Protestos na França e na Albânia terminam em confronto, e manifestações se espalham pela Europa; vídeo
17 outubro 2026 às 13h52

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Protestos contra o custo de vida, a precariedade dos serviços públicos e denúncias de corrupção levaram milhares de pessoas às ruas da França e da Albânia neste fim de semana. As manifestações foram marcadas por confrontos com a polícia, depredação de prédios e estabelecimentos comerciais e detenções. Mobilizações também foram registradas na Bélgica, em meio a reivindicações de estudantes por melhorias na educação.
Na França, a polícia utilizou gás lacrimogêneo e entrou em confronto com manifestantes em diversas cidades neste sábado, 17. Segundo as autoridades, até o meio-dia foram registrados 140 protestos fora de Paris, com a participação de 32,8 mil pessoas. Na região da capital, cerca de 100 pessoas haviam sido detidas, a maioria por portar equipamentos de proteção proibidos, segundo informações divulgadas pela emissora BFMTV.
Os atos começaram no mês passado, em escolas de ensino médio nos subúrbios pobres ao norte de Paris. Inicialmente voltadas à falta de professores e às condições precárias das instalações escolares, as manifestações ganharam dimensão nacional e passaram a incorporar críticas à desigualdade social, aos gastos públicos e à perda do poder de compra.
O Ministério do Interior francês informou que houve episódios de violência em diferentes cidades, incluindo vandalismo em Marselha e ataques contra policiais, jornalistas e prédios públicos. Na capital, um forte esquema de segurança foi montado em áreas centrais, especialmente nas proximidades da avenida Champs-Élysées e do Arco do Triunfo, que ficaram fora dos trajetos de duas manifestações autorizadas.
Parte dos participantes usava coletes de alta visibilidade, em referência ao movimento dos Coletes Amarelos, que ganhou força em 2018, inicialmente contra os impostos sobre combustíveis e, depois, contra o custo de vida e a desigualdade. A retomada dessa simbologia ocorre em um momento de pressão econômica e instabilidade política para o presidente Emmanuel Macron, que se aproxima do fim do mandato.
Em Paris, a manifestante Lola, de 19 anos, afirmou que a mobilização reúne reivindicações econômicas e educacionais. “Estamos lutando porque o custo de vida está insuportável, porque o preço do combustível está alto demais e porque estudantes do ensino médio estão sendo violentamente atacados e feridos por todo o país, apenas por tentarem protestar e exigir mais professores e condições dignas de ensino”, disse.
A atuação das forças de segurança também está sob escrutínio. O órgão responsável pelo controle da atividade policial investiga pelo menos duas dezenas de denúncias de violência durante manifestações. Entre os episódios que provocaram críticas está o de um adolescente que perdeu uma das mãos após pegar uma granada de efeito moral. O governo francês suspendeu o uso desse tipo de artefato em manifestações estudantis, mas o ministro do Interior, Laurent Nunez, afirmou que os equipamentos poderiam ser utilizados nos atos deste sábado.
O ministro Sébastien Lecornu informou que mais de 900 policiais também ficaram feridos. Em Marselha, a prefeitura foi alvo de vandalismo, e o prefeito anunciou o envio de reforços policiais após conversas com o primeiro-ministro e o ministro do Interior.
A situação econômica amplia a pressão sobre o governo. Os esforços para reduzir a dívida pública não foram suficientes para tranquilizar os investidores, e os custos de endividamento da França chegaram aos níveis mais altos das últimas duas décadas. Convocações nas redes sociais para que participantes de movimentos anteriores voltassem às ruas também contribuíram para ampliar a mobilização.
Albânia tem quarto dia de protestos
Na Albânia, milhares de jovens foram às ruas de Tirana, capital do país, na sexta-feira, 16, para exigir a renúncia do primeiro-ministro Edi Rama. A mobilização, liderada por estudantes, chegou ao quarto dia consecutivo e se intensificou após meses de manifestações predominantemente pacíficas, que, segundo os participantes, não foram ouvidas pelo governo.
Os atos foram marcados por depredações, confrontos com a polícia e ataques a estabelecimentos comerciais. Na quinta-feira, 15, manifestantes quebraram janelas, invadiram um banco e entraram em confronto com agentes de segurança. Em outras cidades, como Lezha, Elbasan, Shkodra e Korça, também foram registrados episódios de violência, incluindo incêndios de lixeiras e lançamento de pedras contra policiais.
Os estudantes denunciam corrupção, negligência com a educação e falta de perspectivas para os jovens. A mobilização também é motivada pela proposta de construção de um resort de luxo em uma área litorânea preservada, empreendimento apoiado por Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O projeto é alvo de questionamentos judiciais. Moradores afirmaram à Reuters, em julho, que suas terras haviam sido vendidas indevidamente para viabilizar o empreendimento. Posteriormente, a agência noticiou que o homem responsável pela venda era procurado por promotores sob acusação de tráfico de drogas. O advogado dele negou as acusações. A Reuters informou não ter encontrado evidências de irregularidades cometidas por Kushner, que não está diretamente envolvido na disputa dos moradores.
Aos 19 anos, a estudante Enea, que não revelou o sobrenome por medo de ser presa, pediu a saída do primeiro-ministro. “Estão nos levando ao limite”, afirmou. Em seguida, dirigiu uma mensagem a Rama: “Renuncie o mais rápido possível, antes que tudo pegue fogo”.
Outra manifestante, Klea, também de 19 anos, disse que os estudantes decidiram intensificar os atos após não obterem respostas do governo. “Protestamos pacificamente por 140 dias, e ninguém nos ouviu. Esta é nossa única chance de sermos ouvidos e conquistarmos os direitos que merecemos”, disse.
Rama, que conquistou um quarto mandato no ano passado com a promessa de conduzir a Albânia à União Europeia, pretende avançar com a adesão do país ao bloco até 2028. Em publicação nas redes sociais, o primeiro-ministro afirmou que o governo não cederá à violência: “Não nos curvaremos à violência”.
Para o analista político Afrim Krasniqi, a insatisfação dos jovens está relacionada à concentração de recursos e oportunidades. “Elas veem que todos os recursos do país, políticos, econômicos, tudo, estão nas mãos dos oligarcas”, afirmou à Reuters, ao comentar a percepção das novas gerações sobre o futuro do país.
Escândalos de corrupção e a atuação de grupos criminosos também são apontados como obstáculos ao processo de adesão da Albânia à União Europeia. Ao lado de Montenegro, o país está entre os candidatos dos Bálcãs que mais avançaram nas negociações para integrar o bloco.
Estudantes também protestam na Bélgica
Em Bruxelas, na Bélgica, estudantes foram às ruas para protestar contra a situação do sistema educacional. Cartazes criticavam o cenário político e defendiam o futuro das novas gerações. Um deles trazia uma referência ao filme Porco Rosso, do Studio Ghibli, com a frase “melhor um porco do que um fascista”. Outro dizia: “Desculpe pelo transtorno, estamos tentando salvar o nosso futuro”.
Houve confrontos entre policiais e manifestantes, e um carro chegou a ser virado durante os atos. Na Albânia, imagens registraram lixeiras incendiadas, manifestantes mascarados e o lançamento de um coquetel molotov contra policiais, que responderam com canhões de água.
As mobilizações ocorrem em meio a uma onda de protestos estudantis e antigovernamentais que atravessa diferentes países. Embora as reivindicações variem de acordo com a realidade de cada lugar, as manifestações têm em comum críticas à qualidade dos serviços públicos, à desigualdade e à falta de respostas dos governos às demandas da população.
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