Thaís Azevedo: “O voto feminino foi um privilégio e não um direito”

Libertária e contra qualquer tipo de coletivismo, antifeminista que foi expulsa da UFG diz que movimento “ignora o sofrimento do homem” e traz outras polêmicas opiniões

Thaís Azevedo | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Marcelo Mariano Marcelo Gouveia

Thaís Azevedo, além de professora, empresária e tradutora de inglês, é editora da página no Facebook “Moça, eu não sou obrigada a ser feminista”. Conhecida por suas opiniões fortes contra o feminismo, Thaís esteve em Goiânia para uma audiência a respeito de um processo que ela responde na Justiça. Aproveitou a vinda à capital goiana para realizar duas palestras. Terminou a primeira, na PUC Goiás, e seguiu para a Universidade Federal de Goiás (UFG). Na chegada, se deparou com cartazes contra a sua presença e, ainda no início de sua fala, foi interrompida por manifestantes que se encontravam na plateia. Eles impediram que ela terminasse a sua palestra e a professora teve de ser escoltada para fora da UFG.

O caso repercutiu nas redes sociais e, em entrevista ao Jornal Opção, Thaís Azevedo conta como começou o seu ativismo, o que pensa sobre o feminismo e descreve com riqueza de detalhes o que de fato aconteceu na UFG. Confira abaixo:

Quando e como você começou a lutar contra o feminismo?
Eu comecei a estudar o feminismo através de um outro campo de estudo – o libertarianismo -, que me foi apresentado por um ex-namorado há cerca de cinco anos. Escutei a frase “coletivismo é escravidão”, de Friedrich Hayek, mas não entendi por que coletivismo não seria uma coisa boa. Descobri três grandes coletivos: o “africanista” ou “negrista”, “gayzista” e o “feminismo”. Como não sou negra nem homossexual, só poderia ser feminista. E foi a partir daí que comecei a estudar o feminismo, ler autoras e frequentar fóruns. Quando fui atrás, eu me identifiquei como uma não feminista. O feminismo diz pregar pela igualdade de gênero, mas sempre me vi igual aos homens e trabalho desde de os 13 anos.

Gosto de fazer comparações. Muita gente faz coisas em nome da Bíblia, mas não está escrito lá. Às vezes, feministas fazem coisas que não tem a ver com a base.

O que mais te incomoda na pauta feminista?
O discurso mentiroso e hipócrita. O feminismo não busca igualdade de gênero e sim a superioridade da mulher em relação ao homem. A pauta da liberdade da também é outra mentira. A prova disso foi eu ter sido expulsa ontem da UFG. Eles podem até não concordar comigo, mas, como mulher, têm que me respeitar. Na teoria, isso também acontece. Simone de Beauvoir, por exemplo, diz que a mulher não pode ter a opção de ser dona de casa. Se você não couber na caixinha feminista, você não tem liberdade. Além disso, o feminismo ignora o sofrimento do homem e os dados que comprovam o maior sofrimento dos homens na sociedade brasileira e no mundo.

Que tipo de sofrimento?
Para um homem se tornar cidadão, ele tem que, obrigatoriamente, se alistar. Ao fazer o juramento à bandeira, o homem se dispõe a morrer pelo seu país, pelas mulheres e pelas crianças até os 45 anos de idade. Ele fica preso até os 45 anos a esse juramento feito aos 18. Se o homem recusar fazer o alistamento militar, ele perde o direito de tirar carteira de trabalho, CPF, CNH e de estudar em qualquer universidade. Já a mulher, não.

Isso torna a vida de um homem mais difícil em comparação com a realidade vivida pela mulher, que sofre com a violência sexual e doméstica, por exemplo?
Mas o homem também sofre com a violência sexual.

Como você define o feminismo? Sendo mais específico, você o enxerga como uma contraposição ao machismo?
O feminismo é um movimento de superioridade da mulher em detrimento aos homens e não é o oposto de machismo. O feminismo é um movimento social político-econômico. O machismo é, no máximo, uma característica de poucos homens. Não conheço tantos homens machistas assim.

O feminismo é necessariamente ligado à esquerda?
Não. O feminismo é ligado ao coletivismo.

Então é possível ser, ao mesmo tempo, libertária e feminista?
Existem libertárias que dizem ser feministas, mas eu não concordo com elas. O libertarianismo é o poder do indivíduo. Se eu já tenho todas as minhas liberdades individuais preservadas, não preciso de um movimento que defenda a mesma coisa. Para mim, o feminismo libertário é contraditório.

