa desfolhada do pouso – um jatobá gigantesco – ‘aquentavam’ fogo, a petiscar baforadas grossas dos cigarrões de palha, ouvidos atentos ao narrador”. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 60). No primeiro parágrafo, o narrador apresenta a temática do conto – a arte de contar causos. A seguir situa o espaço, o tempo e contextualiza as personagens – os sertanejos acocorados ao redor da fogueira embaixo de um jatobá, onde dormiriam ou fariam o pouso. Aí, contam os seus contos fantásticos de assombramentos, permeados de superstições e terrores. O narrador revela que um dos sertanejos – um arrieiro mestiço traquejado e serviçal, na sua voz grossa e arrastada de cuiabano, arrematara uma estória de lobisomem, a qual deixara no ar um silêncio pesado restabelecido pela impressão sinistra daquela narrativa. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 60). Nesse ponto do texto, cuja estrutura é a mesma dos causos, o narrador, a fim de imprimir o tom de oralidade e conferir maior verossimilhança ao relato, cede a palavra a um personagem que dá continuidade ao enredo, agora em primeira pessoa. Aleixo – “um caburé” truculento amigo da boa pinga e frequentemente mudando de patrão pelo seu gênio teimoso e arreliado” RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 60, – fazendo uso do foco narrativo em primeira pessoa, conta mais um dos causos do sertão goiano, calcado em crendices cristalizadas, como a situação de equívoco vivida pelo narrador-personagem que viajava por estradas de sua terra, rumo a Santa Rita, a negócios, noitão cerrado e vésperas da Paixão, (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 61) quando ouviu passos cadenciados à sua frente. Não havia luar e o lugar era ensombrado. Olhou e visualizou perfeitamente dois negros curvados, num andar ora lento, ora apressado, que levavam ao ombro uma rede de defunto. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 61). Aleixo cravou as esporas em seu animal a fim de ultrapassar as cabras, mas estes aumentaram a velocidade impedindo que o narrador-personagem ganhasse a dianteira. Viajaram algum tempo nessa maratona olímpica da qual não saía um vencedor. Mais de uma hora depois, a lua ilumina os dois carregadores e o sertanejo-narrador enxerga-os: era uma vaca de quartos escuros e barriga malhada sua companheira de viagem. Findo esse episódio, o narrador em terceira pessoa reassume a palavra e tece comentários sobre a própria narrativa. A companhia respirava aliviada. O plenilúnio acinzentado e friorento de inverno, envolto em brumas, lá do céu triste e carregado, insuflava vida e animação às personagens fantasmagóricas daquelas histórias primitivas. Cincerros badalavam intermitentes e sonoros na campina ao fundo, onde a neblina hibernal do sertão, esgarçada e refeita aos raios mortos da lua, abafava o horizonte. Fumegando, a chocolateira
fuliginosa e aromatizada de congonha passou de mão em mão, transbordando as cuités. A fogueira – em brasa – tremeluzia. Um outro tomou a palavra. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 61).
Hugo de Carvalho Ramos foi magistral na escrita dessa narrativa. O autor transmite ao leitor a magia da arte de contar histórias. Ao fazer isso, esse escritor emenda à sua colcha literária, mais um retalho da cultura do sertanejo goiano. Observamos ainda que a dúvida de Aleixo quanto à possível assombração é, também, partilhada pelo leitor, que só percebe o equívoco quando o sobrenatural se desfaz e é explicado racionalmente.
Em O POLDRO PICAÇO, Antônio – peão domador – é o narrador-personagem que conta a história do indomável poldro picaço e de seu fracasso ao tentar amansá-lo para a neta do patrão. Chegara no curral da fazenda uns poldros cordões, sangue azougado, crescidos. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 64). A neta do patrão se interessava por um pingo picaço. Antônio foi solicitado a amansá-lo. Os peões do sítio como tio Pedro e Mateus conjecturavam acerca da valentia do animal. Domador afamado que era, o rapaz, encilhou o poldro, montou-lhe e ambos ganharam o campo aberto. Picaço corcoveou, saltou e se deitou ao chão, com violência, o cavaleiro: Quando dei acordo estava estirado no banco da varanda, sobre o joelho da menina, que me banhava a cabeça num lenço ensopado, todo besuntado da sangueira que me saía duma brecha funda do cocoruto, esta mesma cicatriz que aí vê (…)– O sangue estancado, ela atou-me o lenço à ferida, embebeu-o de bálsamo e esteve muito tempo a olhar, compadecida… Mais tarde, quando quis restituir aquele pedacinho rendado de batista – que trazia um G arabescado tão perfeito, bordadura de seus dedos, recusou. Trago-o aqui desde então, sobre o peito, bem dobradinho, como breve. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 66-67). Nestes fragmentos observa-se que o narrador-personagem desloca o eixo narrativo do poldro picaço para a história de seu amor pela jovem Guiomar, neta de seu antigo patrão. Nesse aspecto, a narrativa deixa de ser a do particular sertanejo para apresentar o mundo dorido do personagem Antônio. Novamente o leitor é ludibriado ao imaginar que acompanhará até o desfecho do conto a história do poldro picaço. Esta apenas funcionou como uma moldura para o encaixe do relato sobre o amor não correspondido do narrador-personagem. Apenas ao final deste conto, percebe-se que o atual patrão do personagem Antônio é quem numa situação de viagem com este, ouve-lhe todos os relatos feitos e reconta-os ao leitor.
