Segundo especialistas, testes que medem eficácia de imunizantes não funcionam, mas a vacina sim

No momento, exames que buscam descobrir se o imunizante funcionou ou não, só calculam um dos tipos de imunidades produzidas pelo organismo

Teste de anticorpos | Foto: Reprodução

Gabriela Macêdo
Isabel Oliveira

A extensão da pandemia causada pela Covid-19 e a grande quantidade de fake news espalhadas acerca do vírus e suas formas de combate e proteção trouxeram dúvidas acerca da efetividade do imunizantes aplicados em solo brasileiros para conter a transmissão da doença e reduzir seu agravamento. Em razão dessa desconfiança, aumentou-se a procura por testes sorológicos ou de anticorpos neutralizantes que sejam capazes de medir a eficácia das vacinas. No entanto, especialistas alertam que o procedimento não consegue provar se a vacina funcionou ou não.

A justificativa da impossibilidade de saber, com certeza, o nível de proteção desses imunizantes contra o coronavírus, segundo o médico infectologista, Marcelo Daher, se dá pela não existência de um exame que meça de forma eficaz o ‘nível correlato de proteção’, como existe com a Hepatite B, por exemplo, com o Anti-HBs. Isso, porque existem dois tipos de imunidade a serem desenvolvidas pelo organismo: a humoral, medida pela quantidade de anticorpos, e a celular. Os exames de laboratório, no entanto, medem somente a humoral.

Daher explica que exames que avaliam a imunidade e a resposta ao vírus são exames complexos que demandam um trabalho direto com o vírus, sendo então chamados de laboratório de pesquisa nível três, por demandarem segurança máxima para o vírus não escapar. Os exames sorológicos que vêm sendo realizados para medir a proteção contra a Covid-19 e a eficácia dos imunizantes, segundo o médico infectologista, foram feitos em paralelo com o objetivo de simular o efeito desses exames realizados em laboratórios nível três.

“Não é que os exames não sejam úteis, mas o que vemos nesses exames feitos sem pedido médico, é que as pessoas fazem sem a utilidade desse exame, porque nenhum convênio cobre, são caros e não são interpretados facilmente. Então vejo esse exame hoje, mais como algo discriminatório do que como algo que poderia mudar a condução da doença”, afirma Daher.

Em concordância, a médica infectologista Juliana Barreto enfatiza a existência de diversos fatores e mecanismos que existentes para proteger o organismo, de modo que a dosagem sorológica de anticorpos não se faz necessariamente proporcional à reação imunológica do corpo. Além disso, ressalta que tanto o IgG quanto os anticorpos neutralizantes podem apresentar resultados diferentes logo após da aplicação das duas doses da vacina e após alguns meses.

“Às vezes a pessoa resulta em uma sorologia super alta, como o anticorpo do tipo igG e acha que pode tirar a mascara e relaxar com os cuidados, o que não é uma verdade, porque às vezes a outra imunidade dela não está tão boa e ela está sujeita a pegar o vírus, e o contrário também é verdade. Às vezes a pessoa nem faz o igG ou nem tem uma sorologia alta, e não pega a doença”, esclarece. Com a rápida queda de anticorpos em pessoas acima de 80 anos, após três meses de vacinação, está sendo estudada a aplicação de uma terceira dose, em prol da potencialização do efeito da vacina, também chamado de efeito booster.

“Primeiro que a queda na quantidade de anticorpos algum tempo depois que se toma a vacina é normal. Com a Hepatite B, por exemplo, quando a pessoa faz o Anti-HBs logo depois que se toma a vacina, ele está super alto, mas depois que passa uns anos, ele abaixa. No entanto, isso não significa que a pessoa está desprotegida, só reduz os anticorpos porque tem algum tempo que se tomou a vacina. Nesse sentido, quando a pessoa toma mais uma dose da vacina, o efeito pode ser ainda mais rápido e alto no resultado sorológico, por exemplo”, explica Juliana.

