Reportagem do Jornal Opção é ponto de partida do último episódio da série “Em Nome de Deus”, da Globoplay

Em seis episódios, material disponível no streaming por assinatura da Globo mostra a história de vítimas do médium João de Deus. Jornal Opção noticiou em 2012 acusação por homicídio de norte-americano

Último episódio da série documental “Em Nome de Deus”, produzido pela equipe do Conversa Com Bial para a Globoplay, parte da reportagem “João de Deus é investigado por homicídio”, publicada pelo Jornal Opção em 2012, para pesquisar dados do processo e encontrar parentes da vitima, um bailarino norte-americano que tinha aids | Foto: Reprodução/Globoplay

No sexto e último episódio da série documental “Em Nome de Deus”, produção da equipe do programa Conversa Com Bial, da TV Globo, para a plataforma por assinatura de streaming Globoplay, começa a revelar uma faceta do médium condenado João de Deus, que cumpre prisão domiciliar em Anápolis.

Nas primeiras cenas, o apresentador e jornalista Pedro Bial e a jornalista e produtora Camila Appel iniciam a revelação de algo que praticamente nenhum dos entrevistados topavam falar abertamente, o que chamamos do jornalismo de on the records, ou seja, publicamente, com autorização para ser identificado nas imagens.

A partir da reportagem “João de Deus é investigado por homicídio”, da repórter Andréia Bahia e do repórter fotográfico Fernando Leite, que foi publicada pelo Jornal Opção em 24 de fevereiro de 2012, a equipe do Conversa Com Bial toma conhecimento de um processo contra o médium pela morte de um bailarino norte-americano chamado Javier Villa Real Bustus. O dançarino procurou João de Deus em Abadiânia e teria ouvido do goiano que seria curado espiritualmente da aids.

Morte de Javier

Em abril de 2003, Javier morre. Ninguém de sua família chegou a ser ouvido no processo, que prescreveu em 2015. João de Deus foi inocentado na ação penal pelo homicídio do bailarino porque expirou o tempo para se analisar o caso, que foi denunciado pelo Ministério Público do Estado de Goiás à Justiça. A partir desde caso, “Em Nome de Deus” começa a mostrar histórias de pessoas que teriam morrido após serem submetidos a cirurgias espirituais e toda a suposta rede de ocultação de casos na rede pública de Abadiânia.

Com base nas informações contidas na reportagem de 2012 do Jornal Opção, a série documental começa a revelar a faceta que era escondida sobre as curas espirituais: os casos de pessoas que iam à Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, morriam, mas ninguém tomava conhecimento dos óbitos. A série revela que as irmãs de Javier nunca tomaram conhecimento de que a morte do bailarino chegou ao Poder Judiciário brasileiro.

A equipe do documentário localiza uma das irmãs do norte-americano que procurou João de Deus para se livrar do HIV na cidade de Los Angeles, na Califórnia. A professora Anna Chandler dá detalhes da história de Javier desde quando contou à irmão que tinha contraído o vírus. Anna revela que, no momento em que soube da boca de Javier, começou a chorar, mas o irmão a consolou: “Não se preocupe. Vou ficar bem. Estou tomando os remédios”.

Equipe do Conversa Com Bial localiza irmã de Javier, a professora Anna Chandler, em Los Angeles, na Califórnia | Foto: Reprodução/Globoplay

João de Deus?

Para a irmã, João de Deus só passa a existir porque Javier disse que viria ao Brasil para conhecer o médium, que podia curá-lo. Anna afirma que o irmão disse que teria de voltar a Abadiânia várias vezes para continuar a cura espiritual do HIV.

“Os tratamentos no Brasil foram milagrosos. Tenho que voltar mais cinco vezes”, escreveu em 29 de outubro de 2002 Javier ao pai. A crença do bailarino era a de que existiam na Casa Dom Inácio de Loyola 139 documentos de pacientes que se curaram e ele seria o 140º curado do HIV por João de Deus.

Na carta, Javier diz que João de Deus recomendou que o bailarino parasse de tomar a medicação e que o norte-americano seria curado na Casa. A última conversa de Anna com o irmão foi em fevereiro de 2003. Dois meses depois, uma norte-americana chamada Sakanta entrou em contato com a família para avisar que Javier estava muito doente. No aeroporto, uma sobrinha avisa à irmã que Javier tinha morrido.