NINHO DE PERIQUITOS – tanto na forma, como no conteúdo – é um dos mais belos contos da literatura brasileira. Sinteticamente, Hugo de Carvalho Ramos, pinta de forma extraordinária, a natureza campesina e o contraste da sina do roceiro. O narrador em terceira pessoa conta a estória da personagem Domingos que, a pedido de seu filho Janjão, foi buscar uns filhotes de periquitos para dar-lhe como presente de aniversário: O lavrador alçou com cautela a destra calosa, rebuscando lá por dentro os dois borrachos. Mas tirou-a num repente, surpreendido. É que uma picadela incisiva, dolorosa, ragara-lhe por dois pontos, vivamente, a palma da mão. E, enquanto olhava admirado, uma cabeça disforme, oblonga, encimada a testa duma cruz, aparecia à aberta do cupinzeiro, fitando-lhe, persistentes, os olhinhos redondos, onde uma chispa má luzia, malignamente… O matuto sentiu uma frialdade mortuária percorrendo-o ao longo da espinha. Era uma urutu, a terrível urutu do sertão, para a qual a mezinha doméstica nem a dos campos possuíam salvação. Perdido… completamente perdido….(RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p.70). Imediatamente, diante do terrível animal, sacou o facão amputando-lhe a cabeça. Então sem vacilar, num movimento ainda brusco amputou a própria mão direita, a mão mais necessária ao seu trabalho diário de lavrador. Porém, a vida é mais importante, por isso que: enrolando o punho mutilado na camisola de algodão, que foi rasgando entre dentes, saiu do cerrado, calcando duro, sobranceiro e altivo, rumo de casa, como um deus selvagem e triunfante apontando da mata companheira, mas assassina, mas perfidamente traiçoeira… (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 70). Ninho de periquitos é uma narrativa insólita, uma pintura descritiva numa talentosa evolução do lírico para o clássico, com admirável suspense e um fulminante clímax. No final, a surpresa é a vitória do caipira sobre a própria morte e diante dos perigos da floresta.
Hugo de Carvalho Ramos em O SACI utiliza a técnica do reconto – já explicada em outros fragmentos analisados – Ioiô, um preto velho, conta a história do moleque saci, do pai Zé e suas mulheres. Sendo o saci um negrinho endiabrado e dono de um gorro poderoso, pai Zé, saindo um dia a cata dumas raízes de mandioca castela que Sinhá-dona lhe pedira topou (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 71) com o moleque e lhe afanou a carapuça. O saci ficou rodopiando endoidecido. Conta ainda o narrador Ioiô, que o pai Zé aproveitou a ocasião para pedir a entidade uma mandinga, para conquistar a mulata Sá Quirina. O trato foi feito e cumprido na exata hora que Sá Quitéria, esposa do pai Zé, flagrou-o recebendo o feitiço. Desde então o casal nunca mais teve sossego, tamanha foi a desavença entre os dois. Ioiô, com esta história quis demonstrar as artimanhas e as maldades do saci-pererê. Deve ser observado nesse conto o pitoresco na pintura do herói-amante, o pai Zé, que Hugo descreve com seus sessenta e cinco anos e meio, um olho de menos e falta de dente na boca. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 71). Com a descrição ressalta que o amor não tem idade e nem aparência. Tanto do pitoresco das personagens quanto da linguagem se ajustam no fundo e na forma e se justificam no caráter regionalista do conto.
O conto PERU DE RODA é narrado em terceira pessoa e a figura do coronel que se impõe com poderes ilimitados nas relações de trabalho com o sertanejo pobre. O enredo dessa narrativa apresenta duas situações distintas. Na primeira temos, o descritivismo da paisagem regional, dos tropeiros em suas atividades, do coronel Pedrinho e do arrieiro Joaquim Percevejo. Na segunda, mostra a força do Coronel Pedrinho que não se deixou arrastar pelo medo dos inimigos.
