Professora da UFJ integra consórcio internacional que mapeia comportamento humano durante a pandemia

Lições aprendidas com o surto atual serão importantes para lidar com possíveis episódios recorrentes e nos prepararão melhor para futuras pandemias, aponta consórcio de 20 países

Pela primeira vez em escala global, as pessoas se deparam com restrições de viagem, fechamento de escola e tantas outras limitações. Como essas medidas nunca haviam sido implementadas antes nessa escala, não está claro até que ponto as pessoas vão aderir a elas, quais fatores determinam a adesão, qual é a durabilidade da adesão e qual a eficácia da intervenção combinada e seus componentes na redução da transmissão do novo coronavírus (SARS-CoV-2).

Dentro deste cenário, a bióloga e PhD em Epidemiologia e Saúde Pública pela USP, professora Edlaine Faria de Moura Villela, da Universidade Federal de Jataí (UFJ), é a responsável pela coordenação do Estudo populacional ICPCovid no Brasil. O estudo é organizado por um consórcio internacional de cientistas da Ásia, África, América do Sul, Estados Unidos e Europa.

O protocolo e o questionário da pesquisa se baseiam amplamente na pesquisa sobre ciência cidadã Corona, lançada pela primeira vez na Bélgica pela Universidade de Antuérpia (equipe: Philippe Beutels, Niel Hens, Koen Pepermans e Pierre Van Damme) em 17 de março de 2020, repetida toda terça-feira durante a epidemia Covid-19 na Bélgica. “O International Citizen Project Covid-19 (ICPCovid) é liderado pelo Prof. Dr. Robert Colebunders, da Universidade de Antuérpia, na Bélgica”, explica Edlaine.

Os objetivos da iniciativa que envolve diversos países são: descrever o nível de aderência às medidas atuais recomendadas pelos governos e durante os primeiros 6 meses após a implementação; descrever os determinantes da adesão às medidas recomendadas; avaliar a eficácia geral da adesão; e identificar a medida mais eficaz (ou combinação de medidas) para reduzir a incidência da Covid-19.

Segundo o projeto, compreender a viabilidade da adesão e a durabilidade das medidas de saúde pública será essencial para as autoridades de saúde pública na escolha da estratégia mais eficaz para reduzir a transmissão, reduzir a carga de Covid-19 no sistema de saúde e “achatar a curva” até uma vacina ou o tratamento é licenciado.

Se as atuais medidas de contenção para o surto forem bem-sucedidas, a imunidade do rebanho não será alcançada

Além disso, os estudiosos alertam que se as atuais medidas de contenção para o surto forem bem-sucedidas, a imunidade do rebanho não será alcançada. Portanto, as lições aprendidas com o surto atual serão importantes para lidar com possíveis episódios recorrentes e nos prepararão melhor para futuras pandemias. Por isso, ao realizar o estudo em diferentes países, as estratégias mais eficazes serão identificadas.

O estudo também analisa o impacto global da pandemia no cotidiano de pessoas que vivem com o vírus HIV ou doenças que apresentam fatores de risco para a Covid-19. O estudo pretende avaliar, por exemplo, se essas pessoas estão enfrentando dificuldades para ter acesso aos medicamentos necessários. As respostas são obtidas por meio de formulários específicos para cada grupo, que estão disponíveis no site do ICPCovid.

Para Edlaine, a troca de experiências com pesquisadores internacionais descortina ainda mais as desigualdades sociais presentes em nosso país. Ela pontua que em alguns lugares as pessoas sequer conseguem fazer a higienização das mãos porque não tem água. “É uma oportunidade da abrirmos os olhos para muitas doenças que já vem acontecendo há muito tempo e que ninguém dá a devida atenção”, alerta a epidemiologista.

Resultados preliminares da fase 4

A professora explica que até o momento foi registrada a participação de pessoas de todos os estados brasileiros. “Observamos que estados com menos participantes na primeira fase marcaram presença na segunda fase e na terceira fase, como é o caso do estado de Goiás”, afirma. “Do total de participantes, apenas 143 foram testados para a Covid-19 e 12,6% deram positivo. Dos casos confirmados, apenas 19,8% foram colocados em quarentena”, relatou a professora à Fapeg.

O estudo tem mostrado que o isolamento tem sido respeitado pela maioria, pois mais de 50% passaram a trabalhar em casa diante da pandemia, o que pode ter contribuído para atrasar o pico da pandemia no Brasil. 10% relataram que mudaram de residência por conta da pandemia. 57% relatam não ter tido nenhum contato com pessoas fora de casa há mais de uma semana.

A professora ressalta que, “em relação às medidas preventivas individuais, a que mais chama atenção diante de uma comparação entre as fases do estudo é o uso da máscara facial: no início de abril, 45,5% não utilizavam, no final de abril 10% e após a primeira quinzena de maio, apenas 3% afirmaram não utilizar”.

“Um resultado que chamou nossa atenção é que pessoas 26% consideram que sua saúde mental tem sido afetada negativamente. Nesse contexto, 32% já apresentavam comorbidades antes da pandemia começar e 11% dos participantes foram diagnosticados com uma comorbidade no mês de maio. As principais enfermidades relatadas foram hipertensão, diabetes e asma. As pessoas apresentaram maior preocupação com a própria saúde no final do mês de abril, no entanto observamos uma queda na terceira fase, que ocorreu entre 15 e 20 de maio”, destacou a coordenadora do estudo.

Edlaine explica que, posteriormente, o grupo internacional fará um comparativo com os dados dos países participantes do consórcio. Além de servir de orientação para as políticas públicas, o estudo pode auxiliar a lidar com possíveis episódios recorrentes e na preparação de futuras pandemias. O estudo, ao ser realizado em diferentes países, vai possibilitar a identificação de estratégias mais eficazes ao fazer uma comparação dos dados locais obtidos nos questionários.

Pesquisa está na fase 5

O questionário é distribuído usando um site seguro de estudo www.icpcovid.com, principalmente enviando respostas usando telefones celulares. Por meio de pesquisas, são coletados dados que serão utilizadas para entender a viabilidade e a eficácia da implementação de medidas preventivas para o coronavírus níveis individual e nacional.

Os indicadores de baixa adesão geral ou em grupos populacionais específicos serão comunicados às autoridades de saúde nos dias após a distribuição do questionário, para que intervenções direcionadas possam ser desenvolvidas e implementadas. Para responder o questionário acesse aqui.

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