Sob comando de Policarpo, Câmara de Goiânia faz discurso contundente contra o racismo

“Só quem é negro sabe o que é vivenciar o racismo”, afirma primeiro presidente negro da Casa

Na sessão ordinária desta quarta-feira, 3, vereadores da Câmara Municipal de Goiânia se manifestaram contra o racismo. Os parlamentares se ajoelharam e alguns usaram máscaras com a frase “não consigo respirar”, em alusão à morte de George Floyd, um homem negro que foi asfixiado por um policial nos Estados Unidos.

Romário Policarpo, o primeiro presidente negro da Casa, relatou que foi questionado ao postar em suas redes sociais que “vidas negras importam”. O vereador então disse que racismo é a não aceitação do outro por conta, simplesmente, da cor de sua pele.

Policarpo lembrou assim como ele, muitos vereadores também já devem ter ouvido “piadinhas, um olhar torto”, citou ao elencar várias formas de racismo presentes na sociedade. “Só quem é negro sabe o que é vivenciar o racismo. Só quem é negro sabe o que é entrar na fila de um supermercado e o segurança ir atrás de você”, afirmou.

O presidente da Câmara que é Guarda Municipal fez um longo desabafo sobre o racismo estrutural e disse que, no Brasil, infelizmente, pessoas são presas pela cor da pele. Ele citou o registro em autos em que a vítima reconhece uma suposta acusada por conta de “seu cabelo ruim e pele negra, isso é racismo”.

O racismo não é uma causa política, é uma causa humanitária

De acordo com Romário, é um absurdo que tentem politizar a luta contra o racismo como uma ação de direita ou de esquerda. “O racismo não é uma causa política, é uma causa humanitária”, defendeu. “Ele é diário e só aumentou e pelo que vejo, no momento, há poucas chances dele diminuir”, disse, ao citar que 75% das vítimas de homicídio no país são negras.

No ano passado, Romário Policarpo foi alvo de racismo durante sessão na Câmara Municipal. Na ocasião, Policarpo foi chamado de ‘macaco’ no plenário e suspendeu a sessão. “Uns quatro ou cinco, começaram a imitar gestos e sons de macaco, me chamaram de macaco, negro, vagabundo”, relatou Policarpo à época.

Felisberto Tavares lembrou que o presidente da Casa passou por dois episódios de racismo na atual legislatura, e relatou que essa é a realidade do país. “Que Deus te abençoe para que o senhor continue defendendo as minorias”, completou.

Ainda na sessão, o vereador Juarez Lopes pediu um minuto de silêncio em memória do americano George Floyd e dos negros assassinados no Brasil. Em seguida vários vereadores repudiaram a declaração do presidente da Fundação Palmares, que chamou o movimento negro de “escória”. Já o vereador Rogério Cruz citou Nelson Mandela: “Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.

Dia da Consciência Negra

Na reunião da Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJ), desta quarta-feira, 3, foi aprovado o projeto de Lei nº 411\2019 que institui feriado em Goiânia o dia 20 de novembro, da Consciência Negra. A matéria é de autoria de Romário Policarpo.

“O dia 20 de novembro é muito representativo, não apenas para a população negra ou de ascendência negra, mas para toda a população brasileira por manter viva a lembrança da crueldade do escravagismo no Brasil. Atualmente, já é feriado em 533 cidades”, esclareceu o propositor da matéria.

O assunto foi discutido com propriedade por vários parlamentares e dominou os debates desta quarta-feira, colocando a Casa como exemplo de luta contra o racismo. “Demorou 88 anos para que um negro sentasse nesta cadeira aonde estou hoje, se isso é igualdade não quero nem pensar o que é desigualdade”, encerrou Policarpo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.