Ribeirão João Leite: 23 nascentes sem chance de recuperação

Levantamento feito desde 1999 aponta que fatores principais da degradação são o desmatamento e o uso de agrotóxicos. Porém, delegado prefere conscientizar em vez de punir

Ouro Verde teve a principal nascente do João Leite recuperada | Foto: Reprodução/Google Earth

Principal nascente do João Leite, em Ouro Verde, foi recuperada. Acima, foto de abril de 2003; abaixo, cena de maio de 2014 | Foto: Reprodução/Google Earth

Um trabalho iniciado há 15 anos resultou na recuperação de 19 nascentes do Ribeirão João Leite, em um universo de 491 em todo o manancial. A região é responsável pelo abastecimento de água de 48% da população de Goiânia. Os dados estão em relatório divulgado pela Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente (Dema) nesta terça-feira (10/2).

Conforme o documento, 70 nascentes estão em boas condições ou totalmente preservadas. E a principal cabeceira localizada em Ouro Verde, a 57 quilômetros da capital, está totalmente reconstituída por completa desde 2004.

Em contrapartida, 23 delas encontram-se em estado irreversível, por uma cultura de agressão histórica à flora goiana. Neste ano, uma secou por conta da irrigação; sendo o desmatamento o principal causador da degradação das fontes d’água.

Aliado ao crime ambiental está a atuação de produtores de leite, carne e hortifrútis — situação agravada com o uso de agrotóxicos. O avanço contra os mananciais é reforçado pelo crescente boom imobiliário que circunda as margens do João Leite, como a instalação de hotéis-fazenda.

A polícia ouviu 12 dos grandes proprietários instalados em Goiânia, Região Metropolitana e outras cidades banhadas pelo João Leite. Foi ordenado que nos próximos três meses as nascentes sejam cercadas em um raio de 50 metros, e as matas ciliares protegidas.

Titular da Dema, Luziano de Carvalho, afirmou ao Jornal Opção Online que a ignorância de todos contribui para a situação. “Cadê a fiscalização, o monitoramento e a punição? O grande equívoco nosso é de sempre responsabilizar alguém em questão. Ninguém é culpado. Se você for a um produtor, vai escutar dele que ninguém nunca falou sobre leis com ele”, avaliou, sem apontar diretamente os culpados. O investigador destacou que a proteção é importante para os ruralistas e a sociedade.

Para a confecção do relatório, a polícia atenta para a importância da barragem João Leite e lembra que o sucesso dela depende da qualidade da água que chega ao reservatório. Por isso, alertou para que os animais bovinos, principalmente, não consumam o líquido diretamente nos chamados reservatórios tributários. A sugestão foi para que o recurso seja bombeado para bebedouros longe do manancial.

Luciano de Carvalho mostra áreas desmatadas | Foto: Marcello Dantas/Jornal Opção Online

Delegado Luziano de Carvalho mostra áreas desmatadas | Foto: Marcello Dantas/Jornal Opção Online

Por mais de três vezes, Luziano disse que entende a situação por também ser produtor rural. “O maior desafio é não criminalizar ninguém, porque é possível conscientizar”, analisou, em entrevista coletiva. Para o delegado, é preciso, antes de tudo, esclarecer a situação aos responsáveis.

Na visão dele, é preciso haver integração entre a Dema e o trabalhador. “É claro que impedir ou dificultar a recuperação natural é crime. Aquele que vier à delegacia e botar dificuldade iremos fazer o procedimento policial e encaminhá-lo à Justiça”, enfatizou.

Das 491 nascentes que desembocam no Ribeirão João Leite, 103 vão passar pelo processo de recuperação nos próximos três meses. As demais (276) serão vistoriadas no segundo semestre.

E em tempo de crise hídrica, agravada principalmente na Região Sudoeste, o investigador prevê: “O dia em que secar a água do Cerrado, vai acabar em todo o País”. Os outros reservatórios de abastecimento público da capital são o do Meia Ponte e o Samambaia.

Segundo o Artigo 48 da Lei 9.605, impedir ou dificultar a regeneração natural da fauna e flora é crime. A pena é de seis meses a um ano, com multas que podem chegar a R$ 5 mil por hectare danificado.

Vida útil do reservatório

Supervisor de Proteção de Mananciais da Saneago, Fernando Costa Junqueira sublinha que a manutenção dos pontos contribui para manter a durabilidade do reservatório. Hoje, a previsão é que dure até 2025. “O que faz com que o tempo de vida útil seja curto seriam problemas como o assoreamento e poluição”, ressaltou.

O servidor da central de abastecimento pontua que o trabalho de conscientização e reflorestamento é igualmente importante, pois vai fazer com que as nascentes tenham a vazão conservada. Assim, a qualidade da água será mantida.

O engenheiro ambiental Benício Rodrigues Batista Junior presta serviço a maior parte dos produtores. Formado pelo Instituto Luterano de Ensino Superior de Itumbiara (Iles/Ulbra), antiga Feist, ele argumenta que é preciso tornar prioridade a segurança do fornecimento hídrico. “Se seguirmos a linha de recuperação das nascentes principais e não acomodarmos, teremos menor risco de ficar sem água”, resumiu.

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