Suposto serial killer diz não se lembrar de mais uma morte

Processo é referente à morte de Bruna Gleycielle, assassinada na Avenida T-9. Defesa diz que se apoia no fato da balística ter sido inconclusiva

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Após quebrar rotina de silêncios na última audiência, Tiago repetiu ato e respondeu as perguntas do juiz e da promotoria | Foto: Wagner Soares

“Lembro dela levando a ‘marmitinha’; eu falando ‘Vai com Deus, minha filha.” A quatro dias para completar um ano da morte de Bruna Gleycielle de Sousa Gonçalves, Marlene Bernardes de Sousa sucumbe à lágrimas ao falar da filha diante do juiz Jesseir Coelho de Alcântara, em audiência que apura o assassinato da jovem que teve a vida interrompida aos 27 anos. O acusado, Tiago Henrique Gomes da Rocha, chamado de serial killer, foi ouvido e disse que não se lembrava de ter cometido o crime.

Ao chegar na sala de audiência, Tiago, o último a ser ouvido, pediu para que os veículos de comunicação desligassem as luzes das câmeras. “Está me incomodando. Queria, por gentileza, que desligassem.” Falando baixo, Tiago foi evasivo ao ser questionado sobre o assassinato de Bruna, morta em um ponto de ônibus na Avenida T-9 com um tiro no peito, no dia 8 de maio do ano passado.

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Mãe de Bruna, Marlene Bernardes segura agenda com foto da filha e do neto durante audiência. “Meu neto falava que tinha ódio dele [Tiago Henrique], mas eu expliquei para ele que a gente não guarda rancor de ninguém” | Foto: Wagner Soares/ TJGO

O acusado disse se lembrar de sair de um bar, passar pela Avenida T-9, e depois chegar em casa. No bar ao que se refere, Tiago é acusado por um outro assassinato — de Janaína Nicácio de Souza, de 24 anos, morta cerca de 40 minutos antes de Bruna, no Buteko da Mainha, no Jardim América.

A advogada de defesa, Brunna Moreno, afirma que Tiago confessou o assassinato de Bruna. O juiz, entretanto, não vê desta forma. “Ele não confessou. Disse que não se lembra; não falou que foi ele que matou, portanto, não confessou. “, disse Jesseir.

Brunna explicou que a defesa irá se apoiar no fato da balística ter sido inconclusiva, além de tentar a tese de inimputabilidade. “Ele foi considerado psicopata”, alegou. De fato, o laudo divulgado pela Junta Médica do TJGO em fevereiro deste ano, apontou que Tiago é psicopata, mas pode responder pelos seus atos — ou seja, é imputável.

A advogada ainda garantiu que no depoimento da única testemunha ocular não há informações firmes que incriminem Tiago. Conforme Brunna, as características dele são parecidas com de outras várias pessoas.

Esta foi a 11ª audiência envolvendo casos de assassinatos em que aponta-se para Tiago como responsável. No total, são 39 mortes, sendo que 25 já foram encaminhada para o Tribunal — 21 na 1ª vara criminal e quatro na 2ª. Os outros casos continuam sendo apurados. Os processos são individualizados, sendo cada um analisado de um forma. O Ministério Público e a defesa tem cinco dias para apresentar mais documentos antes do juiz decidir se vai ou não para júri popular. Até o momento, três foram direcionados para esta forma de julgamento.

“Ele não foi roubar não… Foi para matar mesmo”

Alexsandro Francisco de Araújo, conhecido como Mossoró, o único a presenciar o crime, foi uma das testemunhas. Colega de trabalho de Bruna, Alexsandro explicou que o assassino chegou de motocicleta, desceu do veículo e pediu o celular de ambos. Ele disse que não tinha, e enquanto Bruna pegava o telefone dentro da bolsa, o homem efetuou um disparo contra a vítima. Em seguida, conforme Alexsandro, a arma foi aponta contra ele, que pediu para que o homem não atirasse. “Ele não foi para roubar não. Foi para matar mesmo”, disse.

A testemunha garantiu que depois conversou com outras pessoas que costumavam esperar ônibus no local. Muitos garantiram a ele que um motociclista estava há algum tempo circulando pela região. “Ele já estava rondando ali como se estivesse caçando alguém para matar”, alegou.

“É muito fácil colocar um culpado para tudo”, diz defesa

Além de usar o fato de Tiago ter sido apontado como psicopata, de acordo laudo da Junta Médica do TJGO — que também garante que o acusado pode responder pelos seus atos, ou seja, é imputável –, a advogada de defesa Bruna Moreno garante que o suposto serial killer foi induzido a confessar crimes que não foram cometidos por ele.

Conforme Bruna, o primeiro depoimento de Tiago foi concedido sem a presença de um advogado. “Fica muito fácil colocar um culpado para tudo. Pegar um que assume”, alega a advogada, que sustenta ter uma lista de todos os assassinatos que Tiago cometeu, e os que ele não é responsável. Dos 25 que estão na Justiça, de acordo com Bruna, três não foram cometidos por ele.

O delegado Eduardo Prado, que fez parte da força tarefa para investigar a série de assassinatos em Goiânia na época, diz que tese não se sustenta. “O Tiago sempre esteve acompanhado de um advogado. Nos interrogatórios que realizei, sempre tive o cuidado de gravar tudo”, pontuou.

Eduardo sustenta que desde o início das investigações tinha convicção de que se tratava de um serial killer. “A maneira de agir, estatura, o jeito de caminhar, a dinâmica do crime, tudo apontava para um mesmo indivíduo”, disse delegado, que acompanhou particularmente o caso de Janaína e Bruna.

Conforme o delegado, Tiago falou em depoimento de crimes que nem a polícia achava que poderia ser ele. “Sobre o assassinato da Janaína, no mesmo dia que Bruna foi morta, foi dado detalhes que só eu e outro policial sabíamos. Ele falou de quando chegou no bar e que depois saiu com o intuito de ir para casa, mas passou na T-9, viu uma menina, e quis ir lá matá-la.” O delegado ainda citou características que percebeu em Tiago, como frieza, inteligência e vaidade. “Queria estar bem para as câmeras sempre”, pontuou.

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