Sem congressos, shows e com parte do comércio fechado, rede hoteleira de Goiânia sofreu com a pandemia

Com 18 hotéis de Rede e uma grande quantidade de empreendimentos que se mantém sob administração familiar, a capital viu quatro hotéis fecharem às portas durante a pandemia de Covid-19 e a taxa de ocupação chegar a pífios 10% durante o auge pandêmico

Quem disse que a Goiânia não é uma cidade turística? A capital movimenta a economia do Estado, traz empreendedores e também sofreu muito com o impacto da pandemia de Covid-19. A rede hoteleira, que possui aproximadamente 167 hotéis em funcionamento, viu quatro empreendimentos fecharem as portas e a taxa de ocupação média cair de 60% para até 10%. Tudo isso por causa da falta de congressos e eventos e também do comércio, quando houve o fechamento da Rua 44 durante os dois picos da pandemia, em 2020 e em 2021.  

Os dados são da Associação Brasileira da Indústria de Hoteis (ABIH) e também foram confirmados por dois donos de hotéis de Goiânia que sofreram bastante com a pandemia de Covid-19. Luciano Carneiro, dono do Hotel Itajubá, que ficava na Rua 4, no Centro, conta que fechou às portas do hotel em março de 2020, mesma época em que o Hotel Mega Moda — gerenciado pelo Galileu Pereira — fechou às portas por três meses, também por causa da Covid-19. 

Todos os hotéis da capital viram a pandemia afetar diretamente na taxa de ocupação que chegou a 10%, segundo a ABIH. Isso contando com todos os mensalistas e clientes fixos que se hospedam em algum hotel da capital com frequência.  

Mas por que Goiânia sofreu tanto nos dois momentos de fechamento do comércio? Porque o que movimenta o turismo na capital é o negócio, os empreendimentos, as feiras e eventos, os procedimentos estéticos, a compra de materiais agrícolas e, principalmente, o turismo de negócios que acontece na região da Rua 44, onde a taxa de ocupação da rede hoteleira se aproxima de 100% entre quinta-feira e sábado, onde acontece o pico de excursões de comerciantes do Nordeste, no Norte, do Sul, do Sudeste e dos Estados do Centro-Oeste para a capital.  

E não é somente para comprar na região da 44 que o Brasil foca os olhos na capital. É também nos grandes eventos, que movimentam a capital, que está apta para fazer feiras e eventos, para realizar procedimentos cirúrgicos oftalmológicos, plásticos e cardíacos. Há hospitais de ponta, como o Albert Einstein, que funciona no Órion Business & Health Complex (segundo maior prédio do Brasil), complexos como o Centro de Convenções, centros esportivos e também conta com uma malha viária, aérea e também hoteleira para abastecer a capital.  

Não é à toa que Goiânia conta com um amplo leque de hotéis de redes nacionais (11) e Internacionais (7). Estes 18 hotéis de rede representam 10,77% de toda os hotéis da capital e trazem nomes como os hotéis Ibis (Accord) e da Rede Atlântica.

Os dados são do censo hoteleiro de 2018 feito junto com a Secretaria de Turismo. O censo não é atualizado desde 2019, por causa da pandemia de Covid-19, mas deve ser atualizado ao final de 2022, segundo o presidente da ABIH, Fernando Pereira, que recebeu o Jornal Opção na sede da associação, localizada no Palácio do Comércio, na Avenida Anhanguera, em Goiânia.

Segundo a presidente do Sindicato de Hotéis de Goiânia (Sihgo), Anaiad de Assis Lopes, a chegada de hotéis de maior porte tem crescido em conjunto com a grande quantidade de hotéis independentes, de administração familiar, que também tem muita força na capital. “Estes hotéis trazem consigo as bandeiras nacionais e internacionais — que são frutos de incorporação e vendas pelo mercado Imobiliário”, explica.  

“Não existe turismo de lazer em Goiânia. A capital é uma cidade de negócios”, sublinha Fernando Carneiro. Mas toda a estrutura faz com que a capital se torne um atrativo para eventos de negócios e até mesmo para que estes empreendimentos viessem para a capital, porque há público, há movimento de pessoas que vêm de passagem, seja para ir para conhecer Caldas Novas e Rio Quente, a Chapada dos Veadeiros, Trindade ou para algum evento esportivo e religioso.

“Muitas vezes estes turistas vêm para a capital de passagem e fazem uma extensão na noite goiana, escolhem algum restaurante para experimentar a culinária ou estendem sua estadia para ir à Rua 44. O mesmo vale para quem vem fazer uma cirurgia, um procedimento estético ou comprar materiais agrícolas”, explica o presidente da ABIH.  