Ao traçar o perfil do coronel Pedrinho, o autor já o apresenta como um bom caráter, valente, destemido, justo e bem apessoado. Joaquim Percevejo, o arrieiro, por outro lado, era um tipo bem diverso do patrão gênio difícil e sisudo: uma longa faca de arrastro sustida ao correão da cinta pela espera de sola grossa, a barbaça grisalhona, espalhada em leque sobre as cordoveias do papo túrgido e rubro de peru de roda, afunilada e acabando em bico na boca do estômago, as pernas mui curtas e em arco pelo hábito da montaria, era um homem cuja eterna sisudez impunha sempre um respeito desconfiado aos camaradas. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 74). Entretanto, o arrieiro Percevejo conduzia com mãos de ferro as tropas do coronel Pedrinho, atividade da qual sentia muito orgulho. Numa das viagens não foi bem-sucedido na orientação acerca do trato do animal Passarinho. O narrador onisciente registra detalhadamente e sem pressa todos os movimentos das tropas e dos tropeiros. Parados para o pouso, o patrão chama a atenção do arrieiro sobre a questão do animal. Este, teimoso, não aceitou e pediu demissão de suas funções na segunda parte desse relato, acompanhamos Joaquim Percevejo vivendo um episódio tragicômico. Procura abrigo e trabalho com o Seu Ivo, mal-encarado coronel, afazendado naquelas alturas. O coronel Ivo era um famanaz temido nas redondezas. Braço direito dos chefões estaduais, ferrador de burros e antigo tropeiro como o maioral deles, quando ia à cidade, os babaquaras da terra interrompiam a palestra e safavam-se pelos cantos, ao assomar na esquina o seu vulto apessoado de anta brava. (Não sorriam os leitores; é histórico e atual. E é até possível que quem escreve estas linhas fizesse o mesmo… Qualquer dia vê-lo-Emos deputado federal pelo Estado.) Também, as suas façanhas contavam-se pelos anos de vida; e,entre as menores, registrava-se o castramento por suas mãos de uma pobre pancada em Goiabeiras, o estoiro de outro – de quem suspeitara meter-se-lhe a engraçado com a mulher, em Curralinho,à força de infusões de malagueta e salmoura deitadas goelas abaixo,por intermédio de um funil… Naquela sua fazenda nos arredores das Estacas, quarenta agregados e acostados enchiam-lhe as casas, pelo menos. O sítio era um arsenal, centro das marombas politiqueiras do município. Camarada que para ali fugisse, se era da gente da oposição, tinha coito e segura garantia. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed. p.81). Ocorre que o arrieiro devia ao coronel Pedrinho três contos, seiscentos e oitenta mil réis. Acertadas as contas, Joaquim Percevejo ficou de retornar para quitar a sua dívida. No entanto, Seu Ivo, coronel famanaz e temido nas redondezas, inescrupuloso, não simpatizava com a autossuficiência do coronel Pedrinho. Acolheu Percevejo, ofereceu-lhe a proteção de sua jagunçada, mas não se mostrou disposto a pagar a sua dívida. Este procurado pelo antigo patrão acerca do débito respondera que: A conta será quando Seu Ivo quiser… (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 82). O coronel Pedrinho destemidamente avançou sobre o arrieiro na roda dos jagunços, amarrou-lhe pelas barbas ao rabo da mula e o levou de volta às Estacas. Lá, soltou humilhado o arrieiro, expulsando-o. Esse episódio, grotescamente narrado, revela o despotismo de uma figura quase intocada na sua exploração contínua das demais categorias sociais – o coronel, feitor de suas próprias leis.
No que se refere à técnica narrativa, é importante ressaltar que Hugo de Carvalho Ramos empregou a metalinguagem e um humor irônico, embora a tenha feito em um único parágrafo do texto: (Não sorriam os leitores; é histórico e atual. e é até possível que quem escreve estas linhas fizesse o mesmo…Qualquer dia vê-lo-emos. Deputado Federal pelo Estado).
Outro aspecto interessante é o uso de personagens já inseridos em outros contos, como é o caso do Zeca Menino, personagem de Mágoa de vaqueiro e do Seu Ivo – coronel mal afamado, que castrara um indivíduo, fato aludido em Gente da Gleba. Ainda há a presença de trovas que revelam o machismo do sertanejo conforme se vê para ser cantada seguinte em verso: Mas agora venho a crer/Que para tudo Deus dá jeito;/O cavalo se barganha, /A casa a gente reteia, /Do guri se tira a manha, /Na muié se mete a peia!
