Prática de corrida infantil: diverte e faz bem

Eventos dedicados ao público infanto-juvenil estimulam pais e familiares a inscrever atletas mirins nas provas em busca de melhor qualidade de vida

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Espírito de equipe, busca por uma vida saudável, maior convivência com outras pessoas, e a exploração dos diversos espaços da cidade. São esses pontos em comum de pais e familiares que estimulam crianças a praticar o atletismo e a corrida em Goiânia. O panorama ficou evidente na manhã deste sábado (29/11), na Rua T-51, em frente ao Tribunal Regional do Trabalho em Goiás (TRT-GO), no Setor Oeste, durante corrida promovida para conscientizar a sociedade contra o trabalho infantil.

Foram 320 crianças inscritas na primeira edição da Corridinha, realizada pelo órgão, direcionada a crianças de zero a 13 anos. Dentre elas, três vieram de Inhumas, a 49 quilômetros da capital. Os irmãos Davi de Queiroz Assunção Fernandes, de 2 anos, Daniel, 6, e Maria Luiza Guimarães, 9, gastaram quase uma hora de viagem para chegar ao evento com os avós Clélia, 63, e Urias Fernandes Pereira, 61.

A vontade de ver as crianças correndo começou com um sonho do casal, há dez anos, resultado da equação saúde e união. Urias vê no esporte a oportunidade de ter qualidade de vida e de saúde melhores dos progênitos. “Por tudo isso, queremos encucar neles um estilo de vida diferente, saudável e sem drogas. É bom para a mente e o corpo”, disse o comerciante aposentado, em entrevista ao Jornal Opção Online.

Antes, Urias ia apenas para acompanhar Clélia, carregar a bolsa e fotografar a esposa. Com o tempo, a senhora estimulou seu companheiro a iniciar a corrida, o que ocorreu há oito anos. E foi com uma vontade de Clélia que a prática na família começou, quando ela decidiu participar da mais tradicional maratona internacional no País: a de São Silvestre, realizada há 90 anos em São Paulo, em 31 de dezembro. “Agora temos sonhos que nos movem. Já fomos correr em Paris e no ano que vem vamos correr na maratona da muralha da China. E só vamos parar quando Deus quiser, enquanto estivermos com saúde vamos continuar”, relatou a avó.

A tradição é familiar. Clélia corre há uma década e já participou de 68 corridas e oito maratonas na Argentina, França, Itália, Peru e Portugal. E claro, no Brasil, ganhando mais de 20 troféus. Quem entra na casa da corredora vê o quadro de medalhas e questiona porque, onde e como ela conseguiu as conquistas. “Estamos incentivando eles a fazer isso”, destacou. Com a placa de número 244 e tênis que proporciona pisada macia, a neta Maria Luiza conta que corre pela quinta vez em maratonas infanto-juvenis. Apesar da idade, gosta de competir para movimentar o corpo e superar os próprios limites. “É bom sentir isso”, comentou, com a respiração ofegante.

Davi, o caçula, preferiu não correr ao ver que iria ser acompanhado pelo Homem Aranha. Preferiu o colo do avô. “Sentiu medo. Mas tem energia, pois antes de voltar para Inhumas vamos ao Parque Mutirama”, falou Urias, com sorriso largo.

Batman, Mulher Gato, Super Homem, Mulher Maravilha e o senhor e a senhora Incríveis estavam na cena (veja vídeos abaixo). E nada como ver as crianças se gabando ao ganhar, por diversas vezes, dos super-heróis. Para estimular a criançada, Ilariê, da Xuxa, e Barbie Girl, de Aqua, sucessos na década de 1990. Em nenhuma das categorias da Corridinha houve pódio, mas todos ganhavam medalhas, um kit com frutas, guloseimas, suco e água.

 | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Santiago e o afilhado, David Luiz | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Coordenador de Esportes do Goiás Esporte Clube, Santiago Santana Reis foi levar o afilhado, Davi Luiz Sales, 2, para sua segunda competição. E foi na categoria fraldinha, de zero a três anos, que ele competiu. A experiência inicial foi há cerca de um mês, na Opus Kids. O ânimo para correr também vem de casa: a mãe e a tia do corredor mirim são atletas.

