Reitor diz que críticas a Bolsonaro são pessoais e não representam UFG

Segundo Edward Madureira, texto original foi publicado em grupo de Whatsapp e vazado para outras redes sociais

Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Edward Madureira, reitor da Universidade Federal de Goiás (UFG), disse ao Jornal Opção que texto publicado na última segunda-feira (15/10) com seu posicionamento em relação ao segundo turno da eleição presidencial foi vazado de um grupo de Whatsapp. Segundo ele, o texto é de sua autoria, mas se trata de um posicionamento pessoal e não representa posicionamento da UFG.

“Não posso falar como reitor da universidade, porque a UFG não se posicionou”, reitera. Edward conta que enviou a mensagem a um grupo particular com ex-colegas da universidade e que, não sabe como, acabou vazando.

Ele ressalta, ainda, que o texto é assinado como professor da UFG e não como reitor. “Eu não me sinto confortável, portanto, para falar sobre esse assunto como reitor da universidade”, reforçou.

Na carta, Edward diz que afirma com tranquilidade que Haddad é o melhor nome para defender os interesses coletivos e da Educação brasileira.

Leia abaixo a íntegra do pronunciamento do reitor:

Queridos amigos e amigas.

Como vocês são testemunhas, tenho participado de vários grupos de WhatsApp de forma pouco ativa e me manifestando no grupo apenas para prestar algumas informações e manter contato com tantas pessoas que têm sido muito importantes em minha vida.

Acompanho calado toda a discussão em torno das eleições, especialmente a eleição presidencial, onde vejo o tensionamento se elevando em virtude, principalmente, da paixão que toma conta de todos nós nesses momentos, fato a meu ver absolutamente natural, dado que somos seres humanos e a paixão é inata em nossa espécie.

Vou me manifestar aqui e em outros grupos apenas dessa vez, e isso não significa indisposição para o debate, pois já me coloco à disposição de quem quiser aprofundar na questão para o fazermos no privado, respeitando assim cada um que não deseja participar de discussões dessa natureza, que via de regra são cansativas, inconvenientes e invasivas.

Não tenho também a pretensão de convencer a quem quer que seja, mas de trazer elementos sólidos para uma decisão, ao contrário do material panfletário que invade nossos dispositivos.

Não poderia me calar e ficar tranquilo com minha consciência se não tentasse trazer um pouco de racionalidade para o debate. Farei isso a partir do que já vivi na política e nos governos que participei. Ficar calado diante de tantas inverdades disseminadas a partir da reprodução sem o mínimo questionamento e averiguação, de vídeos, imagens e notícias falsas difamando os projetos e as pessoas me causa profunda indignação.

Nem de longe quero defender que quem praticou corrupção não seja punido, nem justificar erros de quem quer que seja.

Posso falar de um dos candidatos à presidência da república com muito conhecimento de causa, uma vez que trabalhei muito próximo a ele por sete dos oito anos em que fui reitor em meus dois primeiros mandatos, de janeiro 2006 a janeiro de 2014. Nesse período despachava com o ex-ministro Fernando Haddad mensalmente, às vezes semanalmente, no período em que presidi ou que participei da diretoria executiva da ANDIFES (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior).

Afirmo com tranquilidade que conheci poucas pessoas com a determinação, honestidade, ousadia, competência, inteligência, cordialidade, capacidade de argumentação, disposição e firmeza para debater e defender suas opiniões e convicções como é característico de Haddad.

Poderia citar inúmeros exemplos, mas vou me ater a apenas um que pode resumir essas características.

Durante o período em que foi ministro concebeu e implementou juntamente conosco o REUNI (Programa de Restruturação e Expansão das Universidades Federais) que permitiu ao sistema federal mais do que dobrar as vagas em cursos de graduação, e quase triplicar as vagas nos cursos de pós-graduação desse sistema. Para tanto foi necessária a construção de milhões de metros quadrados de salas de aula, laboratórios, auditórios, restaurantes universitários, etc, todas elas construídas com qualidade e sem qualquer dúvida sobre a lisura na aplicação dos recursos.