Quanto aos anticorpos neutralizantes, a incerteza permanece. “Inicialmente se pensou que quem tivesse anticorpos neutralizantes muito alto estaria mais imune a doença. Contudo, hoje já vimos que isso também não é uma verdade, que mesmo tendo anticorpos neutralizantes super altos não existe 100% de proteção. Do mesmo modo, ele estar baixo não quer dizer que você está menos imune ou mais imune que a pessoa que está com anticorpos mais altos. Você só precisa estar com ele reagente”, afirma a médica infectologista.

Independente da aplicação de uma terceira dose, utilizar o resultado de exames como referência de proteção contra o coronavírus, para a médica infectologista, “é como apostar na mega sena”, não sendo indicada pelos médicos. Para Marcelo Daher, a realização desses exames após a aplicação das vacinas, além de gerar um medo desnecessário na população, pode trazer uma tentativa descrédito aos imunizantes perante a sociedade – promovendo, inclusive, a prática de escolha de marcas dentre as vacinas, o também chamado de sommelier de vacinas.

“As pessoas estão fazendo o exame e dizendo que a vacina não funciona e buscando outras vacinas. Isso gerou essa questão de busca por marcas específicas”, acrescentou o médico. Esse descrédito, para Juliana, no entanto, não pode ocorrer, já que os resultados dos exames não significam a não proteção dos indivíduos imunizados. “Não se pode colocar as vacinas em descredito porque as respostas sorológicas não são diretamente proporcionais às respostas imunológicas, mesmo o teste sendo negativo. Isso, porque sabemos que existem dois tipos de imunidades e que o exame só mede uma”, diz Juliana.

Qualidade dos testes

Outro fator que, para os médicos infectologistas, pode ser determinante ao entendimento sobre a proteção promovida pelos imunizantes é a qualidade desses testes. “Qualquer teste que você faça tem que ser passado por um crivo de qualidade e sempre deve-se saber qual método que foi usado para o teste. O famoso teste rápido, por exemplo, é muito fácil e tem muitas falhas, então os de coleta de sangue possuem métodos melhores”, pontua Juliana Barreto.

O médico infectologista, Marcelo Daher, no entato, não acredita que os testes existentes até o momento, seja no Brasil ou em demais países, sejam eficazes o suficiente, de modo que um maior investimento em pesquisas se faz primordial e poderia, inclusive, tornar o país pioneiro em alguma forma de diagnóstico própria. “O que precisa é de desenvolvimento. Se tivéssemos investimentos nacionais em pesquisa pode ser que teríamos capacidade de desenvolvimento de exames nacionais, como a própria UFG desenvolveu método  de diagnóstico. Precisamos de investimento em saúde para isso, para que os nosso pesquisadores conseguissem testes, vacinas e material para a população com custo menor”, explica Marcelo.

Apesar de ressaltar a importância de maiores investimentos, Juliana afirma que, especialmente durante a pandemia, a rapidez das pesquisas, por si só, surpreendeu. A questão, para ela, é que a velocidade desse andamento é incompatível com as vontades da população. “Eu entendo esse anseio, mas as pessoas querem respostas rápidas que a ciência não dá conta de buscar com essa rapidez”, pontua a médica infectologista.

Proteção contra a Covid-19

O que se precisa fazer, nesse momento, segundo os especialistas, com ou sem exames eficazes que meçam, com qualidade, a taxa de proteção do organismo contra a Covid-19 após a aplicação de imunizantes, é a continuidade dos métodos protetivos adotados desde o início da pandemia da Covid-19. “Não podemos baixar a guarda em relação aos cuidados. Devemos permanecer com o uso de máscaras constantes, distanciamento de dois metros entre as pessoas e a higienização correta das mãos”, complementa Juliana. Os especialistas ainda ressaltam a importância de se utilizar as máscaras, de forma correta, com a cobertura do nariz e boca.

 

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