Relembre cinco casos de violência política contra mulheres no Brasil

Apesar das conquistas, o caminho da equidade de condições na política a ser percorrido ainda é longo

Gabriela Macêdo
Giselle Vanessa Carvalho
Ysabella Portela

Neste Dia Internacional da Mulher, 8 de março, uma significativa conquista de espaço feminino na política precisa ser comemorada. No entanto, o caminho para se percorrer ainda é longo. Isso, porque apesar do grande eleitorado formado por mulheres – que atualmente, compõe maioria em Goiás e no Brasil, com 52% e 53%, respectivamente – a representatividade ainda é pequena.

Em números, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que o pleito feminino é de apenas 15% do total de cadeiras existentes nas Câmaras Municipais. Já no Legislativo da capital, elas são apenas cinco vereadoras e representam 5% do das 35 cadeiras da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego). Inclusive, durante as eleições municipais de 2020 em Goiânia, a expectativa era que a cidade atingisse seu maior número de candidatas à prefeitura até hoje, com quatro pré-candidatas. Até setembro, esse número se manteve. Entretanto, apenas três disputaram o pleito: Adriana Accorsi (PT), Manu Jacob (PSOL) e Dra. Cristina (PL).

Já em 2022, no entanto, Goiás não tem pré-candidatas mulheres aos cargos majoritários estaduais: ao Senado e ao Governo. As candidaturas à Alego e à Câmara dos Deputados, apesar de existirem, contabilizam uma quantidade ínfima – com apenas nove nomes confirmados – quando comparada a dos pré-candidatos homens. Além do baixo incentivo às candidaturas de mulheres, apesar da existência das cotas de 30% estabelecidas em 2020 pelo TSE, violências políticas são recorrentes quando mulheres se dispõem a assumir cargos de poder.

Pensando nesse histórico de luta, o Jornal Opção elencou cinco casos de violência política contra a mulher vivenciados no Brasil, para que, assim, seja possível aprender com os erros do passado, buscando evitá-los no futuro. Veja a lista:

Silenciamento de Camila Rosa, na Câmara Municipal de Aparecida de Goiânia

No início de fevereiro, a vereadora da Câmara Municipal de Aparecida de Goiânia, Camila Rosa (PSD), foi vítima de violência política e assédio moral pelo próprio presidente da Casa Legislativa, André Fortaleza (MDB). No dia do fato, a vereadora – que é a única mulher em meio a 24 vereadores homens – fazia uso da palavra, conforme prevê o regimento, e foi interrompida por André, que ordenou que o microfone dela fosse desligado.

Na ocasião, a parlamentar afirmou ter se sentido constrangida, humilhada e desmoralizada pelo presidente da Casa. Após o ocorrido, cujo vídeo viralizou na internet, a vereadora se deslocou até a delegacia onde denunciou o parlamentar. Em seguida, a Defensoria Pública da Mulher entrou em contato para que o parlamentar fosse denunciado na ouvidoria do TRE-GO.

Mesmo após silenciar Camila, no dia em que se comemorou  90 anos do voto feminino, Fortaleza chegou a se deslocar a Câmara de Goiânia, por convite do vereador Ronilson Reis (Podemos), para se justificar. Lá, ele negou que tenha cometido qualquer tipo de crime contra a parlamentar, além de opinar não acreditar na existência de machismo na Câmara de Aparecida e “que as mulheres só não estão na política porque não querem”.

Assassinato de Marielle Franco

Em 2018, a vereadora pela cidade do Rio de Janeiro (RJ), Marielle Franco foi assassinada, junto ao seu motorista, Anderson Gomes na saíde um evento em que se discutia a importância de mulheres negras estarem em busca de espaços de protagonismo e decisão. O assassinato de Marielle repercutiu em todo o mundo. Ela era uma mulher negra, LGBT e defensora dos direitos humanos. A partir deste crime, o debate sobre violência política, que não é novidade, ganhou páginas de jornais.

Até hoje, em 2022, a polícia ainda não apontou quem foi o mandante do crime ou a motivação, mas segundo a denúncia apresentada pelo Ministério Público, Marielle foi morta por sua militância em favor dos direitos humanos. Os ex-policiais militares Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz foram presos preventivamente em março de 2019. O primeiro, é acusado de ser o autor dos disparos e o segundo, por dirigir o carro usado na emboscada. Ambos negam.