Em nossa querida UFG foram ampliadas as matrículas nos cursos de graduação de pouco mais de 13.000 para as atuais quase 30.000, tínhamos cerca de 30 programas de pós-graduação stricto sensu com 10 cursos de doutorado, hoje os programas são em número de 100 e os cursos de doutorado são 40 nas mais diversas áreas.

Muitas vezes em contato com vocês, noto a surpresa ao visitarem a universidade e a admiração com a estrutura que vocês encontram aqui, bem diferente do tempo que por aqui passaram. Pois é amigos, dobramos a área construída na UFG, de 200.000 metros quadrados para 400.000 metros quadrados e quase todo a área pré-existente foi reformada quando Haddad era ministro.

Tenho o orgulho de ver na UFG hoje milhares de jovens da periferia, de regiões distantes da capital que anteriormente não poderiam sonhar em estudar em uma universidade pública, gratuita e de qualidade.

Como o texto já está excessivamente longo certamente já deve estar desestimulando-os a continuar a leitura, vou parar de falar dos feitos dele que pude acompanhar. Mas afirmo com absoluta segurança que sem nenhuma dúvida a educação brasileira nunca avançou tanto em tão pouco tempo como no período em que ele foi ministro, seja na educação superior, seja na educação básica, que nem é de responsabilidade do governo federal, sendo atribuição constitucional de estados e municípios, mas que também foi beneficiada com a criação do Fundeb, também em sua gestão.

São falsas as afirmações e peças que atribuem ao MEC sob o comando dele a distribuição do “kit gay” e outras que circulam pelas redes. Ressalto que o que trago nesse longo texto se refere a fatos que vi, participei, ou que ouvi da própria boca dos candidatos ou de seus familiares.

Vocês sabem o quanto valorizo a universidade pública. Não tenho dúvidas de que esse é o maior patrimônio do povo brasileiro, pois além de ser a única forma segura de possibilidade de ascensão social, é também ali que se produz a maior parte do conhecimento que permitirá o desenvolvimento do país.

Para a maioria de vocês, que vieram de famílias humildes, foi a universidade pública, que abriu as portas para conquistarem espaços profissionais e consequentemente ter uma vida melhor, pois ao contrário muitos sequer poderiam ter concluído o ensino superior.

Ao ouvir o filho do outro candidato em um vídeo afirmar taxativamente que as universidades têm que ser entregues a iniciativa privada, vejo a possibilidade de se fazer justiça social aniquilada.

O outro candidato falou e fala em alto e bom som ser a favor da ditadura, acha normal a tortura, externa seu preconceito com mulheres, negros, indígenas, homossexuais, credos e outros, que acha natural fechar o congresso, restringir direitos e tantos mais absurdos que não precisam ser detalhados se relacionados.

Mais uma vez reforço que o que afirmo não é por ouvir dizer, meu relato emana da minha convivência e das falas de um dos candidatos e das falas públicas de outro candidato. Não me utilizo de vídeos, fotos, áudios nem de notícias que não podem ser comprovados.

Me parece que o outro candidato que se apresenta como tão forte, corajoso, afirmativo e diz ter propostas tão boas para o país, não passa mesmo de um covarde que foge dos debates.

Será que é porque está à frente nas pesquisas de intenção de votos ou por medo da inconsistência e fragilidade de seu projeto ancorado em uma carreira absolutamente invisível de deputado e na truculência de suas afirmações?

Dessa forma amigos, penso que o que está em jogo na nossa escolha do próximo dia 28 é a democracia, que com todos os seus defeitos, ainda é a melhor forma de se construir uma sociedade mais justa.

Não escreveria essa mensagem se o adversário do Fernando Haddad fosse qualquer um dos outros candidatos que disputaram o primeiro turno da eleição presidencial, mas diante da eminência da barbárie que já se vê nesse intervalo entre os dois turnos dessa eleição, não vejo outra alternativa.

Tenho certeza de que só a democracia ancorada na educação de qualidade permitirá a inversão das inequívocas injustiças e profundas desigualdades de nossa sociedade.

Voto Haddad e peço o seu apoio para continuarmos aprofundando a democracia no acesso à educação pública, gratuita, de qualidade, laica, socialmente referenciada, democrática, inclusiva, de relevância social e comprometida com o desenvolvimento da nação.

Atenciosamente.

Prof. Edward Madureira Brasil.
Universidade Federal de Goiás.

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