A figura feminina aparece em alguns contos como em Mágoa de Vaqueiro, (a jovem Maria que fugiu com o Zeca Menino), A Bruxa dos Marinho (como a prostituta e uma espécie de maldição), O Saci (Sá Quitéria e Sá Quinina), Pelo Caiapó Velho (com a Leprosa) Gente de Gleba (Sá Chica, Nhá Lica, a mulher do coronel, d. Luzia e Sá Maruca,( da venda), Joana e Sá Chica (apresentada como uma perdição de Benedito dos Dourados) para citar as que marcaram as narrativas, como protagonistas ou responsáveis pelas dores e angústias das histórias. Algumas são denominadas de Chica do povoado, raparigas que estão à disposição dos homens, mas é história a submissão da figura feminina, principalmente nesses rincões do sertão de Goiás. A figura da mulher em Hugo daria outro estudo.
GENTE DA GLEBA é uma narrativa enovelada, trançada por doze episódios. Este é o motivo dessa história não ser considerada um simples conto. Denomina-se conto a narrativa curta de apenas um núcleo dramático.
Esta novela, Gente da gleba, é um texto composto pelo encadeamento de vários pequenos núcleos que caminham para um núcleo dramático de maior densidade. É o amor de Nhá Lica por Benedito; é o relacionamento amoroso de Seo Dito com Sá Chica; é a fuga, a captura e o castigo do negro Malaquias; é caso da traição do coronel e de Sá Chica; é a castração do Dito dos Dourados; é a tortura e morte simultânea de Benedito e Nhá Lica; é a possibilidade de feitiçaria e maldições lançadas por Malaquias. A novela é desenrolada a partir de um narrador em terceira pessoa onisciente demiurgo, dono dos acontecimentos e dos segredos das personagens desta história que, segundo afirma Xavier Júnior, num artigo denominado Leitura e Lembranças, escrito em Anápolis e publicado em 1946, é fato verídico “e foi julgado em sessão de júri”. O nome do delinquente aparece no conto Peru de roda: O coronel Ivo era um famanaz temido nas redondezas. (…) Também, as suas façanhas contavam-se pelos anos de vida; e, entre as menores, registrava-se o castramento por suas mãos de um pobre “pancada” em Goiabeiras, o estoira de outro – de quem suspeitava meter-se-lhe a engraçado com a mulher, em Curralinho, à força de infusões de malagueta e salmoura deitadas goelas abaixo, por intermédio de funil… (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed. p.81). No entanto em Gente da gleba, esta personagem é inominada, é tratada apenas por coronel ou fazendeiro, porém, como já foi afirmado, consta que este criminoso existiu na realidade e essa história foi baseada em fatos reais. Diante do exposto, o narrador, revela-se um mestre na arte de contar casos – acontecidos ou não. Pois, além de conduzir magistralmente cada episódio e seus suspenses, guia as personagens e o leitor, passo a passo, tendo como inspiração cenários e histórias do sertão de Goiás. Além disso, concede a palavra, os pensamentos, as divagações, as lembranças, os amores e desamores, às personagens. O editor do Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, no dia 5 de julho de 1917, assim se pronunciou sobre o jovem escritor: Gente da gleba, não vale, entretanto, somente como novela sentida. Vale como um estudo social. O autor mostra como no sertão longínquo o regime de trabalho ainda é depalperante e iníquio, prejudicando patrões e trabalhadores. (…) A novela tem muitas notas pitorescas: as festas do arraial e ranchos, as aventuras de amor, as recordações da vida da capital que a filha do fazendeiro, alma cândida e boa, faz, sentindo que, pelo isolamento que vive, ela, educada e fina, é obrigada a amar a um companheiro de infância de baixa condição. (…). Desta forma, Carvalho Ramos distrai e comove o leitor e faz uma narração filosófica sobre o amor, a vida, o ódio, a morte, as superstições, as crendices, o real, o imaginário, o sertão e o sertanejo por meio de uma construção narrativa cinematográfica, movida por uma dúzia de episódios que atraem o leitor para a próxima cena e ação.
