Fiscais flagraram 23 quilombolas em área desmatada para plantio de soja e pasto em Januária, em situação de “sujeira extrema”

Cômodo que trabalhadores tinham para dormir era aberto e com trânsito de animais, que defecavam no local | Foto: Divulgação / SRT/MG

Vinte e três trabalhadores quilombolas foram resgatados em condições análogas à escravidão em uma fazenda ao norte de Minas Gerais. Os funcionários, todos homens, atuavam como catadores de raízes em uma área de vegetação nativa desmatada para plantio de soja e grama de pasto, no município de Januária, área vizinha ao Parque Nacional Grande Sertão Veredas, na divisa com a Bahia.

A cidade mineira, no entanto, fica a mais de 100 quilômetros do alojamento onde eles viviam. A estrutura era uma casa de passagem abandonada, sem banheiro, portas e janelas e com cozinha improvisada – em estado de “mais absoluta indignidade e sujeira extrema”, como relatou o coordenador do Grupo Estadual de Combate ao Trabalho Escravo, Humberto Monteiro Camasmie, à reportagem do jornal O Tempo, de Minas Gerais.

Os funcionários dormiam em colchões no chão e beliches que ficavam expostas aos animais do terreno. No momento do resgate, os auditores fiscais chegaram a encontrar galinhas e fezes das aves em cima das camas e dos pertences dos trabalhadores. Para tomar banho, eles tinham que esquentar água em canecos e se lavar em um cômodo sem telhado. A cozinha era em área aberta coberta por uma lona.

“Essa foi uma das situações de superexploração do trabalho mais chocantes que nos deparamos. Pelo nível de vulnerabilidade e precariedade a que essas pessoas estavam submetidas. O grupo de combate ao trabalho escravo existe há uma década, mas, sem dúvidas, foi um dos piores cenários que já encontramos aqui em Minas Gerais”, comenta o auditor fiscal do trabalho da Superintendência Regional do Trabalho de Minas Gerais (SRT/MG).

A investigação e a operação de resgate começaram no início de junho e os funcionários tiveram acesso aos pagamentos esta semana, na terça-feira (14). A ação foi coordenada pelo grupo especial da SRT/MG. Representantes do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Polícia Rodoviária Federal (PRF) também fazem parte da força-tarefa.

Sem receber, alguns já estavam nessa situação há cinco meses. Outros, há uma semana. Os salários ficavam retidos com o empregador e só seriam pagos após o término de todas as atividades. Essa dinâmica estava prevista no contrato. Por dia trabalhado a remuneração era de R$ 60.

A empresa responsável pela fazenda, com mais de 7 mil hectares, é do ramo de máquinas e implementos agrícolas, segundo o auditor fiscal do trabalho.

O empreendimento não fornecia equipamentos de proteção individual (EPI), o que, conforme Humberto Camasmie, é de obrigação do empregador.

Os funcionários precisavam limpar o terreno com facões e tinham que levar luvas e outros itens de segurança próprios ou, na maior parte dos casos, comprar do proprietário da área. Ele mantinha uma pequena mercearia para vender esse tipo de equipamento.

* Com informações do jornal O Tempo.