Você é editora de uma página no Facebook cujo nome é “Moça, eu não sou obrigada a ser feminista”. Você se sente obrigada a ser feminista?
Quando você nasce ou se torna mulher, as pessoas te dizem que obrigatoriamente você é uma feminista. Mas eu não devo nada a ninguém. Essa cobrança de se dever a alma ao feminismo chega a ser ignorante do ponto de vista do conhecimento histórico. Por exemplo, as feministas não estudaram para entenderem que, para o homem ter direito ao voto, ele tinha de ter uma série de coisas. O primordial era ser militar, mas tinha de ter uma determinada idade, ser rico e ter propriedade. Enquanto as mulheres sufragistas da primeira onda reclamavam que não tinham o direito ao voto, o homem, mesmo indo à guerra, também não tinha. O voto feminino foi um privilégio e não um direito. Direito seria a mulher ter o mesmo que o homem precisa para chegar lá.

Você atribui a conquista do voto feminino ao que, senão ao feminismo?
O voto feminino veio pelo feminismo. Eu nunca neguei isso. Mas eu chamo de privilégio e não de direito. Para se ter o voto, não adiantava ser só homem. Não eram todos que tinham direito ao voto.

Mas alguns homens tinham.
Alguns poucos homens tinham.

Algumas mulheres tinham?
Nenhuma. Mas só homens tinham a obrigação de morrer lutando na guerra. Quando as sufragistas começaram a defender o voto feminino, muitas mulheres diziam não querer porque sabiam que estava associado ao militarismo.

Você possui muitos seguidores nas redes sociais. Ao que você atribui esse sucesso?
Grande parte do crescimento de pessoas como Bolsonaro se dá pelo fato de ter alguém que briga com ele. A mesma coisa acontece comigo. Quer me calar? Acaba com o feminismo. Enquanto os chamados justiceiros sociais existirem, eu vou bater de frente com eles porque eu não tenho medo.

Quando entrei para a “Moça”, eu não tinha um projeto muito grande. Por dominar libras e ter organizado manifestações a favor do impeachment da Dilma Rousseff, surdos vieram falar comigo sobre política. Até que me perguntaram sobre feminismo. Quando me chamaram para escrever para a página, eu decidi fazer um vídeo para eles. Até então, não aparecia o rosto de ninguém. Depois desse vídeo, eu apareci e, assim, me tornei a cara da página.

Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Só há mulheres na página?
Não. Muito pelo contrário. Inclusive, queremos homens porque eles também sofrem com a existência do feminismo.

Com essa notoriedade, você passou a sofrer algum tipo de represália a exemplo do que aconteceu na UFG ou isso foi algo excepcional?
Na UFG, foi a primeira vez dentro de uma universidade. Mas já sofri muita ameaça publicamente e inclusive represália dentro da minha própria empresa de pessoas que entraram lá só para me atacar.

Você responde a um processo em Goiânia. O que aconteceu de verdade?
Uma página satírica no Facebook, chamada Joselito Muller, fez uma postagem falando com os seguintes dizeres: “dono de carvoaria abre vagas para feministas e nenhuma aparece para trabalhar”. Uma feminista de Goiânia compartilhou essa publicação dizendo que iria “abrir vagas para homens serem estuprados”. Como se alguém quisesse ser estuprado. Ninguém nem merece ser estuprado. Enfim, tiraram um print disso, mandaram para a nossa página como sugestão e postamos: “olha o nível de comparação dessa mina”. Alguns dos nossos seguidores foi até o perfil dela, viu que ela tinha uma foto com uma criança e que, ao mesmo tempo, defendia o aborto. Então, esse seguidor pegou essa foto e postou nos comentários da nossa publicação. Essa menina alega que eu a expus ao postar a foto da filha dela, mas todas as minhas postagens são assinadas e acabei sendo processada por algo que não fiz.

Colocando na balança todos esses problemas enfrentados, vale a pena fazer o que você faz?
Sabe por que eu faço isso? Uma vez recebi uma mensagem de um menino de 24 anos que tinha sido estuprado pela própria tia. Não é o tipo de coisa que se conta para qualquer pessoa. Eu dei conselhos e ele disse que eu mudei a vida dele. Quando ele fez aniversário esse ano, ele me mandou uma mensagem dedicando os parabéns a mim. Eu já ajudei em outros casos também, como o de uma menina que disse sofrer perseguição de homem em sua cidade. Busquei contato com alguém do Ministério Público do Estado em questão e ela se surpreendeu por eu estar ajudando uma feminista. E hoje ela é uma das pessoas que mais me defende na internet. Teve outro caso de uma menina de 16 anos que estava grávida. Dei várias razões para ela não abortar e contei como seria a vida dela. Falei que não podia garantir que o namorado permaneceria com ela nem que a vida dela seria fácil. Disse também não saber como os seus pais reagiriam, mas deixei claro que a única coisa que eu sabia era que o bebê não tinha nada a ver com essa história. Ela decidiu não abortar e meses depois ela me procurou para mostrar a foto do filho. Por conta dessas pessoas e de milhares de casos que tenho para contar, eu continuo fazendo o que faço.