“Vamos participar da corridinha”, comemorava Davi com o padrinho, dias atrás, demonstrando ansiedade. “Desde quando nasceu, a família tinha a intenção de que ele praticasse atividades físicas, como o basquete e o futebol”, ressaltou o coordenador esmeraldino. Na idade do apadrinhado, analisou Santiago, a convivência com outras crianças aumenta os laços afetivos e mostra que Davi é importante no seio familiar.

Cejane, com os filhos Levi (no colo) e Josias

Cejane, com os filhos Levi (no colo) e Josias

Interação

O tempo colaborou com a criançada: nem sol, nem chuva, apenas uma luz opaca transpassava as nuvens da capital. Ponto positivo para Levi e Josias Vilar Camelo, de 3 e 6 anos, respectivamente. Os corredores de primeira viagem são filhos de Cejane. A administradora relatou que inscreveu porque a dupla poderia colocar em prática a convivência com outros menores .”O trabalho em equipe e a interação são importantes. Precisamos ensinar o ganhar e perder, superar limites, até mesmo em casa. Sempre digo que coisas ruins e boas não vão durar para sempre”, detalhou.

O mais novo, é tímido, e Josias, de placa de número 180, tem corpo pequeno para tamanha energia. Tanto é que retirou ontem os quatro pontos costurados no queixo, adquiridos após queda na escola. O que estava fazendo? “Correndo! Corro até suar”, disse, empolgado, mostrando a cicatriz. A força e disposição vêm do fruto preferido: a laranja. Não gosta de nenhuma verdura, só de frutas.

Já com sol sob a cabeça, a administradora Gleicy Bicalho Cury estava acompanhada do esposo, Weber Bicalho, e os pupilos Breno, 6, e Lucas, de 3. Listando que essa foi a segunda corrida que os filhos disputam, a profissional sublinhou que, para esta prova, não houve preparação especial. “Mas é preciso tomar um café da manhã reforçado”, sugeriu.

Cuidados

Para o ortopedista Carlos Antonio de Melo Junior, os pais precisam se atentar antes de colocar os filhos para correr. A dica é saber se os pequenos têm algum problema estrutural ou doença de base — aquela que aparece primeiro em uma série de patologias e origina uma síndrome.

Outra consideração é estabelecer uma distância de corrida que seja compatível com o atleta mirim. “A atividade ajuda no desempenho escolar, no crescimento e ajuda a ter um sono melhor. Mas se tornar uma coisa que exija muito, todo o processo terá efeito contrário”, alertou.

Carlos Junior ressalta que não é bom inciar atividades esportivas precocemente, mas começar aos poucos. “A vantagem da criança é maior. Do mesmo jeito que absorve mais energia, ela tem mais lesão muscular”, aconselha. O ortopedista diz também que o ideal é ir ao pediatra examinar se a criançada tem problema hormonal ou cardíaco. Por isso, indica a natação, pois ajuda no desenvolvimento do aparelho respiratório.

Conforme observou, os alvéolos pulmonares da criança (estrutura de pequenas dimensões localizadas no final dos bronquíolos) não estão maturados o suficiente quando se nasce. “Só fica maturado a partir dos seis anos.”

Social

Dados das Estimativas e Tendências Mundiais, estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mostram que a meta de eliminar o trabalho infantil até 2016 não será alcançada. No mundo, são 168 milhões de menores de 5 a 17 anos em situação de exploração. Àquelas que estão no chamado trabalho infantil perigoso somaram 85 milhões. No Brasil, conforme estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são mais de 3,5 milhões de menores nestas condições. Em Goiás, o total chega a 123 mil.

À reportagem, a presidente do TRT-GO da 18ª Região, a desembargadora Elza Cândida da Silveira, indicou que o foco da primeira edição da Corridinha Kids é mostrar à sociedade que lugar de criança é na escola e no esporte, e não no mercado de trabalho. “É uma competição saudável, melhora o desempenho escolar. Diferente daquela correria rotineira, em busca de dinheiro”, contextualizou.

Renato Araújo Isaac, chefe da Divisão de Eventos da Secretaria de Turismo, Esporte e Lazer da Prefeitura de Goiânia acompanhou as baterias de perto. Segundo ele, a intenção é incentivar crianças e adolescentes a praticar diferentes tipos de esporte. “Nosso papel é o de manter as atividades e ampliar de forma gradativa para que não se tornem adultos sedentários. Esse é o objetivo, sem contar a diversão”, pontuou.

Veja vídeos da Corridinha:

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