Sem leitos suficientes, Brasil poderá adotar critérios para seleção de pacientes que “merecem” ou não internação

Na Itália, o critério adotado era o da idade. Hospitais rejeitavam pacientes acima de 85 anos

Estado do Amazonas foi primeiro a sofrer colapso | Foto: Kleyton Silva/Agência Pública

A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, com Associação de Medicina Intensivista e Academia Nacional de Cuidados Paliativos, elaboraram documento com protocolos de alocação de recursos em esgotamento. No documento, as entidades apontam princípios éticos para o que chamam de triagem de pacientes em condições de desastres em massa e pandemia. Assim, há a sugestão de um modelo de adoção com critérios técnicos para estabelecer qual tipo de paciente deve ser priorizado em momento de recursos em esgotamento.

Quando em março do ano passado a Itália atingia números recordes de 900 mortes diárias, os brasileiros estarrecidos esvaziavam as ruas das cidades, trancavam os cadeados de casa e estocavam comida e máscaras apavorados com o perigo iminente que os alcançaria.

Passados abril, maio, junho, julho… Mês após mês, o monstro do coronavírus parecia ter sua silhueta reduzida e enfraquecida, enquanto o colapso anunciado jamais chegava.

Um ano após os primeiros casos, eis que o pesadelo finalmente bate à porta e aquele brasileiro assustado se convenceu de que a Covid-19 não passa de uma “gripezinha”.

Atual epicentro da doença no mundo e com pouquíssimos esforços do governo federal para mitigar a situação calamitosa, o brasileiro agora recebe com normalidade os números alarmantes da Covid.

Com 90.570 novas infecções confirmadas da doença em apenas 24 horas e 2.815 óbitos, de acordo com dados do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), o país simplesmente não para de bater indesejados recordes diários.

Na Itália, artistas publicavam em suas redes sociais vídeos chocantes em que contavam que seus familiares estavam mortos sobre suas camas, em seus quartos, e essa realidade nos apavorava. Lá, critérios de seleção eram adotados para escolher quem merecia ou não leitos em hospitais.

À beira de um colapso, o Brasil e, inclusive, o Estado de Goiás, poderá em breve ter de fazer a “escolha de Sofia”. Com leitos completamente ocupados em diversas cidades e tendo de remanejar pacientes graves de um município a outro, associações médicas (Amib, SBGG, Abramede, ANCP) se uniram para propor um “protocolo de procedimentos claros, transparentes, éticos, racionais, legais e técnicos, inclusive para a adequada triagem” relativa à alocação dos leitos disponíveis.

Para compreender melhor como funcionaria, o Jornal Opção entrou em contato com o médico geriatra e paliativista Ricardo Borges da Silva.

“Imagine uma situação hipotética: não tem leito para todos. Imagine que não tem como acolher a todos. Quem não for recebido na UTI corre risco de morrer por falta de leito. Imagine ocupar leito de UTI apenas com quem tem poucas chances de sobreviver e deixar fora do leito quem tem mais chance. Vai morrer mais pessoas do que deveria”, explicou.

“Quando o recurso é escasso, o ideal é oferecer para quem realmente precisa e tem chances de sobreviver. Não conseguiremos evitar todas as mortes, mas o maior número possível, otimizando a utilização dos leitos”, disse o médico.

“Na hora de ofertar, tenho que escolher quem tem mais chances de sobreviver, mas para isso preciso de critério científico. Não posso deixar nas mãos do médico, já estressado com essa situação, quem escolher. O Estado precisa dar respaldo a essa decisão.”

O protocolo decidiria a quem seriam destinados os leitos com base em critérios específicos. De acordo com Ricardo, esse modelo é baseado em ordenamentos internacionais, que sugerem esse instrumento é o adequado. “Com o critério o sistema fica mais justo”, afirmou.

Ele reforçou, ainda, que essa ferramenta seria adotada apenas quando as autoridades locais determinarem que o colapso de fato já aconteceu.

“Quem vai falar isso será o governador ou o prefeito ou as secretarias, quem está vendo os dados. Caso cheguemos a este ponto, não sei como será feito”, disse.

“[Na Itália] O critério utilizado era a idade. Idosos acima de 85 nem entravam no hospital. Mas este é um critério injusto. Pessoas com doenças terminais podem ser mais novas. Idosos acima de 85 podem ter mais expectativa de vida que essa pessoa, por exemplo”, argumentou.

Segundo ele, o documento com a recomendação determina a seleção por meio de outros critérios. “Gravidade do quadro agudo, expectativa de vida presumida da pessoa…”, cita. “Se ela tem algumas características como câncer avançado, alzheimer avançado, AVC com sequelas graves… esses têm expectativa de vida pequena. Muitos não sobrevivem mais de um ano”, pontuou.

“Salvar essa pessoa é muito pior que salvar de uma pessoa que tem expectativa de 10 ou 15 anos. Não é idade que deve determinar. Outro critério é a reserva energética da pessoa. Algumas por conta de doença tem maior debilidade física”, acrescentou.

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