Em meio a crise energética, governo diz que voltar horário de verão não resolve

Especialistas discutem tema e dizem que, como alternativa, deveria haver incentivo para novas fontes de energia limpas, como a solar

Governo federal não acredita que retorno do horário de verão trará benefícios, mas empresários e especialistas discordam | Foto: Reprodução

Há semanas, as declarações do ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, giram em torno de justificativas e explicações acerca de medidas que vêm sendo ou não tomadas para o enfrentamento da crise hídrica e para evitar a possibilidade de um apagão elétrico ou até mesmo um racionamento de energia em decorrência do baixo volume de chuvas. Apesar de grande movimentação por parte de algumas entidades, o líder da pasta encerrou especulações ao afirmar na última sexta-feira, 30, à Rádio CNN, que não existe qualquer movimento em prol do retorno do horário de verão no Brasil.

“O horário de verão não traz nenhum benefício em termos de economia para o consumo de energia. O pico de energia, que no passado era no final do dia – e aí fazia sentido, sim, ter horário de verão – agora é por volta de 14 a 15 horas”, afirmou o ministro. O horário de verão foi extinto pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em seu primeiro ano de governo, ainda em abril de 2019, sob a justificativa de que a medida se tornava desnecessária a partir do avanço das tecnologias e das graduais mudanças nos hábitos gerais do consumidor.

Até 2019, o horário de verão se mantinha em vigor no Brasil desde o verão do ano de 1985 para 1986, em onze estados brasileiros, como forma estratégica de reduzir o consumo de energia elétrica. Como regiões algo, tinha-se a Sul, Sudeste e Centro-Oeste, especificamente os estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, Espírito Santo e Distrito Federal. Entre 2008 e 2018, no entanto, sua instituição ficou determinada a partir de zero hora do terceiro domingo do mês de outubro até a zero hora do terceiro domingo do mês de fevereiro do ano seguinte, em todos os anos. Sua regulação se deu a partir do decreto presidencial de nº 6.558.

Antes disso, a primeira vez que os relógios tinham sido adiantados em uma hora havia sido durante o governo de Getúlio Vargas, durante o verão de 1931 para 1932. A adoção teve duração de cinco meses e foi realizada em todos os estados, diferente da última medida adotada até então. Sua implantação, até o ano de 1967, ocorreu de forma esporádica, em nove ocasiões distintas, a depender da necessidade de cada situação.

A primeira vez na história que se ouviu falar da ideia do horário de verão foi ainda em 1784, quando o inventor Benjamin Franklin teve sua sugestão negada por todas as esferas: política, social e econômica. Na época em que ainda não existia energia elétrica, o gasto excessivo não era com geração de energia, mas se referia ao uso excessivo de velas quando o trabalho se estendia até depois do pôr do sol. A ideia de fazer as pessoas levantarem da cama uma hora mais cedo, no entanto, não foi bem recebida, mesmo que tenha sido sua estratégia pessoal utilizada para economizar o próprio bolso.

Foi somente um século mais tarde que uma proposta oficial do horário de verão surgiu, quando o entomologista neozelandês Vernon Hudson percebeu o valor da luz do dia em suas pesquisas de observação ao comportamento dos insetos e publicou, em 1898, uma pesquisa que apoiaria suas reinvindicações acerca da medida. Um século mais tarde, a partir dos estudos já existentes e da própria pesquisa, o membro da Sociedade Astronômica Real William Willett publicou mais um estudo acerca da importância do horário de verão no cotidiano das pessoas. O primeiro país a finalmente adotar o horário de verão como forma de economia de carvão, no entanto, foi a Alemanha, em 30 de abril de 1916, durante a primeira Guerra Mundial. Logo em seguida, o império Austro-Húngaro também abraçou a ideia e demais países não quiseram ficar para trás, inclusive os Estados Unidos.

Apesar de no pós-guerra fazendeiros norte-americanos terem conseguido fazer com que o horário de verão parasse de ser utilizado no país – movimento seguido por outros países que haviam adotado a técnica – o ajuste dos relógios retornou ao cenário em 1939, na segunda Guerra Mundial, quando países aliados e do eixo reinseriram a ideia como forma de poupar recursos. Já na década de 1960, quando o horário já vinha esporadicamente sendo aderido no Brasil, os Estados Unidos determinaram que a utilização da técnica seria facultativa para cada um dos estados.

Pressão pelo retorno
Com uma longa história de discussões acerca da existência ou não de benefícios que façam valer a pena os esforços que o horário de verão demanda, em 2021 o debate acerca do tema voltou à tona no Brasil após empresários e representantes do setor de bares, restaurantes, hotelaria e turismo se articularem em prol do retorno da medida. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), por exemplo, chegou a encaminhar um pedido para análise aos ministérios de Turismo e de Minas e Energia no início do mês de julho.