No primeiro episódio, o narrador apresenta o jovem Benedito dos Dourados preparando-se para uma longa viagem noturna da fazenda Estiva até o povoado Santo Antônio a fim de rever sua amada – Chica. No caminho, de repente sua mula empaca. Ele assustado, avista vultos entre as árvores e um morto. Acreditando ser assombração, pôs-se a atirar, mas quando cessou, viu que era o velho Cristino, que enterrava seu filho: – Olha que me mata, moço! Anda a gente a cumprir com seu dever de cristão e saem-lhe em cima aos tiros! Já se viu só! Santa Maria!…. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed. p.81-82) Benedito ajuda o velho Cristino a enterrar o rapaz e fica ali toda a noite. O narrador inicia o segundo episódio descrevendo, poeticamente, a madrugada: Já as barras vinham quebrando e no cabeço dum serro, mui branca e tremeluzente, a estrela-d’alva minguara o seu clarão lacrimejante, anunciando o romper do dia. ((RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed. p.91); e, sua câmera focaliza Benedito chegando, de manhã, no vilarejo. Depois de acomodar-se, vai até a missa para, logo após, ir ao encontro de Chica. Após repousar, dirige-se à venda para jogar truque com os amigos e ouvir histórias: Um tropeiro passado próximo ao Araguaia, fora abrigar-se debaixo de uma árvore. Uma noite de pesadelos e, quando acordou, havia uma cascavel dormindo sobre seu peito. Apavorado, esperou que a cobra acordasse e se fosse. Chegou ao acampamento de cabelos brancos. No terceiro episódio, já em Estiva, o narrador descreve a fazenda que se prepara para a festa do Divino Espírito Santo. Fogos, luzes, missas e mulheres pagando promessas marcam a festa. Comida em abundância e o desfecho da noite são as trovas sertanejas. Nhá Lica (moça-filha do coronel e de d. Luzia), no quarto episódio, aparece contando pontos de crochê. Começa a recordar os seus tempos de infância, em que estudara num colégio interno, rigorosamente religioso. Relata detalhadamente, todos os momentos da Semana Santa, suas missas e procissões. Descreve também, as tradições goianas: as Folias do Divino (festas que duravam dias às custas do dono das terras), as Cavalhadas (luta entre cristãos e mouros), as danças regionais como o bumba-meu-boi, a dança do congo. Tantas lembranças e uma lágrima.
No quinto episódio, Malaquias (negro, escravo por dívida) foge da fazenda levando a melhor mula. Benedito é incumbido pelo senhor de achar, nos confins goianos, o negro fugitivo. Benedito, então, se prepara para a viagem. À noite, Fidélis lhe conta a história de um assassino que tinha um “bentinho” no pescoço que o protegia contra qualquer bala. Esse homem só morreu, mesmo baleado, após tomarem seu bento – Pedindo-lhe que tivesse cuidado, pois Malaquias possuía um “bentinho” igual: – Seu Dito, toma tento com aquele crioulo, caso venha a topá-lo, o que duvido, avisou Fidélis; é o bicho sarado, tem mandinga contra arma de fogo. Mesmo ferro benzido, escorrega naquele couro que até parece bagre fora d’água. Toma sentido! – Essa cantiga comigo não adianta, disse afinal. Não há como pulso firme e franqueira de fiança, sempre pronta na ocasião. O mais, conversa fiada… (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 124). No sexto episódio, a seca é descrita minuciosamente. As queimadas e a terra sem vida: Se o incêndio devorou os capoeirões e pastagens naturais, deu por sua vez cabo da praga de carrapatinhos que depauperava a criação. É o tempo em que os carniceiros caracarás, únicos satisfeitos na desolação derredor, se põem a catar os gordos rodoleiros – caídos de maduro – na pelanca descarnada dos animais, esborrachando-os no bico d’aço retinto ou dum bigode de sangue negro, ora pousados no lombo, ora entre as aspas, ou sob a barriga varada, aos pulinhos curtos, mas certeiros, e gritos bruscos de espaço a espaço. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 129). Nhá Lica lembra de suas traquinagens de infância. Nesse período, entremeado de sonhos e aventuras, Ditinho e Nhá Lica desfrutavam de uma estreita comunhão que a levou a nutrir uma forte amizade por Ditinho. Até que foi mandada para o colégio interno. Quando voltou, já moça, não mantinha a bela amizade com Dito, que agora só lhe dirigia com respeito e envergonhado. Ela sente falta daquele tempo. No sétimo episódio, Benedito, que incessante continuava a procura ao negro, acaba por, em uma comitiva, recuperar o animal furtado, onde recebe notícias de Malaquias. Dito ajuda um boiadeiro a passar a boiada no rio e não aceita o dinheiro como recompensa. No oitavo, a seca chega ao fim e as chuvas estão de volta: Chovia aquela noite. Não essa chuvinha miúda, comum às plagas do litoral, que no sertão cacheia os arrozais, e o lavrador abençoa como as primícias duma colheita abundante; mas aquela pancada pesadona, cortada de relâmpagos ziguezagueantes e estampidos de trovão, que emudece a natureza e transe as árvores sob o látego do vento esfuziando nas baixadas, e quebra a tala o milharal em que o matuto depositou as esperanças do ano. