Preconceito e desinformação sobre doação de órgãos ainda prejudicam transplantes no Brasil

Durante a campanha Setembro Verde, profissionais de saúde buscam conscientizar a população, e especialmente as famílias de possíveis doadores compatíveis, sobre a importância da ação, que salva vidas

***Por Mirelle Irene e Fernanda Santos

NO Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) é responsável por 95% dos procedimentos
Foto: reprodução/Cláudio Capucho

O Setembro Verde é uma campanha que lembra a população da importância da doação de órgãos para salvar vidas. Com a pandemia, esse tipo de procedimento médico reduziu, tanto pela diminuição do número de doadores, quanto pela necessidade de se postergar as cirurgias eletivas para evitar riscos de contaminação pela Covid-19 e priorizar os pacientes mais urgentes.

Para a realização do transplante, é preciso que doador e receptor tenham compatibilidade. Ou seja, para que aquele que precisa do órgão o receba, de fato, é necessário que a lista dos doadores seja bastante ampla, no intuito de aumentar as possibilidades de se encontrar o órgão com menor propensão à rejeição pelo organismo do paciente.

O Brasil é o segundo maior país transplantador do mundo

O Brasil é o segundo maior país transplantador do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, sendo que o Sistema Único de Saúde (SUS) é responsável por 95% desses procedimentos. Pacientes receptores, além de passarem pela cirurgia, também terão de tomar medicamentos imunossupressores pelo resto de suas vidas. Todo esse tratamento vitalício também é bancado pelo SUS.

No entanto, a desinformação entre a população ainda é a maior causa de morte por pessoas em filas de transplantes. No caso de órgãos sólidos, porque o doador tem que se declarar ainda em vida para que a doação seja autorizada por seus familiares após sua morte.

A desinformação sobre os procedimentos e o preconceito fazem com que muitas famílias enlutadas se neguem a doar órgãos de seus entes queridos, sujeitando aqueles que lutam pela vida (tendo em vista que estes pacientes estão nos estágios mais agravados de suas doenças) a mais sofrimento e espera.

Em Goiás

De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde (SES-GO), em Goiás existe cinco centros transplantadores de rins. São eles: o Hospital Estadual Geral de Goiânia Dr. Alberto Rassi (HGG), unidade do Governo de Goiás; a Santa Casa de Misericórdia de Goiânia; o Hospital Urológico; o Hospital Santa Helena; e o Hospital Renassense. O HGG também tem habilitação para transplante de fígado e outras 23 equipes estão habilitadas para realização de transplantes de córneas.

Entre janeiro e junho de 2019, Goiás conseguiu realizar 93 transplantes de rins e fígado e 378 de córneas. Com a pandemia, 2020 reduziu os procedimentos para 104 transplantes de rins e fígado e 131 transplantes de córnea durante o primeiro semestre.

Além dos transplantes de órgãos sólidos, também é realizado o transplante de medula óssea, diferenciado por ser retirado de um doador vivo. O Transplante de Medula Óssea (TMO) ocorre na Divisão de Transplante de Medula Óssea (DTM) do Hospital Araújo Jorge (HAJ). A unidade, mantida pela entidade filantrópica Associação de Combate ao Câncer em Goiás (ACCG), é a única que realiza o procedimento pelo SUS no estado. No local, são realizados transplantes do tipo alogênico, onde são utilizadas células de outros indivíduos, e autólogo, com células do próprio paciente.

Em 2019, foram realizados 47 transplantes, sendo 29 pelo Sistema Único de Saúde (SUS), 13 por convênio e cinco particulares. Entre janeiro e junho de 2020, o DTM realizou 17 transplantes de medula, sendo 11 pelo SUS e seis por convênio.

“É um trabalho frequente que a gente faz com palestras, informações, aulas e capacitações.”

Katiuscia Christiane Freitas, gerente de Transplantes da Secretaria Estadual de Saúde, relata que o setembro verde é importante para a conscientização, mas que ações são realizadas durante todo ano para tentar informar a população.

“É um trabalho frequente que a gente faz com palestras, informações, aulas e capacitações. Porém, o mês de setembro é um mês pra dar destaque essas ações, onde a gente volta a atenção da sociedade pra essa questão da doação de órgão, da importância da população ser informada, conscientizada e incentivar as pessoas principalmente a se tornarem doadores”, afirma.