Como o feminismo atrapalhou esses casos?
O feminismo nega, por exemplo, o caso do menino que foi estuprado. Ele nem entra para a estatística. Nega inclusive o fato de existirem muito mais pedófilas do que pedófilos e que a mulher possa ser má. A pedofilia, para o feminismo, não é uma coisa totalmente ruim. A própria Simone de Beauvoir é pedófila. Ela assinou o termo de pedofilia da França e até transava com alunas menores de idade. Levava ao Jean-Paul Sartre para terem relacionamento a três. Para ela, isso não é problema. Para mim, é. Independentemente do gênero do agressor.

Qual é o seu posicionamento em relação a outras pautas de minorias sociais, como os movimentos LGBT e negro?
Eu vejo todo mundo como indivíduo e vou sempre ir contra o coletivo. Eu fiz uma postagem criticando uma mulher que participa de um projeto do movimento negro e dizia estar cansada de ser diferente. Ela tem dread azul com piercing no septo e quer ser igual? Por ela ser negra, fui chamada de racista. Em nenhum momento falei da raça dela. Ela tem todo o direito de fazer esse projeto, mas eu também tenho o dinheiro de ter uma opinião sobre isso, independente de quem está do outro lado. Eu não posso falar nada para uma negra? Minha melhor amiga é negra, feminista e esquerdista. Ela me mandou uma mensagem dizendo estar apavorada com tudo que aconteceu comigo e que isso era contra tudo que acredita. Disse que jamais faria isso comigo e eu falei que sabia disso. Essa é a diferença. Eu sei que foi uma pessoa quem fez isso e não o movimento. O coletivo é um peso, como se a culpa fosse de todos e não do indivíduo. Eu não posso falar que recebo críticas de todas as feministas. Eu recebo críticas de algumas.

Você disse agora que sua melhor amiga é feminista e que ela não concordou com o que aconteceu na UFG. Em alguma das suas respostas, as feministas acabam sendo generalizadas. Você não acha que a generalização de um movimento tão grande pode ser perigosa?
Eu quis dizer as teóricas feministas. Então não generalizei. Eu realmente acho que a maioria das feministas não estudou. Não tenho problema com quem é socialista e estudou o socialismo. Eu tenho problema com aquele cara que nunca leu nada e fala que é revolucionário.

A sua amiga nunca leu?
A minha amiga é socialista. Ela leu e estudou. Mas ela é mais paz e amor e fala que só não quer que encham o saco dela. Eu a chamo de libertária socialista. Ela gosta da utopia do socialismo, mas defende que cada um faça o que quiser da vida. Ela gosta do governo grande. Eu, não. Quero que o governo nem exista.

Sendo bem realista, é possível extinguir o feminismo?
Eu não sou tão utópica. Gosto de coisas práticas. Sou libertária e acredito em um mundo sem governo, mas sei que não dá para fazer isso amanhã. O feminismo pode ser erradicado? Pode. O feminismo precisa de barreiras? Urgente. O feminismo precisa do contraditório? Com certeza. Mas não sou utópica e não posso dizer que isso vai acontecer amanhã. Da mesma maneira que qualquer movimento extremista. Aquelas meninas que urram, gritam, berram e andam pelada no meio da rua não representam nada para mim. Na minha opinião, é falta de amor próprio. Quer andar daquele jeito? Que ande. Só não venha mudar a legislação. Elas não têm o direito de fazer com que homens sejam mais prejudicados pela lei.

Se me tivessem deixado terminar a palestra, eu daria uma lista de 12 leis, além da nossa Constituição, que as mulheres têm vantagem. Em São Paulo, o motorista pode parar fora do ponto de ônibus para algumas pessoas após as 22 horas, como deficientes, idosos, transexuais e mulheres. Por que o homem não pode descer fora do ponto? Ele também não sofre com a violência do país? Seria mais fácil mudar essa lei para “todo mundo pode descer fora do ponto depois das 22 horas”. Eu ia ser a primeira apoiar. Em Juiz de Fora, todos os assentos do ônibus são preferenciais para idosos, gestantes, deficientes, obesos e mulheres. E os homens? E o cara que trabalhou o dia inteiro, está cansado e não pode sentar? Se aparecer uma mulher, ele é obrigado a levantar.