Não existem classificações de estrelas 

Sem a necessidade de classificação de estrelas, o único hotel 5 estrelas de Goiânia, reconhecido pelo Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), é o Castro’s Hotel. Apesar de não haver a classificação, os donos de hotéis adotam uma classificação de “asterisco”, que é avalizada pela ABIH e os próprios hotéis adotam um sistema próprio. Ainda assim, segundo a presidente do Sihgo, há outros 18 hotéis que se enquadram em 4 estrelas ou mais. Todos os demais se enquadram nas demais classificações, equivalentes a 3, 2 e 1 estrelas.  

É o que explica também o dono do Hotel Rio Vermelho, Luciano Carneiro. Ele vive no hotel há quatro anos e recebeu o jornal Opção, onde concedeu uma entrevista no Hall do Hotel, que tem 2 estrelas, mas que também pode ser considerado 3 estrelas.  

Com várias panelas de cobre enfeitando o hall, homenagens à poeta goiana Cora Coralina e um busto enorme da poetiza, Luciano Carneiro conta que teve de fechar as portas do Hotel Itajubá por causa da pandemia de Covid-19. Em uma conversa de 30 minutos com o Jornal, ele contou parte da história da rede hoteleira da capital, como, por exemplo, o fim da classificação de estrelas, que parou de ser adotada pela Embratur.  

Os asteriscos da ABIH foram adotados para minimizar as divergências das estrelas. “Eu tenho 2 asteriscos, porque eu quero ser um 3 estrelas com preço de 2. Ainda mais no Centro, que está abandonado e é difícil de se trabalhar, mesmo com uma grande art déco, e uma grande malha que pode ser um chamativo muito grande, mas que ainda não está acontecendo”, avalia.  

Ele valoriza muito a cultura goiana e faz questão de citar o busto, a história e a importância de Cora Coralina. O empresário frisa que, no futuro, o Caminho de Cora será mundialmente conhecido. “Vai trazer muitos turistas, muitas pessoas para conhecer o Estado, a cultura goiana, a nossa literatura e a nossa capital. Tem respaldo, tem nome e será mundialmente conhecido”, postula.  

Com um hotel de 116 quartos, Luciano Carneiro explica que a sua taxa de ocupação é a mesma da média da ABIH e fica na média de 55%. Essa ocupação é impulsionada pelos grandes eventos que aconteceram na capital. Em 2001 houve um Congresso de Cardiologia, que aconteceu no Centro de Convenções.  

Outro nicho que se hospeda no Hotel são os políticos dos 246 municípios goianos. De acordo com o empresário, pela proximidade com o Palácio das Esmeraldas, o hotel recebe muitos prefeitos do Estado. “E recebia ainda mais antes da separação do Estado de Goiás com o Tocantins. Os prefeitos dos 139 municípios tocantinenses também vinham para Goiás”, comenta.  

Animado e apaixonado pelo que faz na hotelaria, o empresário só está descontente com a infraestrutura goianiense. O Hotel Rio Vermelho está na Rua 4, que é mão única e, para chegar ao hotel, é preciso dar a volta no Centro, passando pela Araguaia e pela Rua Paranaíba. “Os políticos mais ajudam quando não atrapalham”, sumariza.  

O outro lado da moeda

Rua 44 tem público e ocupação que beiram os 100% 

Com uma taxa de ocupação que supera os 60% de média da capital e chega a 100% entre quinta-feira e sábado, quando a Rua 44 tem um movimento maior, o Hotel Mega Moda, gerenciado por Galileu Gonçalves, que também morou no hotel por quatro meses, quando veio de Brasília para a capital.

Ele recebeu o repórter na sala de reunião do hotel, onde falou sobre a estrutura e a capacidade de todo o hotel, que está no centro da Avenida Contorno, logo atrás da Rua 44. Segundo ele, hoje o hotel conta com 80% dos 270 apartamentos disponíveis totalmente ocupados entre quinta-feira e sábado, quando acontece o pico dos demais hotéis da Região desde 2012, quando as galerias e as vendas começaram a tomar essas proporções. Quando não há restrições, chega a 100%.

Cerca de 98,5% de todo o público que se hospeda neste hotel da capital é composto por atacadistas que vêm para o turismo de compras. São pessoas de todo o Brasil, das cinco regiões, que vêm em sua maioria por excursões. Tais excursões vêm para a capital com no mínimo 44 pessoas. São compradores dos Estados da Bahia, Mato Grosso, Santa Catarina, Amazonas. Eles adquirem, no geral, o jeans goiano.  

“É uma região que ainda está crescendo, mas que já é o segundo maior polo de todo o Brasil, atrás somente do Brás, em São Paulo, que já tem mais de 60 anos de história. Os atacadistas que conhecem moda já vêm para Goiânia, por causa da região, e pelo fato de a cidade estar mais próxima do que o Estado de São Paulo”, avalia.  

