A forma como pacientes aguardam consultas e procedimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) entrou no centro das propostas de Ronaldo Caiado (PSD) para a área. Candidato à Presidência da República, o ex-governador de Goiás defendeu, nesta terça-feira, 18, em São Paulo, que a gravidade do quadro clínico passe a ter peso na definição da prioridade de atendimento, em vez de considerar apenas o momento de entrada na fila.

A proposta integra o plano de governo para a Saúde apresentado pelo candidato e elaborado sob a coordenação do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. O projeto reúne ainda medidas de prevenção de doenças, digitalização do SUS, inteligência artificial, telemedicina, recuperação da cobertura vacinal e ampliação da assistência diante do envelhecimento da população.

Ao apresentar a proposta, Caiado argumentou que o modelo atual de organização das filas nem sempre consegue identificar quem corre maior risco enquanto aguarda atendimento.

“Hoje, a fila não olha para quem está pior”, afirmou.

A intenção é utilizar informações clínicas reunidas em sistemas digitais para estabelecer prioridades. Dessa forma, pacientes com maior risco de agravamento poderiam avançar no atendimento conforme critérios médicos, e não somente pela posição cronológica ocupada na lista.

A proposta também prevê tratamento específico para determinadas condições. Pacientes com câncer, por exemplo, teriam uma fila própria. Casos de infarto e acidente vascular cerebral (AVC) seriam atendidos a partir de protocolos e estruturas especializadas.

Prontuário nacional seria base para reorganização

Para colocar o modelo em funcionamento, a campanha aposta na integração digital da rede pública. Uma das propostas é implantar um prontuário eletrônico nacional capaz de acompanhar o paciente desde a atenção básica até hospitais de maior complexidade.

A ferramenta reuniria histórico médico, exames, diagnósticos e demais informações de saúde, permitindo que diferentes unidades tenham acesso aos dados necessários para dar continuidade ao atendimento.

Além de auxiliar na organização das filas, a digitalização teria como objetivo diminuir a repetição de exames e evitar a perda de informações durante a passagem do paciente por diferentes pontos do SUS.

O plano também incorpora a inteligência artificial. A tecnologia seria empregada na análise de exames, acompanhamento de indicadores, gestão das filas e identificação de situações que demandem atendimento prioritário.

Prevenção antes da doença avançada

A reorganização das filas está associada a outra mudança defendida por Caiado: aumentar a capacidade do SUS de identificar doenças antes que elas cheguem a estágios avançados.

Segundo o candidato, parte significativa da estrutura de saúde ainda funciona de maneira reativa, recebendo pacientes quando a doença já está instalada e, em alguns casos, com possibilidades mais limitadas de tratamento.

“Hoje estamos brigando com a doença, ou seja, estamos recebendo paciente com a doença em fase avançada”, declarou.

A proposta é fortalecer a atenção básica e ampliar o acompanhamento periódico da população, com maior realização de exames preventivos e identificação precoce de fatores de risco.

“Estamos trabalhando no sentido de avançar no diagnóstico precoce, em vez de correr atrás de tratar a doença disseminada, com pouco prognóstico e altíssimo custo para o governo e para a verba da saúde”, acrescentou.

Nesse modelo, profissionais das unidades básicas também poderiam receber suporte de especialistas por telemedicina. A ideia é permitir a discussão de casos e o compartilhamento de informações à distância, principalmente em municípios que não dispõem de determinadas especialidades.

Regionalização para reduzir mortes evitáveis

Outro ponto defendido pelo candidato é ampliar a regionalização dos serviços de média e alta complexidade. A avaliação apresentada pela campanha é de que a distância entre o paciente e estruturas hospitalares especializadas contribui para mortes que poderiam ser evitadas.

A proposta busca aproximar serviços de maior complexidade das diferentes regiões do país, reduzindo a necessidade de deslocamentos para grandes centros.

Caiado afirmou que pretende aproveitar no projeto nacional experiências adotadas durante sua passagem pelo governo de Goiás. Médico de formação, ele também mencionou sua atuação durante a pandemia de Covid-19 ao defender as medidas.

“Meu compromisso é com cuidar de vidas, salvar vidas. Essa é a minha formação e é o meu juramento”, disse.

Envelhecimento pressiona sistema de saúde

O crescimento da população idosa também aparece como um dos desafios considerados pelo plano. Caiado citou a existência de cerca de 32 milhões de brasileiros com mais de 60 anos e afirmou que o SUS precisará se adaptar ao novo perfil demográfico do país.

Entre as condições que devem exigir maior atenção estão doenças cardiovasculares, AVCs, transtornos mentais e enfermidades neurodegenerativas.

O candidato também defendeu ampliar a estrutura destinada à saúde mental e criar políticas específicas para pessoas idosas, especialmente diante de situações de isolamento social e da crescente procura por instituições de acolhimento.

“Hoje tem mais pedido de casa de atenção ao idoso do que de creche”, afirmou.

Vacinação e combate à desinformação

A recuperação das coberturas vacinais é outro eixo apresentado. Caiado criticou a disseminação de informações falsas sobre imunizantes e defendeu campanhas para recuperar a confiança da população na vacinação.

“A população não pode ter essa dúvida. Tem que acreditar em quem faz ciência, faz pesquisa, quem cuida de vidas e não pessoas da tese do achismo”, declarou.

Na saúde da mulher, o plano prevê medidas relacionadas ao acompanhamento pré-natal e à prevenção e diagnóstico precoce dos cânceres de mama e do colo do útero.

Autismo e doenças raras entram no plano

O programa também dedica espaço ao atendimento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e pacientes com doenças raras. Caiado defendeu que o cuidado relacionado ao autismo seja incorporado de maneira mais ampla às políticas públicas de saúde.

“O cuidado com o autismo tem que estar no plano de saúde”, afirmou.

Para doenças raras, uma das propostas é instalar em São Paulo um centro especializado em pesquisa, diagnóstico e tratamento.

O programa ainda prevê investimentos em medicina genômica e terapia gênica, com a perspectiva de utilizar avanços tecnológicos para identificar predisposições genéticas e desenvolver tratamentos direcionados a determinadas condições.

Mais recursos e fiscalização

Na gestão do SUS, a proposta inclui mecanismos nacionais de compliance e maior acompanhamento da aplicação dos recursos públicos. Parte dos incentivos financeiros poderia ser vinculada ao cumprimento de critérios relacionados à transparência, gestão de riscos e redução de desperdícios.

Caiado também defendeu ampliar a participação financeira da União no custeio da saúde e rever os critérios utilizados para distribuir recursos federais entre estados e municípios.

Outra frente é o fortalecimento da produção brasileira de medicamentos, insumos farmacêuticos e tecnologias médicas. A proposta parte da avaliação de que a pandemia evidenciou a dependência do país em relação a fornecedores estrangeiros.

Com isso, o plano apresentado pelo candidato combina a reorganização do atendimento imediato com mudanças estruturais de longo prazo, colocando prevenção, digitalização e critérios clínicos para acesso aos serviços entre os principais pilares apresentados para o SUS.

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