“O lema da nossa campanha é sempre “manifeste os o desejo de ser doador”, porque ainda existe muita desinformação. As pessoas acham que tem que escrever na carteira de identidade devido a uma lei de 1997, mas isso não existe mais. Hoje, apenas a família é que autoriza a doação de órgãos e essa decisão tem que ser tomada num momento muito difícil. Quando isso é manifestado em vida, facilita pras pessoas”, disse.

“A recusa familiar no Brasil é, hoje, de 40%. Em Goiás, ela é de 57%. A gente já conseguiu uma redução do ano passado pra cá, que já chegou a ser um número muito maior, mas a gente acredita nas campanhas de divulgação da imprensa e da própria Secretaria Estadual de Saúde, que contribui pra que as pessoas mudem de ideia e repensem sobre a questão de ser doador”, apontou Katiuscia.

Pandemia

De acordo com Katiuscia, a queda no Brasil dos transplantes foi de 26% no segundo trimestre. Goiás teve uma redução de 15% no primeiro semestre de 2020, impactado pela pandemia. “Mas em julho e agosto conseguimos manter a média que a gente tinha. Estamos retomando os transplantes. Aumentaram os transplantes renais. Então, fechamos o primeiro semestre no Registro Brasileiro de Transplantes como o quinto maior estado que realiza transplantes a cada 1 milhão de habitantes”.

Ela conta que mais de 90% desses transplantes ocorreram no HGG, pelo SUS. “O transplante de córneas foi o mais impactado, porque ele realmente foi suspenso devido à pandemia. Então, houve uma redução de 105% nos transplantes de córneas e está sendo avaliado pelo Ministério da Saúde para quando será a retomada dessa modalidade”, falou.

Transplantes

Leandro Cancellara de Oliveira Bariani, médico assistente da equipe de hematologia e transplante de medula óssea confirma que a falta de informação é o principal motivo que limita a lista de doadores. “No caso do transplante de medula óssea, as pessoas têm dificuldade de entender como é feita a doação. Elas têm medo de não ter medula óssea ao ser doada, ficar sem e ter prejuízo à saúde. Isso não é verdade. O transplante de medula óssea, ao contrário dos outros órgãos sólidos, o doador está vivo e não tem prejuízo depois”, afirma.

“Vamos coletar as células tronco que vão fabricar sangue. O doador terá restituição dessas células tronco e terá uma vida normal. Muita gente também confunde medula óssea com medula espinhal e acha que terá de passar por cirurgia. Não é isso”, informou o médico.

“A medula óssea possui células tronco, que se diferenciam em células do sangue, que dá origem a três linhagens de célula secretadas: as células vermelhas, células brancas (de defesa) e as plaquetas. A gente chama de fábrica do sangue. As células tronco ficam situadas dentro dos ossos, especialmente ossos maiores, como da bacia, do fêmur… Há doenças em que a medula fica doente e é necessário substituir essa medula óssea por meio de transplante”, conta.

Uma Divisão de Transplante de Medula Óssea (DTM) funciona no Hospital Araújo Jorge, gerido pela ACCG Foto: reprodução

De acordo com ele, há dois tipos de doenças que acometem as células tronco: as benignas e as malignas. “O nosso foco no Araújo Jorge são as malignas. Temos as leucemias, o linfoma, meloma multiplo, mielofribrose…”, exemplificou.

Ele explica que as doações são reservadas apenas a pacientes que não respondem bem ao tratamento quimioterápico. “Nem toda leucemia precisa de transplante. O transplante é uma terapia de salvamento aos pacientes que têm uma resposta ruim à terapia convencional. Uma arma mais potente que temos aos pacientes mal respondedores à terapia tradicional”, explica.

“Quando indicamos o transplante, temos de buscar um doador para ele. Geralmente buscamos dentro da família, onde temos maior chance de encontrar um doador compatível com o paciente. Um irmão ou irmã de mesmo pai e mesma mãe. Deve haver compatibilidade. Não basta apenas a vontade de ser um doador daquele paciente. Deve haver compatibilidade genética”, conta.

A captação dos doadores é realizada no Hemocentro. Portanto, quem deseja ser doador de medula óssea espontaneamente deve procurar o local, onde será realizada uma triagem e coletados exames para saber o doador pode realizar o procedimento. Caso dê tudo certo, a doação entra para o Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome).