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 142). Dito encontra Malaquias e o prende. No caminho de volta, o negro tenta convencer Dito da paixão de Nhá Lica por ele. Seo Dito neste momento esquece de Chica e lembra toda a sua infância ao lado de tão meiga moça. No nono, o narrador descreve a chegada de Benedito ao “Quilombo”: Ainda não havia de todo anoitecido, quando avistaram, dentre currais, os telhados do Quilombo, para onde tangia João Vaqueiro uma ponta de gado. Na tarde que caía, o vulto do cavaleiro, cortando a galope a frente dum garraio refugado na porteira, agitava-se ao longe como um pequeno ponto sujo no horizonte; e até cá embaixo, na vargem por onde subiam, vinha rolando o canto do vaqueano, num supremo e vigoroso lamento: – Ê côou!… Êh! côou!… Êh!… (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 142). Ninguém da família estava presente. No outro dia, Dito arrependeu-se de ter capturado o negro, pois o coitado apanhara impiedosamente sem soltar uma palavra. Dito só pensava em Nhá Lica. À noite, Fidélis narra a história do pai Romeu que apanhou calado, mas misteriosamente o filho do coronel também apanhou até morrer. João Vaqueiro era fiel ao capitão e não entendia o porquê de sua conduta, já que era explorado, mas continuava fiel.
No décimo episódio, o narrador focaliza o dia trabalhoso do Dito dos Dourados. Este fora encarregado de vigiar a fazenda. Lembrou-se de Chica e num impulso foi vê-la; quando lá chegou, encontrou-a com outro homem. Tomado pela ira, bateu em Chica e depois violentou-a. No décimo primeiro episódio, o narrador, mais uma vez, descreve poeticamente o amanhecer: A luz batia na chapa no forro da telha-vã, quando abriu os olhos daquele sono de pedra, (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 159). Dito não encontra Chica. Bêbado, volta para casa a galope, quando encontra Malaquias. Este avisa-lhe para fugir, dizendo-lhe que o coronel era o amante de Chica e queria por tudo matá-lo. Colérico, Dito vai em direção a fazenda onde é pego em uma emboscada. Preso, é castrado como uma rês e João Vaqueiro, sentido com o ocorrido, avisou à mulher que estavam de partida. No último capítulo desta novela, Quilombos encontra-se em ruínas. Todos os empregados vão embora. O coronel muda-se para junto da família e anuncia a venda da fazenda. Dito morre lá no tronco de inanição, ao mesmo tempo que velavam a morte de Nhá Lica, morta de tristeza e paixão.
A MADRE DE OURO é um conto narrado em uma falsa terceira pessoa que reconta a lenda: História que tem a sua origem nos bólidos, fenômeno que o olhar aparvalhado do matuto observa, muitas vezes, pelas noites claras daquela terra de várzeas e chapadões e de que gera a imaginativa a sua lenda, filha do cósmico deslumbramento e da superstição primitiva. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 170). A história narra o seguinte: passada a febre de ouro nas cidades de Bonfim, Vila Boa de Goiás, Meia Ponte e outras de núcleos coloniais do século XVIII (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 168) com suas inconfundíveis arquiteturas reinou em estilo barroco, são abandonadas, restando apenas uma pequena população que se dedica à agropecuária e às lembranças das febres de riquezas do passado. São agora belas adormecidas, páginas heroicas de um passado de riquezas. Desse saudosismo, surgem histórias, estórias de lendas e superstições. Dentre as muitas, está a lenda da Madre de Ouro, uma pedra de ouro enorme, dentro do rio, num poço de águas remansadas denominado Poço da Roda. Ali ficava a reluzir encantamento. Essa pedra é alvo da cobiça de homens que, encantados com a sua luz que cega a vista, tentam pegá-la, mas são mortos à noite. O fantástico se instaura no momento em que a Madre de Ouro se torna um cometa: E tal como a ouvimos, no interior, o seu quebranto consta do seguinte: Quem escuta ou vê, no ermo da noite, a passagem da Mãe de Ouro cortando o céu estrelado com o seu listrão ardente, toma na cozinha da choça um tição em brasa, corre a limiar e faz no espaço uma cruz de fogo. Logo, cede a Aparição ao sortilégio do homem, detém a sua carreira vertiginosa, e arrebenta em estilhas, lascas, pedrouços, calhaus e blocos, tudo de ouro maciço e do mais puro quilate. E depois, toca a catar e a meter no surrão aquela fortuna inesperada… (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 170). O conto, tem o clímax na hiperbólica superstição de acreditarem que, aquele que vê a aparição da Madre, e com um brasão de fogo fizer uma cruz no espaço, se tornar-se-á rico, pois ela explodirá, partindo em vários pedaços do mais puro ouro. Para os crédulos tudo pode acontecer.
