Pra que serve o Prêmio Nobel nos dias de hoje?

Como a premiação de Economia deste ano mostra a importância de um evento anual para reunir grandes acontecimentos em diversas áreas da humanidade

David Card, Joshua Angrist e Guido Imbens: vencedores do Prêmio Nobel de Economia | Foto: Reprodução

Como foi que o inventor da dinamite e de vários outros explosivos que provocaram milhões de mortes e tanta destruição se tornou, depois, o nome do maior prêmio anual do mundo para áreas das mais importantes para a ciência, além de laurear quem mais procurou a paz?

É que o milionário sueco Alfred Nobel se surpreendeu ao ler o próprio obituário em um jornal francês. O ano era 1888 e a manchete da notícia fúnebre era: “O mercador da morte morreu”. A crítica era ácida, mas errava o alvo. Quem havia partido era Ludvig, irmão de Alfred. Mas o texto serviu para despertá-lo a dar um destino mais nobre a sua fortuna, de modo a “limpar seu nome” nos livros de história.

Quando de fato morreu, em dezembro de 1896, na Itália, Alfred Nobel havia deixado, em testamento, sua fortuna para ser usada na criação de uma série de prêmios àqueles que realizassem o melhor para a humanidade nas áreas de física, química, fisiologia/medicina, literatura e… paz. O “mercador da morte” estava redimido.

A partir de 1895, o Prêmio Nobel começou a ser concedido anualmente para as cinco categorias. Somente em 1968 surgiu o chamado Nobel de Economia. Foi quando o Sveriges Riksbank, banco central da Suécia, ao completar 300 anos doou grande quantia à Fundação Nobel para a criação de um prêmio em homenagem a Alfred: era o Prêmio de Ciências Econômicas, que hoje é chamado de Nobel de Economia, embora não seja exatamente um Nobel legítimo”.

Neste ano, essa premiação foi concedida a um canadense e dois estadunidenses – respectivamente David Card, Joshua Angrist e Guido Imbens – que fizeram trabalhos sobre mercado de trabalho e incluíram inovações na metodologia das relações causais, feitas a partir de experimentos naturais (a partir de situações da vida real). Todos atuam nos Estados Unidos: Card é da Universidade da Califórnia, Berkeley; Angrist pesquina no Massachusetts Institute of Technology (MIT); e Imbens, nascido na Holanda, é pesquisador da Universidade de Stanford.

Foi a partir desses princípios metodológicos que eles descobriram que o aumento do salário mínimo não causa impacto na oferta de vagas de trabalho. Em outras palavras, melhor remuneração ao trabalhador não gera desemprego. Mais outra descoberta do trio em suas pesquisas? A imigração não causa achatamento de salários.

Para além das importantíssimas conclusões de seus estudos, os três pesquisadores que conquistaram o Nobel mostraram que experimentos naturais ajudam a resolver importantes questões para a sociedade. E ainda mais: mudanças em políticas públicas acabam se tornando campo laboratorial para pesquisas de modo semelhante ao que estudos clínicos fazem para verificar a eficiência de medicamentos.

Outra contribuição do trio para as ciências econômicas? Concluir que os recursos nas escolas são muito mais importantes para o sucesso futuro dos alunos no mercado do que se pensava anteriormente.

Assim, o Nobel de Economia – o “menos Nobel” de todos os prêmios Nobel – deste ano mostrou que uma pesquisa pode melhorar em alto grau a capacidade de responder questões causais em diversas , o que foi de grande benefício para a sociedade ”, disse Peter Fredriksson, presidente do Comitê do Prêmio de Ciências Econômicas.

Por fim, respondendo à pergunta do título: o Prêmio Nobel serve para mostrar que o homem que é capaz de criar a dinamite para destruir é também o mesmo que pode, pelos caminhos da ciência, fazer ressurgir a esperança por meio da ciência. Mais cedo ou mais tarde, a dinamite seria criada. Já o Nobel, não. Alfred pode descansar em paz.

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