“Quando não temos doadores da família e temos de buscar fora, entramos em contato com o Redome para cruzar dados do nosso paciente com um banco de dados que tem que ser grande para conseguir encontrar um doador fora da família”, disse Leandro.

A coleta da medula óssea é realizada de duas formas. Em uma delas, se estimula a célula tronco do doador a ir para a corrente sanguínea e se recolhe o materia como em uma doação de sangue, por meio do braço. A outra maneira é coletar diretamente de dentro do osso. A pessoa é levada ao centro cirúrgico e é feita uma punção na parte posterior da bacia com uma agulha e aspiramos o sangue da medula, que é rica em célula tronco.

O procedimento cirúrgico requer internação de 24 horas do doador, mas é utilizada anestesia e o risco é muito baixo. De acordo com o hematologista, entre sete e dez dias a pessoa é liberada para retornar às suas atividades normais.

“A nossa fila de transplante é constante. Temos uma demanda muito grande por sermos o único centro transplantador de Goiás. Também recebemos pacientes de outros locais que não possuem o centro de transplante, por exemplo, Tocantins, Maranhão, Pará, Acre…”, contou Leandro.

Morte encefálica

Durval Pedroso, que é Diretor-técnico do Hospital Estadual Alberto Rassi (HGG), também assinala a importância de momentos de maior divulgação de informações sobre problemas importantes de saúde, como o Setembro Verde, por traduzir relevância para a população e por despertar a conscientização.

“Não se faz transplante sem doação, ela é o marco inicial de tudo. As pessoas devem entender que o processo de diagnóstico de morte encefálica, de entendimento que o fim da vida está relacionado ao processo de more do cérebro e que um coração batendo, um rim funcionando, um suporte do ventilador para os pulmões, oxigenando, é momentâneo e temporário”, assinala, sobre um momento que define como “vida artificial”. E acrescenta:  “O mais importante é que se consiga, o mais rápido possível identificar doadores para proceder tanto ao diagnóstico de morte encefálica quanto ao processo em si de doação”, disse.

No HGG, são realizados transplantes renais e hepáticos Foto: reprodução

“A desinformação é basicamente o risco que as pessoas acham, de que o processo de diagnóstico de morte encefálica pode não ser seguro. E ele é seguro. Ele é realizado basicamente por dois profissionais. Um deles, obrigatoriamente, deve ser capacitado no processo de diagnóstico, um deve ser especialista de área, ou em neurocirurgia, ou neurologia, ou em medicina intensiva”, explica, informando que após estes exames, ainda há outros, complementares, realizados para confirmar o diagnóstico, como o eletroencefalograma, o doppler transcraniano ou a arteriografia.

“Então, se paira uma dúvida  sobre um exame desses, outro pode ser realizado para confirmar o diagnóstico”, assegura.  “A maior informação que a gente pode levar a população é a segurança do processo “, afirma. “O diagnóstico de morte encefálica é um diagnóstico médico-legal”, afirma,  sobre a obrigatoriamente, de se observar um roteiro imposto e normatizado pelos órgãos de controle

“A doação é o maior gesto de altruísmo que o ser humano pode ter pelo outro”

“A doação é o maior gesto de altruísmo que o ser humano pode ter pelo outro. O momento de dor, de sofrimento, de uma família, pode se tornar o momento de paz de uma pessoa que às vezes está há anos aguardando a possibilidade de receber um órgão, que, infelizmente, naquela pessoa que faleceu, não mais fará diferença. Seria até uma forma de perpetuar a vida destas pessoas”, assinala o Diretor-técnico. No HGG, foram realizados 460 transplantes renais, de março 2017 a agosto 2020, e 16 transplantes hepáticos,  de julho a  agosto de 2020.

Curva de crescimento

Katiulcia Carvalho Oliveira, enfermeira e gestora da Enfermagem do Hospital Santa Mônica e plantonista da Central de Transplantes diz que, apesar de ter crescido muito o número de doadores de órgãos em Goiás, ainda há muita recusa. “Há falta de conhecimento quanto aos protocolos que existem, os exames que são feitos, ao diagnóstico de morte encefálica e o desconhecimento de toda a situação”, disse Katiulcia ao Jornal Opção.

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