Políticos já foram investigados como suspeitos de serem os mandantes. Entre eles, o vereador Marcelo Siciliano, o ex-vereador Cristiano Girão e o ex-deputado Domingos Brazão. O nome do presidente Jair Bolsonaro (PL) também foi envolvido no caso pelo fato de Lessa ter morado no mesmo condomínio em que Bolsonaro tem casa. Já Carlos Bolsonaro também foi envolvido na história por ter tido uma discussão com um assessor Marielle em 2017. Na ocasião, Marielle precisou intervir na briga dos dois.

Assédio e ameaças a deputada Isa Penna, na Assembleia Legislativa de São Paulo

Em 2020, a deputada estadual por São Paulo, Isa Penna (PSOL) chegou a registrar um boletim de ocorrência contra o parlamentar Fernando Cury (Cidadania-SP), por importunação sexual, após após o deputado ser flagrado passando a mão no seio da parlamentar durante sessão extraordinária da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), para votar o orçamento do estado. Após o caso, Cury chegou a ser expulso do partido e notificado pela Justiça. Além disso, passou 180 dias suspenso do cargo.

Não suficiente, a parlamentar é constantemente vítima de comentários ofensivos e ameaças em suas redes sociais. Na situação mais recente, que ocorrem em janeiro deste ano, a deputada registrou um boletim de ocorrência após receber ameaças de morte e estupro via e-mail.

Na mensagem, o criminoso ameaçou “golpear o crânio” da deputada utilizando um “martelo ordinária” e estuprá-la em seguida do ato. No mesmo e-mail, ele ainda a ameaçou de “cortar a cabeça fora”. Após o registro do documento na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), a Polícia Civil determinou que a denúncia feita pela parlamentar fosse encaminhada e apurada na Divisão de Crimes Cibernéticos. Lá, os crimes de injúria e ameaça são investigados.

Ofensas contra a deputada federal Maria do Rosário

O presidente Jair Bolsonaro (PL) protagoniza um dos casos mais emblemáticos de machismo e  misoginia  no ambiente político brasileiro. Em dezembro de 2014, durante discurso no plenário da Câmara, quando ainda era deputado federal pelo PP do Rio de Janeiro, ele disse que  não a estupraria “porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria” e completou que não era estuprador, “ mas, se fosse, não iria estuprar, porque não merece.”

Ele rebatia Maria do Rosário (PT) que, em plenário, minutos antes, defendera a Comissão da Verdade e a apuração relativa a crimes cometidos durante a ditadura militar. Bolsonaro também a mandou “catar coquinho”.  Por determinação judicial Jair Bolsonaro reve que pedir desculpas públicas à deputada por meio da conta pessoal dele no Twitter. Ele também foi condenado a pagar R$10 mil como indenização pelas ofensas.

O ataque foi uma reincidência. Em 2003, dessa vez durante uma discussão transmitida pela RedeTV, ele disse que “jamais iria estuprar você, porque você não merece”. A frase, acirrou os ânimos e fez a deputada dizer que daria uma bofetada no agora presidente caso ele tentasse. Bolsonaro passou a empurrá-la, disse que retribuiria a bofetada, chamou a deputada de vagabunda e precisou ser contido por seguranças. Dessa vez, a discussão começou por divergência sobre a maioridade penal.

Comentários transfóbicos e machistas contra a vereadora Duda Salabert

Duda Salabert, a vereadora mais bem votada da história da capital mineira, Belo Horizonte (MG) acumula diversas agressões políticas em sua trajetória. Em 2020, por exemplo, ano de sua posse como vereadora, ela foi ignorada pelo colega de Câmara, Wesley Autoescola (Pros). Na ocasião, Wesley negou que Duda tenha sido a vereadora mais bem votada daquela eleição e citou a Professora Marli (PP) como a que recebeu mais votos. Duda obteve mais que o dobro de votos de Marli.

Nesta semana, em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, o próprio partido de Duda, o PDT, a excluiu de vídeos sobre mulheres na política. Os vídeos contam, inclusive, com a presença do pré-candidato a presidência da República, Ciro Gomes e trazem filiadas à sigla. No entanto, deixam de fora a vereadora com recorde de votos.

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