Os demais dias, de acordo como gerente, conta com um público totalmente diferente. É o público de negócios, que vem para a capital para eventos, congressos e reuniões e aproveitam as três salas de eventos do hotel. As salas recebem até 150 pessoas e são muito utilizadas pelas empresas da holding do dono de todo o complexo Mega Moda. São 34 empresas que fazem parte do Grupo Novo Mundo, dirigido pelo empresário Carlos Luciano.

Ou seja, de domingo a quarta-feira, o público é aquele que tem compromissos na capital, mas que também encontra oportunidades de compras na Avenida Contorno e na Rua 44.  

Estas pessoas compram, saem para a noite de Goiânia e voltam para as suas casas. É diferente do que acontece nos demais dias e com o público que vem a capital. O lazer é feito na parte noturna, porque são um público de empresários que têm um ticket médio de R$ 25 mil reais em compras em uma visita à capital.  

Este público vem, rapidamente, para comprar e ir embora muito rápido. “Ele vem para trabalhar e utiliza a virada da noite como um momento de lazer. Vem e vai embora rápido”, comenta o gerente.  

Dificuldades da pandemia 

Apesar do movimento, do público diversificado e da quantidade e da ocupação alta, o Hotel Mega Moda também sofreu com a pandemia. Precisou cerrar às portas durante três meses por causa do fechamento do comércio na Rua 44 e também porque ficou sem eventos, congressos e feiras que movimentassem os negócios na capital.  

O fechamento de março a maio gerou um prejuízo de R$ 800 mil em 2020, na primeira paralisação por causa da pandemia e de outros R$ 100 mil, em 2021, durante o pico. Ainda assim, o hotel não precisou fazer refinanciamentos, empréstimos ou sofrer com sanções financeiras. Isso porque, fazendo parte da holding, o hotel recebeu aporte de outras empresas do grupo.  

“Na segunda vez tivemos uma performance muito fraca, de ocupação de 10%. A região da 44 ficou fechada por três meses e nós tivemos que depender de outros públicos. Foi uma crise menor, com uma ocupação menor, mas, com a vacinação, o público voltou a aumentar”, acrescenta o gerente Galileu.

Situação parecida com a de Luciano Carneiro. O empresário teve de fechar o Hotel Itajubá. Sem aporte, com o comércio fechado e sem público, ele não aguentou o impacto da pandemia em 2020. “Com o fechamento das portas do comércio e dos eventos, tive que fechar o hotel em definitivo. Mas a ocupação do Hotel Rio Vermelho, que mantive, não passou de 10%. Nesta época os principais hóspedes eram do agronegócio. De dez a 20 apartamentos eram ocupados por agricultores que vinham para a capital.”

Essa perda foi comum, de acordo com o presidente da ABIH, Fernando Pereira. Isso porque, diante da movimentação econômica promovida pelo turismo de negócio, a perda de eventos e a realização de eventos não presenciais, como as lives e os shows, afetaram muito na hotelaria.  

Segundo ele, o ano de 2020 foi o mais crítico para a hotelaria, porque ninguém conhecia a pandemia. Mas, a partir do primeiro momento, a ABIH fez um protocolo de medidas de prevenção específico para a hotelaria, com uma chancela da Vigilância Sanitária, para que fosse repassado para os membros e isso foi a principal adaptação da época.  

“Os protocolos inclusive continuam sendo mantidos e geraram custos aos hotéis — que precisaram se adequar para manter e levar segurança para as pessoas. Trata-se de uma segurança que tem um nível similar ao hospitalar em todos os [41] hotéis filiados à ABIH e que seguem estes protocolos”, explica.  

Recuperação 

A perspectiva da ABIH é de que o equilíbrio da rede hoteleira da capital seja retomado em meados de 2022, porque o momento ainda não está propenso. Porque há uma nova cepa do vírus, a Ômicron, que afeta a segurança sanitária. As enchentes (fortes em outros Estados) também têm afetado o setor. Mas a tendência é que, em breve, seja retomado, e maneira mais ampla, o turismo de negócio. Porque Goiânia é um point conhecido e respeitado nacionalmente pela qualidade de seus produto (como roupas).

A presidente da Sihgo também está animada com a retomada na capital. Segundo Anaiad, o último semestre já trouxe uma pequena retomada, mas que ficou retraída a partir de dezembro quando houve um pico dos casos de Covid-19 e houve um grande pico de cancelamentos de voos que tiveram de ser remarcados. “É um desafio, mas carregamos a hospitalidade nas veias e seguimos confiantes e com os mais rigorosos protocolos de segurança.”

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