Detalhes do caso

A série revela detalhes de como o corpo do irmão foi entregue para os familiares, que são mais interessantes e assustadores no relato de Anna Chandler do que se forem descritos aqui. O caso do bailarino norte-americano é o ponto de partida para o último episódio de “Em Nome de Deus”, que revela mais detalhes sobre a rede de proteção que possivelmente acobertava suspeitas de crimes e supostas mortes ocorridas na Casa Dom Inácio de Loyola ou na cidade de Abadiânia. 

Leia abaixo a reportagem que é mostrada no início do episódio “A pandemia”, sexto e último da série documental da Globoplay “Em Nome de Deus”:

João de Deus é investigado por homicídio

Andréia Bahia (fevereiro de 2012)

Javier Bustus morreu em abril de 2003. O processo por homicídio contra João de Deus prescreveu em 2015 | Foto: Reprodução/Globoplay

As imagens das cirurgias feitas por João Teixeira de Farias, conhecido como João de Deus, são fortes. Em frente a câmeras e a uma pe­quena multidão, ele corta as pessoas — com instrumentos cirúrgicos sem assepsia e com as mãos nuas — e retira o que chama de nódulos de qualquer parte do corpo. Em alguns vídeos ele chega a raspar os olhos de pessoas com uma faca de cozinha.

Os vídeos podem ser vistos na internet e na sala de espera da Casa Dom Inácio de Loyola, onde nas quartas, quintas e sextas-feiras, centenas de pessoas aguardam para serem atendidas. Semanalmente, são realizados cerca de 3 mil atendimentos e grande parte das pessoas que buscam a cura de doenças como o câncer vem de fora do Brasil. Foi lá, na Casa Dom Inácio Loyola, que a austríaca Martha Rauscher morreu no dia 2 de fevereiro.

Essas imagens, que certamente configuram exercício ilegal da medicina, são o meio pelo qual João de Deus divulga seu trabalho, que já é reconhecido mundialmente e atrai gente simples e figurões como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a apresentadora Xuxa, a atriz Shirley MacLaine e até médicos conceituados, como Roberto Kalil Filho, do Hospital Sírio-Libanês e do InCor, de São Paulo. Pessoas que ignoram que ao realizar procedimentos médicos João Teixeira incorre em crime previsto no Código Penal brasileiro, como explica o promotor de Justiça Bernardo Boclin Borges. “Qualquer um que exerce a medicina ou se estabelece como médico sem o ser pode ser processado.”

De acordo com o artigo 282 do Código Penal, que trata do exercício ilegal da medicina, arte dentária ou farmacêutica, é crime “exercer, ainda que a título gratuito, a profissão de médico sem autorização legal”. Para não configurar prática ilegal da medicina, religiosos de todas as doutrinas alegam que quem cura é Deus. Mas quem corta é o homem. Além desse, há outros artigos do Código Penal que atingem pessoas, como João de Deus, que prometem a cura.

O artigo 283 criminaliza quem “inculcar ou anunciar cura por meio secreto ou infalível”. Isso seria charlatanismo e a previsão de pena é de três meses a um ano de prisão e multa. Prescrever, ministrar ou aplicar qualquer substância usando gestos, palavras ou qualquer outro meio e fazer diagnósticos também é crime de curandeirismo. “Muitas desses religiosos que prometem a cura por vários meios incorrem nos três crimes”, observa o promotor.

As cirurgias realizadas por João de Deus já foram mostradas em diversos programas de televisão e, em dezembro do ano passado, ele foi personagem do programa da americana Oprah Winfrey, uma das mais famosas entrevistadoras do mundo. Mas a divulgação maciça da atuação de João de Deus não provocou uma investigação por parte do Ministério Pú­blico. Segundo Boclin, a dificuldade em enfrentar esse tipo de situação está no fato de contrariar a crença popular. “Dentro da cabeça das pessoas esse tipo de tratamento surte efeito.”

Na série “Em Nome de Deus”, material realizado pela repórter Andréia Bahia e o repórter fotográfico Fernando Leite para o Jornal Opção em 2012 aparece no início do último episódio da série | Foto: Reprodução/Globoplay

Mesmo assim, diz, caberia à polícia e às entidades médicas denunciar a situação. “E se há o ato, deve haver a investigação da polícia, o processo e a condenação.” No Tribunal de Justiça de Go­iás não há processo contra João de Deus por exercício ilegal da medicina nem por charlatanismo. Há uma investigação de 2003 pela morte do americano Javier Villa Real Bustus. De acordo com o processo, Javier teria abandonado o tratamento convencional que fazia contra aids para tratar com João de Deus e, mais tarde, veio a falecer no Hospital de Doenças Tropicais.

