Por que precisamos falar sobre a cultura do estupro?

Em um País onde uma mulher é vítima de violência sexual a cada 11 minutos, o debate sobre o estupro no Brasil deve ir além da indignação por um caso isolado

Foto do projeto da Cia da Hebe Sucupira, cedida para o ATO - Repúdio ao Estupro Coletivo, em Goiânia | Créditos: Ana Paula Ricci

Foto do projeto da Cia da Hebe Sucupira, cedida para o ATO – Repúdio ao Estupro Coletivo, em Goiânia | Créditos: Ana Paula Ricci

Muito se fala que a cada 11 minutos uma mulher é vítima de violência sexual no Brasil. O dado é do Fórum Brasileiro de Segurança Pública que, em 2014 contabilizou o registro 47.646 estupros no País. Porém, este número já alarmante é considerado abaixo da realidade devido ao grande número de mulheres que não registram queixa.

Na última semana, dois casos de estupro coletivo chocaram os brasileiros e ganharam repercussão internacional: no Piauí, uma garota de 17 anos foi violentada por cinco jovens; no Rio de Janeiro, uma adolescente de 16 anos foi estuprada por mais de 30 homens.

Os dois crimes foram o estopim para que tivesse início uma discussão maior, do por que o estupro, um crime hediondo e tão violento, ser tão comum e pouco discutido. Quais aspectos culturais contribuem para que esta situação continue sendo uma realidade tão presente?

“O termo ‘cultura de estupro’ parece forte, mas a sociedade precisa aprender a viver com essa expressão”, pontua a professora de antropologia da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás, Izabela Tamaso.

Ela explica que diversos fatores na sociedade contribuem para a construção da chamada cultura de estupro: “Diversos aspectos culturais fazem com que a sociedade aceite que os homens disponham do corpo das mulheres, a despeito da vontade delas. São mensagens na mídia, em peças publicitárias, filmes, novelas; cultura de estupro é quando o pai ensina ao filho que homem não chora, que tem que revidar com violência quando provocado, ‘porque é assim que um homem deve agir’; cultura de estupro é quando tentamos passar a culpa para a mulher da agressão sofrida, tentando justificar que ela estaria simulando ou consentido de alguma maneira; é quando 33 homens não param para pensar, nem por um segundo, que aquilo que estão fazendo é um ato de violência.”, explica a antropóloga.

Para a professora do curso de jornalismo da PUC Goiás, Carolina Goos, é importante perceber que a violência não é apenas quando ocorre um estupro. “Machismo é violência simbólica, violência moral. O assédio ao qual as mulheres estão sujeitas todos os dias, de diversas formas. O feminismo só existe porque o machismo existe e, enquanto houver violência contra a mulher, ele continuará sendo necessário”.

“Quando falamos de cultura de estupro entendemos que vivemos em uma sociedade machista na qual a questão da mulher como objeto ainda é muito normalizada”, disse a professora da PUC ao lembrar o caso recente que viralizou nas redes sociais, do chamado “Regulamento do Inter UFG”, que classificava mulheres por beleza e cor da pele e homens que ficavam ou transavam com essas mulheres recebiam a pontuação em uma espécie de competição.  “Tudo isso mostra que os homens ainda olham para as mulheres como um mero objeto, sempre à disposição”, completou Carolina.

Em resposta

As duas acadêmicas, juntamente com outras professoras universitárias e coletivos feministas, organizam um ato em repúdio à cultura de estupro para este domingo (29/5), às 16 horas, no Parque Lago das Rosas. A página do evento no Facebook já conta com 2,5 mil presenças confirmadas.

“Ficamos todas machucadas a cada mulher agredida, violentada, exposta e humilhada! Não foram 30 homens contra uma jovem, foram 30 contra todas nós! Todas estamos sujeitas enquanto as vítimas continuarem a ser culpabilizadas, enquanto o estupro for “justificado”, enquanto os homens acharem que isso não é problema deles”, diz o texto do evento no Facebook, escrito pela antropóloga Izabela Tamaso.

Como uma das idealizadoras do ato, Tamaso se disse surpresa com a grande resposta à iniciativa. “Vejo uma vontade das pessoas em dizerem alguma coisa, não ficarem caladas diante de tanta violência. Porque a partir do momento que não agimos, somos cúmplices também. Mesmo com o machismo tão impregnado em nossa cultura e sociedade, também temos homens que têm um comportamento muito diferente disso e é interessante tê-los como parceiros, para que eles mesmos digam para os outros homens que certas atitudes não são humanas, não são dignas”.

Para Carolina Goos, uma das moderadoras da página no Facebook, o protesto tomou dimensões que elas não esperavam, porém, sem perder a essência e a ideia original do ato, que é contra a cultura do estupro. “O que começou com um grande desabafo acabou tomando proporções bem maiores do que esperávamos. Muitas pessoas acabaram aderindo e nem sempre sabemos quem são esses coletivos, quantas mulheres estão aderindo e se são ligadas a algum movimento.”

“A nossa preocupação é não deixar que isso descaracterize o movimento, que tem uma base teórica e objetivos muito claros. O evento é livre e aberto, tanto no Facebook quanto também será no parque, mas não quer dizer que vamos apoiar certos posicionamentos que fogem do objetivo inicial”.

Comentários postados na página do evento de cunho violento, ou em defesa da pena de morte, redução da maioridade penal e/ou castração química como punição para o crime de estupro foram apagados. “Essas ideias não tem o nosso apoio. Para nós, não resolve coisa alguma. Nosso objetivo é pensar e discutir um processo educativo que faça com que as pessoas percebam o quanto a cultura do estupro é inaceitável”, explicou Carolina.

O ato ficará concentrado no Parque Lago das Rosas, onde acontecerão performances artísticas de música, poesia e teatro. As pessoas levarão cartazes e entoarão palavras de ordem. Além disso, vários coletivos feministas de Goiânia foram convidados a escreverem uma carta de repúdio que serão lidas no evento.

As mulheres se organizam para irem todas de batom vermelho. “Pensamos no batom vermelho pela simbologia dupla que ele carrega. Além do vermelho do sangue, símbolo da violência física sofrida, o batom vermelho também é provocante e nós defendemos o direito de poder usar um batom vermelho, uma saia curta, ou o que quiser, e não sermos alvos por isso”, explica Carolina.

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