Danillo Ramos, presidente da Abrasel-GO | Foto: Arquivo pessoal

A justificativa, para a Abrasel, é que o horário de verão é capaz de dobrar o faturamento da categoria no período da noite, por gerar maior movimentação durante o momento do “happy hour”. Em entrevista ao Jornal Opção, o presidente da Abrasel-GO, Danillo Ramos, ressaltou os benefícios que, para ele e toda a associação, não se restringem à categoria. “Quanto mais tarde o sol se põe, mais se incentiva que as pessoas vão aos bares passar esse momento do happy hour, de modo que isso pode ser explorado pelos bares e restaurantes para poder atrair o cliente. Isso, de certa forma, aumenta a clientela e o faturamento. Com isso, já que tem entidades do setor produtivo que neste ano vão ser fundamentais para a retomada econômica, e já que há necessidade de economizar energia, por que não voltar o horário de verão? O governo ganha, os bares e restaurantes ganham, os hotéis ganham, e assim se contribui para resolver até um problema”, opina

Apesar da expectativa de Danilo e de toda a associação fosse de que o governo se sensibilizaria com a movimentação do setor produtivo, a declaração dada pelo ministro na última sexta-feira pode colocar uma pausa na discussão acerca da volta do horário de verão, ainda que a pressão em cima de seu retorno permaneça grande. Para o engenheiro eletricista, Jovanilson Freitas, a justificativa para toda essa articulação por parte dos empresários se dá com a “folga ao sistema energético” que o horário de verão proporciona.

Engenheiro eletricista Jovanilson Freitas | Foto: Arquivo pessoal

“O período chuvoso para região Sul, Sudeste e Centro-Oeste era diferente do período chuvoso da região Norte e Nordeste, então a técnica foi adotada em 1985 em função disso. No entanto, ao longo do tempo também se começou a ver a importância operacional do horário de verão, já que se tinha o problema do pico de consumo de energia, que era por volta das sete horas da noite. Havia um consumo de energia muito alto e em função disso, pelo sistema não ser interligado, existia uma dificuldade muito grande. Então quando horário de verão entrava, ele dava uma folga para o sistema, já que o consumo, que era por volta das sete da noite, era deslocado e diluído até as oito horas da noite. O resultado era uma folga operacional, que consequentemente resultava numa economia que sempre ficou numa faixa de 3 a 4,5%. É uma economia, não deixa de ser, mas para operação do sistema a redução era de 50 a 55%, pela menor necessidade de geração de energia”, explica o engenheiro.

Essa folga operacional, para Jovanilson, por muito tempo contribuiu para diminuir o consumo de água para a geração de energia e, consequentemente, para gerar economia nos reservatórios de água – que se encontram comprometidos em meio a pior crise hídrica presenciada pelo país nos últimos 90 anos. Com a intensidade da crise, os efeitos já começaram a surtir no cotidiano do consumidor goiano e brasileiro como um todo, uma vez que as bandeiras tarifárias das contas de energia, por exemplo, tiveram seu aumento. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o rombo na conta das bandeiras esse ano já passou de R$ 1,5 bilhão. Essas bandeiras tarifárias consistem em um valor adicional cobrado ao consumidor com o objetivo de cobrir o custo da geração de energia por parte das termelétricas, em decorrência do baixo nível das hidrelétricas.

Para além das motivações econômicas, para André Amorim, gerente do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas do Estado de Goiás (CIMEHGO), as principais vantagens do horário de verão estão no melhor aproveitamento do período de maior luminosidade natural disponível nessa época do ano no Brasil. “Muitas de nossas atividades que consomem energia, como a iluminação seriam adiadas. Ambientalmente também podem ser encontradas vantagens, talvez no que se diz em economizar no uso das termoelétricas”, explica.

Gerente do CIMEHGO, André Amorim | Foto: Arquivo pessoal

“Para o consumidor comum, a economia gerada é baixa e incompatível para o tamanho da reclamação das pessoas que não gostam do horário de verão, por isso nos últimos anos tivemos um movimento para acabar com ele. Quando tivermos no momento mais quente do ano, que é agosto e setembro, o uso do ar-condicionado vai sobrepor em muito as lâmpadas acessas, por exemplo, então como uma alternativa, já que o governo federal não vê a possibilidade deste retorno, penso que devemos partir para uma ação de uso de outras fontes e energia limpas, como a solar”, sugere o meteorologista.

O engenheiro elétrico Jovanilson Freitas concorda. Para ele, uma grande falha de gestão pública que há algum tempo perdura é o pequeno investimento em fontes alternativas. “Hoje o Brasil, com a capacidade que ele tem para falar de fontes alternativas, principalmente a solar e a eólica, o investimento é muito tímido. Principalmente para solar. E além de ser um investimento tímido, não existem tantas linhas de incentivo do governo, já que se tem uma briga tarifaria em cima disso, o fator de ICMS de geração”, pontua.

Enquanto isso não ocorre, no entanto, para ele, o retorno do horário de verão teria suas vantagens. “Vai ter um momento que você vai chegar em casa e não vai consumir energia num primeiro momento. Não que você não vai ter o uso de energia, mas provavelmente vai começar a utilizar energia na parte de iluminação, por exemplo, só após as oito horas da noite. Para tomar banho, o chuveiro certamente vai estar na posição verão, então de certa forma o consumo de energia já vai ser reduzido. Podemos dizer pode dar um impacto de 5%, o que não deixa de ser um valor significativo na conta do cliente, já que o próprio chuveiro, junto com o ar-condicionado são os dois principais vilões que temos dentro de casa quando se trata de gasto energético”, conclui.

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