Nesse processo, João de Deus está sendo investigado por homicídio doloso, com dolo eventual, ou culposo, quando não há intenção de matar. O inquérito ficou parado durante todos esses anos e só agora foi encaminhado para a Delegacia de Homicídios de Goiânia, que dará andamento à investigação. Em Abadiânia há ou­tro processo contra João de Deus, mas corre em segredo de justiça.

Casos que envolvem a família, crianças e adolescentes e os crimes sexuais têm esse tratamento pela Justiça. Segundo a delegada-geral Adriana Accorsi, a polícia não investiga se João de Deus atua ou não ilegalmente como médico porque não há denúncia contra ele. “Não há reclamação contra ele e muitas pessoas entendem que não se trata de exercício ilegal da medicina, mas de prática religiosa.”

Além disso, afirma, a Polícia Civil não sai procurando casos para in­vestigar, averigua aquilo que é denunciado, afirma a delegada. Caberia ao Conselho Regional de Medicina (Cremego) denunciar, como faz quando toma conhecimento da existência de falsos médicos. Todavia, o Cremego se nega até mesmo a falar sobre o assunto. A assessoria de imprensa da entidade, em resposta à solicitação do Jornal Opção, disse que o presidente da entidade, psiquiatra Salomão Rodrigues, preferia não se pronunciar sobre o tema.

O diretor de Comunicação do Sindicato dos Médicos, Rob­son Azevedo, diz que, apesar de respeitar a orientação religiosa das pessoas, médium ou quem quer que seja que esteja realizando procedimentos médicos, está incorrendo em exercício ilegal da medicina. “E isso é crime previsto em lei. Ele não pode invadir a área médica.” Para ele, se João de Deus realiza procedimentos invasivos cabe uma investigação policial.

Ao ser entrevista na série “Em Nome de Deus”, a professora Anna Chandler, irmã do bailarino Javier Bustus, diz que João de Deus tem de pagar por ter causado a morte de pessoas “fingindo ser o que não é” | Foto: Reprodução/Globoplay

Na opinião do psiquiatra Marcelo Caixeta, as entidades médicas não denunciam João de Deus porque não têm força para enfrentá-lo. “Quem é o Cremego para enfrentar João de Deus”, provoca. Segundo ele, as entidades médicas não conseguem inibir coisas mais simples, como a venda irregular de lentes de contato, os diagnósticos de profissionais da saúde que não são médicos, a realização de partos por enfermeiros. “A ilegalidade na medicina é brutal e parece que as entidades entregaram os pontos.”

Apesar de católico, João de Deus se intitula médium e afirma incorporar mais de 30 espíritos. Essas entidades é que realizariam os procedimentos médicos por intermédio dele. O nefrologista Devir Vêncio vê as intervenções cirúrgicas feitas por João de Deus com grande preocupação. Adepto da doutrina de Alan Kardec, ele afirma que o espiritismo não veio para concorrer com a medicina, mas para auxiliar. “A doutrina não aprova a cirurgia intervencionista, apenas o passe e o uso de água fluidificada.”

Os médiuns espíritas, afirma, não interferem no tratamento médico, não mudam medicamento nem receitam remédios. “A medicina cuida do corpo e o espiritismo do espírito.” Como médico, Vêncio se pre­ocupa principalmente com o fato de João de Deus não ter preparo para fazer as intervenções e de não ter nenhum cuidado com a assepsia que envolve qualquer procedimento invasivo. Ele também vê com estranheza a venda de remédios fitoterápicos receitados aos “pacientes”. Ele conta que o espiritismo não aceita nenhuma doação em troca de cura.

Na Casa Dom Inácio de Loyola, há locais específicos para a coleta de doações das pessoas. Ou seja, elas são incentivadas a doar. Por se apresentar como mé­dium, muitas vezes João de Deus é visto como um adepto do espiritismo. Prudente, o presidente da Federação Espírita de Goiás, Calci de Sá Roriz, diz que não “repudia” o que João de Deus faz. “Não somos contra ninguém que vem em auxílio das almas, mas não é o que nós fazemos.” Na opinião de Roriz, os tratamentos espirituais, que também são feitos no espiritismo, dispensam qualquer tipo de corte. Para ele, essas intervenções são feitas para impressionar. “Algumas pessoas precisam ser cortadas para acreditar na cura.”

