Suindara: para muito além de seu último ato

Suindara 2Jornalista e atriz não pode ser resumida ao suicídio que foi potencializado pelo grave estado depressivo que a abatia. Dona de um grande talento para o teatro, Goiânia sentirá sua falta 

Conheci Suindara Alexandre Coelho no curso de Jornalismo das Faculdades Alfa no segundo semestre de 2006. Tivemos uma ótima convivência juntos e guardo com imensa estima em minha prateleira de livros, três exemplares — com dedicatória e tudo — de uma coleção sobre armas comprada por ela em Londres, durante viagem à Europa em 2007.

Do pouco de nossa convivência posso dizer que era uma mulher refinada, extremamente inteligente e perspicaz, muito bonita, alta, bem educada e impessoal. Ela adorava gatos, há pouco tempo tatuou a silhueta de um bichano em um de seus braços. Sua postura corpórea denunciava que teve aula de balé quando criança. Era uma magnífica atriz e ótima jornalista. Ficará eternizada no imaginário de muitos rapazes como a musa do rock goiano nos anos 90, quando baixista da extinta banda Fantasma de Agnes.

Todos estes atributos tiveram um fim na semana passada de forma dramática e perturbadora. Um suicídio que pareceu ter sido meticulosamente calculado, impulsionado por uma grave doença que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), atinge 17% da população mundial e só no Brasil afeta a vida de 36 milhões de pessoas: a depressão.

Segundo informações de parentes, ela esteve dois meses internada e no dia 27 de abril, aproveitou que estava só, apanhou alguns medicamentos tarja preta que estavam escondidos, embarcou em um táxi, rumou a um hotel e reservou uma suíte para consumar o “auto-extermínio”, como descrito por ela em um bilhete deixado aos familiares.

Suindara foi uma mulher brilhante, um talento nato para as artes cênicas, para escrita e música. Recordo-me que ela fotografava muito bem, e como as corujas — significado de seu nome — tinha uma privilegiada visão para as coisas. Sua sensibilidade de explorar ângulos e imagens por meio de uma máquina fotográfica rendia excelentes registros.

Ficará para sempre guardado em minha memória seu sorriso e irreverência. Apesar de muitos momentos em que a vi extrovertida, alegre e em meio às gargalhadas, sabia que por dentro guardava uma sufocante tristeza, tenaz angústia e grave depressão.

Suindara foi muito mais do que seu último ato. Resumi-la ao fato que lhe rendera a própria vida é uma grande claudicação. Goiânia ficou mais sem graça sem Suindara. Posso dizer que tive a sorte de ter conhecido uma mulher especial, íntegra e respeitável. Muito recatada e à frente de seu tempo, um amigo em comum certa vez a descreveu como a mais europeia de todas as brasileiras.

Descanse em paz Suindara, sei que você era agnóstica, por isso peço-lhe perdão por esta última provocação em pedir em minhas preces que Deus esteja contigo onde estiver.

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Vera Lucia Fonseca. jornalista

Linda a sua mensagem, amigo Frederico Vitor. Sua amizade, com toda a certeza, e essa vibração de amor humano e de Deus, que você enviou a ela nessas palavras, ajudarão a Suinfdara a atravessar os portais por onde passar, a caminho da luz!
Pedirei a Deus por ela, também.
Bjo.

Vera Lucia Fonseca, jornalista / SIC

Wellington Dias

Fui companheiro de cena e diretor da Suindara. Quero te agradecer por descreve-la tão bem e parabeniza-lo pelo texto.

Valdirene Oliveira

Belo texto!

márcio costa rodrigues

Belíssimo. Nós portadores de transtorno mental (palavra feia não?) somos vistos como a “doença” e não como portadores de tal. Como doutor em Genética, já que alguns transtornos têm base genética, critico severamente porque não são vistos os fatores do ambiente que levam a manifestação dos genes envolvidos nos transtornos mentais. Na minha história de vida fica claro os momentos que precipitaram minhas “crises”. Sou um sobrevivente e não me perguntem porque não sucumbi como a simpática multimídia. Sei apenas que sobrevivi. Lindo texto, lembrou-se que existe um ser humano no meio da notícia, coisa rara hoje em dia.