Portal G1 chama estupro de criança de 11 anos de “encontro amoroso” e causa polêmica

Site editou notícia sem nenhuma retratação, mas link original, que chamava caso de “sexo entre menina e padastro” permanece inalterado

Além da manchete, notícia em si tenta amenizar o crime | Foto: Reprodução Facebook

Além da manchete, notícia também ameniza e tenta justificar o crime | Foto: Reprodução Facebook

Embora qualquer relação sexual com menores de 14 anos seja considerada estupro pelo Código Penal, o portal do G1 do Mato Grosso do Sul divulgou uma notícia em que o crime foi amenizado e tratado como “encontros amorosos”. A matéria causou grande revolta entre os internautas e foi editada dois dias depois sem que o site postasse nenhuma retratação ou explicação.

Agora, a notícia tem como título “Estupro de menina pelo padrasto ocorria com mãe em casa, diz polícia”, mas, anteriormente trazia a seguinte chamada: “Sexo entre menina e padastro ocorria com mãe em casa, diz polícia em MS”. A matéria está com os comentários desativados e foi atualizada, mas o link do site ainda permanece com o título original, como pode ser visto abaixo. No Google Notícias, a manchete original também segue sendo exibida.

Apesar da tentativa de abafar a repercussão negativa, a matéria segue sugerindo que o que havia não era um caso de estupro de vulnerável. No penúltimo parágrafo, ela diz que a mãe da criança não sabia do “relacionamento”, como se houvesse envolvimento emocional entre os dois: “O homem e a menina disseram que a mulher não sabia do relacionamento dos dois”.

De acordo com prints postados por internautas no Twitter, além do título chamar o estupro de “sexo”, dando sentido de relação consentida, a matéria já começava chamando o crime de “encontros amorosos”. “Os encontros amorosos entre a criança de 11 anos e o padrasto de 40 anos aconteciam no quarto da menina”, dizia a notícia.

Não foi possível acessar o texto original, mas vários usuários já postaram a matéria nas redes sociais. Na verdade, quem primeiro denunciou a postagem foi a juíza fluminense Andréa Pachá, em sua página do Facebook: “Transformar o estupro de uma criança em encontros amorosos consentidos dá a dimensão do abismo em que estamos mergulhados. Violência no ato, violência no uso perverso das palavras, violência na tentativa de naturalizar o horror”.

Depois de a matéria ter sido editada, ela atualizou seu post comemorando a mudança: “Esse é um dos ganhos que a indignação em rede nos traz”. O ex-Ministro da Educação, Renato Janine, reforçou a indignação da juíza em seu Facebook: “Nojo”, disse ele. Em um segundo post, informou aos seguidores: “Depois da paulada que Andréa Pachá deu no G1, que chamou estupro de criança de ‘encontro amoroso’, a matéria foi corrigida”.

Entenda o caso

O caso aconteceu em uma fazenda nas proximidades da cidade de Rio Negro (MS) e a criança está grávida de sete meses. O padrasto, que morava na casa há mais de um ano, a estuprava antes de sair para trabalhar, enquanto a mãe ainda dormia. Segundo a Polícia, a mãe só tomou conhecimento do caso porque a menina começou a se comportar de maneira diferente, provavelmente por causa da gestação.

Pressionado pela mulher, o homem, que já confessou o crime à Polícia, contou que a criança estava grávida. Depois de descobrir os estupros, a mãe o expulsou de casa e o denunciou ao delegado. Em depoimento na delegacia, a menina teria dito que concordara com a relação: “Ela confirmou que consentiu, que gosta dele e queria morar com ele”.

No entanto, como afirma o último parágrafo da própria notícia, “O Código Penal define sexo com menor de 14 anos como estupro de vulnerável – o consentimento da vítima, sua eventual experiência sexual anterior ou a existência de relacionamento amoroso entre o agente e a vítima não afastam a ocorrência do crime”.

Assim, apesar da suposta fala da criança, o caso não pode, legalmente, ser tratado como encontro amoroso ou como sexo consentido. Como a matéria foi alterada, não se sabe se o trecho final da notícia, que explica como a lei interpreta estupro de menores de 14 anos, foi adicionado após a repercussão do caso.

Confira as manifestações de Andréa Pachá e Renato Janine e os prints da matéria:

Juíza denunciou caso pelas redes sociais | Foto: Reprodução Facebook

Juíza denunciou caso pelas redes sociais | Foto: Reprodução Facebook

Foto: Reprodução Facebook

Ex-ministro repercutiu o caso | Foto: Reprodução Facebook

Foto: Reprodução Internet

Apesar da alteração no título, link segue com a manchete original | Foto: Reprodução Internet

g1

Google Notícias também mostra título antes da edição | Foto: Reprodução Internet

Apesar de o portal ter alterado a notícia, internautas já haviam tirado prints da matéria | Foto: Reprodução Twitter

Apesar de o portal ter alterado a notícia, internautas já haviam tirado prints da matéria | Foto: Reprodução Twitter

 

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