Ele não acredita que João de Deus aja de má fé. Considera-o uma pessoa bem intencionada e acredita no dom curativo dele. Todavia, observa, que as cirurgias com corte é que garantem a casa sempre cheia. O psiquiatra Marcelo Caixeta também é adepto do espiritismo e acredita nos fenômenos espirituais. “Tenho convicção que a cura espiritual é possível.” Por outro lado, afirma, “há muito charlatães se aproveitando da boa vontade do povo.” Entre os charlatães estaria João de Deus, diz. “Uma coisa é ir ao centro espírita buscar cura por meio do passe, da oração e da água fluida sem comércio ou seguidores. O contrário do que se propõe João de Deus, que tem toda uma simbologia da roupa branca, dos seguidores, da cirurgia com corte.”

Para Caixeta, o que João de Deus pratica é charlatanismo e exercício ilegal da medicina. “Ele usa a psicologia do ven­cido: se morreu, foi Deus que levou; se curou, foi João de Deus que salvou.” Ele lembra que a medicina está repleta de casos de tumores que regridem naturalmente. Marcelo Caixeta diz que João de Deus faz as cirurgias com corte “para fazer bonito”. “Ele não sabe nada de medicina, e se corta as pessoas isso já é indício de charlatanismo.”

Segundo Caixeta, as cirurgias trazem fama e dinheiro para João de Deus. “Tem muita gen­te ganhando com isso e ele gos­ta é da fama, do entourage, da vida nababesca que leva sem ganhar um tostão, da paparicação.” Na opinião de Marcelo Caixeta, o que João de Deus pra­tica é puro charlatanismo. “Ele prejudica e engana muita gente. Conheço muita desgraça que ele fez e nenhuma graça.”

João de Deus é preso após condenações por diferentes crimes, entre eles porte ilegal de arma de foto e estupro | Foto: Reprodução/Globoplay

Chegamos à Casa Dom Inácio de Loyola, o fotógrafo Fernando Leite e eu, por volta das 10 horas da manhã de uma quinta-feira. Era dia de atendimento. Antes mesmo de chegar ao portão da casa nos impressionamos com a cidade: dezenas de pessoas de branco andando pela rua que leva ao complexo que, surpreendentemente, tem o nome do santo católico Inácio de Loyola. É uma verdadeira procissão formada principalmente por estrangeiros muito brancos que tentam se proteger do sol com sombrinhas, chapéus e blusas. Alguns são empurrados em suas cadeiras de roda, outros andam amparados.

Na casa, outras dezenas de pessoas estavam espalhadas por diversos espaços: áreas com bancos de madeira, um refeitório com mesas compridas e uma espécie de templo com bancos voltados para o que seria um palco. Em todos os lugares as pessoas se encontram de olhos fechados, com as mãos estendidas e as mãos voltadas para cima. Algumas se entregam a uma oração frente a um triângulo de madeira, onde se colocam os pedidos. São centenas de papéis dobrados colocados no vão entre a parede e a madeira. As imagens de um misticismo exacerbado.

Muitos passam por nós como se não nos enxergassem. Ninguém nos cumprimenta. Era hora da sopa. Refeição feita com legumes cozidos em água fluidificada que é oferecida a todas as pessoas de graça. A sopa faz parte do tratamento espiritual. A água fluidificada, os cristais e os remédios receitados por João de Deus são vendidos dentro da casa. Em um dos caixas havia um aviso: vendas com cartão de crédito só acima de 50 reais.

Lá dentro funciona uma lanchonete normal, com salgados, sucos e doces, e há também muitas pessoas com camisetas que trazem a imagem de João de Deus. Rapidamente fomos identificados, apesar de não estarmos com crachá, e levados a presença do relações-públicas da casa, Francisco Lobo, um católico praticante que vai regularmente à missa. Chico Lobo, como é conhecido, diz que a casa é um centro ecumênico que trabalha apenas na linha da cura. “Não doutrinamos ninguém.”

Extremamente educado, ele explicou que o atendimento em Goiânia era feito somente nas quartas, quintas e sextas-feiras e nos demais dias, João (como ele se refere a João de Deus) viaja para prestar atendimento nos demais Estados e também fora do Brasil. O atendimento funciona assim: as pessoas pegam uma ficha e aguardam na fila para serem atendidas por João de Deus. Em volta dele, de 100 a 150 médiuns ajudam nos procedimentos.

Lobo conta que são feitas poucas cirurgias com corte e apenas João de Deus opera porque somente ele tem o dom da incorporação, explica. “Hoje (pela manhã apenas) foram feitas umas 30.” Esses procedimentos, diferente dos sem corte, são feitos no palco do salão, que se assemelha a um templo, e assistidos pelo público. Na opinião de Chico Lobo, o corte serve para romper algum bloqueio que a pessoa tenha. Teria o efeito placebo. Mas o estranho é que nas paredes na casa há uma foto de João de Deus operando a si mesmo.