PELO CAIAPÓ-VELHO é um belo conto pela descrição e narrativa do velho sertanejo que relembra as peripécias de um vaqueiro quando jovem, nos meados de 1868 ou 69… (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 171). O vaqueiro-narrador conta ao patrãozinho um caso lhe que acontecera numa noite escura e má, lá nos xarais, nos fundões do Matogrosso. Viajava sozinho em um tempo chuvoso, montado num macho crioulo. Estava decidido a passar a noite sob um pé de jatobá, quando ouviu um canto de carijó, avistou uma casa e pediu pouso a uma mulher. Com grande habilidade, Carvalho Ramos, conduz o leitor para o clímax inesperado. O peão-narrador passa uma saborosa e épica noite de amor, sobre o caiapó. Este episódio ficou marcado psicologicamente na abrupta visão do novo dia, no seu espanto, na sua repulsa e na alegria da morfética que ganhara novo estímulo naquela noite.
Este conto fica marcado psicologicamente na lembrança do leitor através do nojo conduzido pelas cenas do peão comendo o feijão com toucinho (na verdade os dedos ou pedaços da leprosa). Por isso o estômago do vaqueiro advinhando, enjeitava zangado. O leitor, sente ainda grande nojo, durante os momentos de prazer que o peão desfruta no jirau da mulher, mesmo em seus braços, que julgava roliços e macios, mas que eram lisos e escorregadios como bagre fora d’água, beijando suas bochechas carnudas e empapuçadas. Fora, entretanto, pelo breu da noite adentro, o ram-ram danado dos sapos e pelo beiral da palha de arroz velha, ruflando caixa, a chuva amiudava – nunca me ei de esquecer. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 174). Asco maior acontece para o narrador e leitor na manhã seguinte, quando a mulher é vista a luz do dia. Nesta hora o narrador emudece, bate o isqueiro e revela: (…) fala sumiça da dona chamou-me de dentro: – o café! (…) – Patrãozinho – e o sertanejo cuspiu forte para ambas as bandas da estrada – das bochechas e beiços arregaçados numa vermelhidão de apodrecido da rapariga, corria visguenta e fétida por entre uns tocos de dentes amarelos – patrãozinho – uma baba de empestado… Os dedos da mão, não os havia… (…) – Macutena, patrãozinho, macutena… (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 174-175). O tom dramático do conto reside no trauma e asco do narrador, que até hoje não consegue esquecer essa noite escura e má.
DIAS DE CHUVA é a narrativa que encerra Tropas e Boiadas e uma das mais belas páginas deste livro. É uma prosa poética de exaltação e amor ao torrão natal. O narrador em primeira pessoa, já nas primeiras linhas assim se manifesta: Cai a chuva lá fora. Plac! plac! ouço-a cantando em goteiras e cornijas, no cimento molhado da rua e nas vidraças embaçadas do meu quarto. Não sei por que, vendo o borraceiro descer, o espírito embebe-se-me em doce e longínqua rêveire. Vejo, através duma tela úmida as paisagens distantes de meu torrão natal, e afaz-se-me a que ando viajando, como antigamente, por esses sertões, sentindo sob o pala de viagem a água cirandar forte, cabriolando e verdascando sobre os serros longes, as saraivadas, ou peneirando grosso, em meio o rendilhado sombrio da floresta por onde vou. (RAMOS, H. 1984. 6ª. Ed.p. 176). A imagem e o som da chuva, poeticamente captados, no presente do narrador-personagem conduzem-no a uma viagem imaginária ao sertão do seu passado. Ele se transporta no tempo e no espaço e sua câmera vai filmando a paisagem, os animais e o clima em dias de chuva. Dias de silêncio na floresta, mas que ao invés de despertarem melancolia no autor, transmiti-lhe grande paz, conforma sua alma.