Como seria um mundo sem feminismo?
Primeiro, eu estaria praticamente desempregada (risos). Inclusive, queria falar que nunca ganhei com isso porque há quem diga que meu pai está sendo sustentada pelas minhas palestras. Enfim, o mundo sem feminismo seria mais igualitário, por incrível que pareça.  Se a gente extingue qualquer tipo de coletivo, há mais igualdade. Eu não luto contra feminista. Eu luto contra feminismo. O meu problema é a ideologia feminista e não a mulher feminista.

Thaís Azevedo em entrevista ao Jornal Opção | Foto: Fernando Leite

Em relação ao que aconteceu na UFG, você poderia descrever a situação?
Quando eu cheguei, já havia muitos cartazes feministas e não tinha som. Na PUC, também não tive microfone e fiz tudo no gogó. Com as ameaças que já tinha recebido durante a divulgação da palestra, a única arma que eu tinha para me defender era gravar porque eu pensei que ninguém faria mal para mim sabendo que está sendo visto. Fui ingênua.

É horrível dar uma palestra sabendo que na plateia há pessoas que te odeiam e li o que tinha escrito porque sabia que iria começar a tremer e me perderia. Estava lendo e resolvi interagir perguntando se alguém já havia lido uma autora. Uma menina que estava com a cara pintada perguntou se abriria para debate. Eu disse que não e que era apenas uma pergunta para interagir. Do outro lado da sala, um cara começou a falar um monte de coisa. O combinado era que, se houvesse qualquer tipo de agressão, a pessoa seria retirada. Ele se recusou e começou a me insultar. Disse a ele que, se de fato respeitasse as mulheres, deveria ficar calado e me deixar falar porque ele é macho e macho tem de ficar quieto. É assim que feminista trata homem. Feminismo, desculpa. Vou reformular.

Começaram a gritar absurdos a meu respeito. Eu não tinha como ir embora porque as pessoas vieram para o meio do corredor e impediram a minha saída. Então, o segurança da UFG disse para que fosse feito um cordão humano para me tirar de lá. Na hora que estávamos começando a andar, apagaram as luzes e eu, no escuro, fui empurrada não sei para onde. Tinha um homem que estava na minha frente e me impedindo de andar. O que eles iam fazer comigo no escuro?

Teve agressão física. Fui empurrada. Eu tive de ser escoltada para fora da universidade. Algumas pessoas queriam que eu continuasse a palestra em outro lugar, mas a polícia me levou embora. Eu e outras pessoas que foram lá tiveram seu direto cerceado. Tudo por um coletivo de pessoas que diz ser a favor da liberdade da mulher.

Para encerrar, como lutar contra o feminismo sem lutar contra as feministas? Você mesmo se confundiu na sua fala.
Quando eu falo das feministas, sempre penso nas teóricas. Na minha cabeça, sempre vou para a teoria. Se você falar o que um cristão faz, eu prefiro ir para a Bíblia. Se a Bíblia diz isso, então é cristianismo. Se não está na Bíblia, não é. A mesma coisa com o feminismo. Se as teóricas dizem, então eu posso falar que é feminismo. Por isso, não existe femismo. Nenhuma delas fala de femismo. Algumas teóricas falam que, qualquer nome que você dá para as mulheres extremistas, é falta de sororidade.

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Benjamin

1 – A atitude levada a cabo na FD UFG foi totalmente antirrepublicana (a universidade pública é espaço público). Rechaçar, a posteriori, a fala, seria aceitável, mas censura prévia não desce pela goela. De um “ponto de vista jurídico” a liberdade de expressão foi ferida. Obviamente, a tolerância democrática não tolera a intolerância, nenhum direito é absoluto. No entanto, o julgamento/manifestação deveria suceder a falar, não precedê-la. Com efeito, a palestrante tinha um histórico de intolerância e posicionamentos polêmicos, contudo impedi-la de falar é censura prévia e uma variação de “argumentum ad hominem”. Do “ponto de vista estratégico”, também não… Leia mais

Rejane Rataeski

Deu entrevista à homens. Não havia uma mulher entre os entrevistadores. É óbvio que os homens sofrem com o machismo, mas o que essa moça coloca é exageradamente machista. Concordo que há desvios no movimento feminista, mas essa não é razão para desmerecer a lei do feminicídio. Essa garota vive no país das maravilhas? As mulheres são mortas nesse país a cada cinco minutos.