Se o corte serve apenas para que a pessoa confie na possibilidade de cura, será que João de Deus teve dúvidas em relação ao poder da cura espiritual? Chico Lobo deixou nossa equipe à vontade para andar pela casa, falar com as pessoas e tirar fotos. Por volta do meio-dia saímos por meia hora da casa e, quando voltamos, Lobo nos questionou sobre a nossa ausência. Assim como nossa presença, nossa ausência foi rapidamente percebida.

João de Deus enfia tesoura no nariz de uma pessoa durante uma das chamadas cirurgias espirituais na Casa Dom Inácio de Loyola, na cidade de Abadiânia | Foto: Reprodução/Globoplay

Fomos encaminhados para falar com o administrador da casa, Hamilton Pereira. Ele nos comunicou que João de Deus não poderia falar com a nossa reportagem porque estava emocionalmente abalado com as reportagens sobre a morte de Martha Rauscher. “A imprensa disse coisas que ele não disse, falou coisas que não acontecem e ele está irritado e até grosseiro.” Hamilton, que também é católico, trabalha na casa há nove anos. Não é voluntário, recebe salário. Ele conta que João de Deus tem dois stents no coração e que trata com um cardiologista. “Ele não recomenda que ninguém abandone o tratamento médico.”

Segundo Hamilton, João de Deus tem um bom relacionamento com os médicos e, recentemente, o Hospital de Câncer de São Paulo reservou uma sala para que ele atendesse os pacientes. Quanto à morte da austríaca, o administrador diz que a maioria das pessoas que procura a cura espiritual já foi desenganada pela medicina. “São essas as pessoas que frequentam a casa, exceto os espíritas, que vêm sempre. Ou seja, mortes na casa devem ser vistas como naturais.

A Polícia Civil de Abadiânia instaurou inquérito para apurar a morte de Martha Rauscher. A austríaca tinha 80 anos e morreu na Casa Dom Inácio. A austríaca estava em Abadiânia desde o dia 21 de janeiro e, segundo o boletim do Serviço de Atendimento Médico de Urgência, que atendeu a ocorrência, ela teve uma parada cardíaca. O caso está sendo investigado pelo delegado do 5º Distrito Policial de Anápolis, Manoel Vanderic Filho, porque Abadiânia está sem delegado.

Os depoimentos na Casa Dom Inácio de Loyola são sempre muito emocionantes. A fé das pessoas impressiona e explica a devoção cega a João de Deus. A espanhola Emelina Vieira visitava a casa pela segunda vez. Ela veio com a filha, que teria se curado de problemas hormonais com o tratamento espiritual. Ela conta que depois de quatro visitas a filha foi curada. E­melinda buscava a cura para dores nas costas.

O fazendeiro José Dutra de Campos, de 58 anos, também se diz curado de um câncer na próstata diagnosticado há três anos. Mineiro de Pompeu, ele conta que já fez duas cirurgias espirituais. “Foi sem corte, mas sangrou muito.” Ele também se submeteu a um procedimento espiritual para tirar pedras nos rins e sarou, conta. José Dutra nunca fez nenhum tratamento médico, mas diz que se curou.

Valter de Souza, de 69 anos, acredita que João de Deus vai curar seu filho, de 42 anos, que tem câncer, à distância. Ele veio de Água Boa, em Mato Grosso, e trouxe uma foto do filho para que João de Deus o curasse. Ele conta que o filho faz tratamento há muito tempo, mas que o tumor é muito resistente. Por isso decidiu buscar ajuda espiritual. “Meu filho não veio porque a mulher não acredita em tratamento espiritual”, explica.

Valter e José Dutra conversavam com o técnico agrícola Kauciro Yokoca, um dos médiuns que ajudam João de Deus nos atendimentos. Ele conta que conheceu João de Deus há 30 anos, quando a filha trouxe o sogro para tratar de um enfisema pulmonar. O filho, que é médico anestesista, também se curou de uma fratura pelas mãos de João de Deus, conta. Ele diz que o médium só faz cirurgia com corte para aqueles que pedem.

Na casa, a todo momento, se ouvem histórias de cura e de esperança. São pessoas que se deslocam de longe, que vêm com dificuldade em busca de uma cura que não encontraram na medicina tradicional. A despeito da liberdade do culto religioso, previsto na Constituição, as autoridades, a polícia, o Ministério Público, as entidades médicas precisam investigar se o que João de Deus faz é religião ou exercício ilegal da medicina ou até charlatanismo.

Série “Em Nome de Deus” mostra imagens da Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, vazia | Foto: Reprodução/Globoplay

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