O GÊNIO, SUA ARTE E SEU LEGADO
Numa casa do Largo do Chafariz, na cidade de Goiás, nascia, a 21 de maio de 1895, Hugo de Carvalho Ramos, coincidentemente, quando seu pai o ex-juiz de direito em Caiapônia, Manoel Lopes de Carvalho Ramos, providenciava, em Portugal, a impressão de seus livros Os Gênios e Goyania. Como aluno do Lyceu de Goyaz, destacara-se principalmente em português, História e Literatura. Porém, Hugo de Carvalho Ramos apresentava um comportamento que todos consideravam estranho. Sempre calado, retraído, ar melancólico, esse autor passava a maior parte do dia na biblioteca, onde lia exaustivamente obras de Coêlho Neto, Euclides da Cunha, Victor Hugo, Verlaine, Nietzsche, entre outros. Ultrapassada a primeira etapa dos estudos, transferiu-se para o Rio de Janeiro e matriculou-se, em 1916, na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais. Inteligente e sensível, cedo iniciou-se na carreia literária, escrevendo em prosa e verso. Sabe-se que alguns de seus contos mais conhecidos foram escritos, entre 15 e 16 anos. Em 1917, publicou Tropas e Boiadas, coletânea de contos de inspiração sertaneja, que mereceu referências elogiosas da crítica nacional. Em 1920, prestes a concluir seu curso jurídico e já abatido por crises de depressão, viajou ao interior de Minas e São Paulo. A depressão nele se acentuou em 1921, de maneira insidiosa e grave e pode-se dizer, com visos hereditários, pois o pai sofria da mesma moléstia. Os indícios de que o mal exauria suas forças físicas e mentais estavam no mosaico de sintomas apresentados em maio de 1921: tristeza profunda, insônia persistente, extrema fadiga, perda de apetite e peso, apatia, o auto isolamento e, segundo seus biógrafos, tirou a própria vida. Em um dos seus últimos escritos, que o fogo não destruiu, lê-se o seguinte: – “Ó meu amigo! Abandona sua indolência. Vê que na batalha da existência humana nenhum ser humano é poupado. Aproveita os seus dias que tão rápidos se escoam e encara de frente o perigo, enquanto possui o vigor necessário da mocidade para encontrar um apoio seguro à idade madura”.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A literatura de Hugo de Carvalho Ramos tem como marca a descrição da paisagem, do homem sertanejo – tropeiros, boiadeiros, caboclos, gentes da gleba e a descrição das tradições, das crenças, dos folclores, dos usos, dos costumes, do ser do goiano. A obra desse escritor funciona como uma câmara filmadora que grava o mundo do sertão de Goiás e faz uma reportagem destes ermos, levando ao mundo a gente de Goiás, suas vivências, seus problemas, sua geografia; as questões sociais, ecológicas e históricas.
Tropas e Boiadas é uma obra que está enquadrada no Pré-Modernismo, período que vai de 1902, ano das publicações de Os Sertões, de Euclides da Cunha e Canaã, de Graça Aranha, até 1922, ano de realização da Semana de Arte Moderna. Durante esse período, coexistiram em nossa literatura duas tendências básicas: uma conservadora e outra inovadora. A tendência conservadora era marcada pelas produções poéticas parnasianas de Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Raimundo Correia; simbolistas de Cruz e Souza e Alfonso Guimarães e pela prosa tradicionalista de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e Coelho Neto. A tendência inovadora era caracterizada pela incorporação de aspectos da realidade brasileira ao conteúdo das obras literárias, num crescente regionalismo. Essas obras traziam a presença de tipos humanos marginalizados pela elite: os sertanejos nordestinos e do Centro-Oeste, os tropeiros e boiadeiros, os caboclos do interior, dos subúrbios e o mulato. O Brasil sertanejo, a realidade brasileira não oficial, surgem como temas de inúmeras obras do período. Destacam-se pela utilização dessas temáticas, Euclides da Cunha (com os problemas do Nordeste); Lima Barreto (com as diferenças sociais e culturais do subúrbio do Rio de Janeiro); Monteiro Lobato (com a realidade rural paulistana); Graça Aranha (com os problemas ideológicos e sociais, numa colônia alemã, no Espírito Santo) e Hugo de Carvalho Ramos (com o sertão, o sertanejo, as tropas e as boiadas dos ermos goianos) deixa uma de arte presenteia Goiás com sua obra TROPAS E BOIADAS, primorosa, necessária e imortal – UMA POÉTICA DO SERTÃO GOIANO.

Profa. Dra. Maria de Fátima Gonçalves Lima é autora de 50 obras, ensaísta, crítica literária, escritora de obras da literatura infanto-juvenil, Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Letras – Literatura e Crítica Literária – Mestrado e Doutorado da PUC Goiás. Sócia Titular do Instituto Histórico e Geográfico e Titular da Cadeira nº 5 da Academia Goiana de Letras (AGL).
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