Santa Casa reduz atendimentos para evitar interdição

Hospital com sérias dificuldades financeiras precisa apresentar dentro de uma semana, resposta às irregularidades encontradas pelo Cremego

A Santa Casa de Misericórdia de Goiânia atende, há pelo menos duas semanas, um número de pacientes muito aquém de sua capacidade devido à falta de medicamentos e insumos para realizar atendimentos e procedimentos cirúrgicos.

Médicos que trabalham no local relataram ao Jornal Opção que a ordem partiu da diretoria do hospital, que alega esgotamento nos estoques e dificuldades financeiras. “Hoje estamos atendendo conforme já deveríamos estar fazendo desde que essa crise foi instalada, há pelo menos dois ou três meses”, disse um profissional. O hospital, que tem cerca de 280 leitos de internação, estaria com cerca de 130 deles ocupados.

Segundo relatos, desde meados de junho, são constantes as faltas de medicamentos no estoque da Santa Casa, em especial antibióticos, além de materiais como fios de sutura para cirurgia, sonda, dreno e, em alguns casos, até mesmo luvas e máscaras.

Mesmo assim, o hospital continuou com os atendimentos, muitas vezes pedindo para que os pacientes arcassem com os remédios em falta. A diminuição drástica no acolhimento de novos pacientes ocorreu apenas no dia 17 deste mês, após vistoria do Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego) no local.

“Muitas vezes, o paciente de cirurgia eletiva ficava uma semana internado esperando o material para fazer o procedimento, o que só acaba gerando mais despesa para o hospital e sofrimento para o paciente”, relatou um médico.

Interdição ética

No último dia 17, o Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego) enviou um fiscal para vistoriar as condições de trabalho dos médicos no local, a partir de denúncias dos próprios profissionais. O relatório apontou a falta de medicamentos e materiais e, portanto, condições impróprias de trabalho para os médicos. A partir disso, o Cremego instaurou um procedimento de interdição ética da Santa Casa de Misericórdia de Goiânia.

Com isso, o conselho deu ao hospital um prazo até a próxima terça-feira (5/8) para que apresente um plano de correção das deficiências encontradas sob o risco de proibir que os médicos trabalhem no local.

À reportagem, a assessoria de comunicação do hospital admite as dificuldades financeiras e diz que está trabalhando para sanar os problemas. Além disso, a Santa Casa reiterou que o atendimento dentro da capacidade dos estoques de materiais e remédios já acontecia antes mesmo da vistoria do Cremego.

Situação

A Santa Casa de Misericórdia, referência em Goiânia e em todo o Estado, é um hospital filantrópico, ou seja, sem fins lucrativos, cujo maior convênio, cerca de 93% dos atendimentos realizados, é com o Sistema Único de Saúde (SUS).

Para um dos integrantes do corpo clínico do local, composto de 540 médicos, é triste ver a deterioração do hospital. “Já chegamos a fazer 10 mil cirurgias por ano aqui. Temos alguns dos melhores programas de residência do Estado. Com a estrutura deste hospital, poderíamos estar fazendo transplante renal, hepático, cardíaco. O que posso dizer é que hoje, os profissionais que trabalham na Santa Casa o fazem por amor mesmo, amor à profissão, ao atendimento das pessoas mais carentes e ao ensino, mas parece que nada disso é valorizado”, desabafou.

Sobre as origens dos problemas financeiros e o que está sendo feito para sanar as irregularidades, a assessoria do hospital disse que só vai se posicionar após o encerramento do prazo concedido pelo Cremego.

O convênio da Santa Casa com a Prefeitura de Goiânia, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), é hoje a principal fonte de renda do hospital. Em nota, porém, a SMS disse que não cabe à pasta se posicionar sobre a possível interdição do hospital e que espera receber uma notificação oficial do prestador e demais órgãos envolvidos na decisão.

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