Polícia Federal diz que Pimentel é chefe de quadrilha e recebeu R$ 1 milhão em propina

A acusação contra o governador de Minas Gerais é de que ele seria responsável por coordenar um esquema de lobby quando era ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio

A Polícia Federal acusa o governador de Minas, Fernando Pimentel (PT), de chefiar esquema de propinas enquanto esteve à frente do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio | Foto: Governo de Minas

A Polícia Federal acusa o governador de Minas, Fernando Pimentel (PT), de chefiar esquema de propinas enquanto esteve à frente do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio | Foto: Governo de Minas

O relatório final da Operação Acrônimo, da Polícia Federal (PF), aponta o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), como responsável por chefiar um esquema de lobby e ter ganho R$ 1 milhão em propinas enquanto foi ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), no primeiro mandato de Dilma Rousseff (PT) como presidente da República.

Segundo a Polícia Federal, Pimentel teria usado um operador e empresas de fachada para receber as propinas e ganhar viagens em troca de favores, como divulgou a Revista Época na tarde desta sexta-feira (6/5).

As acusações, que são parte do primeiro relatório final da Operação Acrônico, concluído em 29 de abril, que foi enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) para informar que o petista mineiro usou o cargo de ministro para conceder benefícios fiscais à montadora CAOA (Hyundai), ação que lhe rendeu o recebimento de propina de indústria.

A CAOA também está envolvida na condenação de executivos e servidores públicos na Operação Zelotes, na última quarta-feira (4). A empresa é citada nas acusações contra Pimentel por tráfico de influência em órgãos públicos federais, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

A investigação por tráfico de influência, segundo a Polícia Federal, será incluída em outro relatório da Operação Acrônimo, que ainda é elaborado. Os policiais teriam feito o que a Época chama de “o caminho do dinheiro” e concluíram que o governador de Minas usava um operador para lavar dinheiro.

Esse operador seria Benedito de Oliveira Neto, o Bené, que é empresário. Bené foi preso pela Polícia Federal por apresentar consultorias com indícios claros de fraude. O operador de Pimentel negocia a possibilidade de conceder uma delação premiada e falar o que sabe sobre o esquema.

Diz o relatório da Polícia Federal: “Tal organização criminosa é coordenada e integrada por Fernando Pimentel que, em razão de seu cargo, facilitou a atuação de outros integrantes do grupo criminoso, ora usando sua influencia política junto ao MDIC para favorecer a atender aos interesses do grupo”.

Pagamento

Pelos dados colhidos na investigação da Acrônimo, a CAOA chegou a pagar R$ 2 milhões a duas empresas de fachada controladas por Bené, fato divulgado em 2015. Em mensagens de texto, Bené teria sido flagrado ao atuar em fator da CAOA em negociações com o Ministério do Desenvolvimento, que tinha como titular o governador Pimentel.

Mas o dinheiro repassado às empresas era declarado como fruto de consultorias. A Polícia Federal contesta a natureza dos pagamentos e afirma que se trata de fraude. A CAOA enviava os valores para os negócios chefiados pelo empresário e Bené arcava com as despesas de Pimentel, segundo dados da Operação Acrônimo.

Esses pagamentos a Bené e Pimentel são propinas, diz a Polícia Federal. Estão incluídas despesas com hospedagem em hotéis de luxo, faturas de condomínio e cartão de crédito, além de muitos jatinhos fretados. Bené também teria pago viagem de Pimentel a Miami, nos Estados Unidos, e os custos de uma ida em feriado para a Bahia. O total mapeado pela Polícia Federal até o momento é de R$ 1.106.401,50.

“Para usufruir dos valores pagos, Fernando Pimentel, com o auxílio de Benedito, utilizou das empresas de fachada para efetuar pagamentos de hospedagens em hotéis de luxo e fretamento de taxi aéreo em seu favor, dissimulando com isso a origem ilícita de tais valores. O valor apurado na movimentação bancária das empresas de fachada em hospedagens pagas e pagamentos de voos particulares somam R$ 1.106.401,50.”

Funções no esquema

Conhecido como Bené, o empresário é apontado pela Polícia com o operador do esquema de pagamento de propina e lavagem de dinheiro | Foto: Reprodução

Conhecido como Bené, o empresário Benedito de Oliveira Neto é apontado pela Polícia com o operador do esquema de pagamento de propina e lavagem de dinheiro | Foto: Reprodução

Para a Polícia Federal, Bené era o operador do esquema. “Bené atuou como operador de Fernando Pimentel na intermediação dos interesses da empresa privada CAOA junto ao MDIC, bem como coordenador a confecção das evidencias faltas na tentativa de dissimular a entrada de valores nas empresas de fachada.”

As empresas de fachada controladas Bené, na investigação, tinham até “laranja profissional”. “Ricardo Guedes, de forma efetiva, embora menos intensa, aderiu à conduta da organização criminosa, fornecendo seu nome, de forma consciente e voluntária, com o escopo de viabilizar a existência e operação da empresa de fachada, a qual foi criada para lavagem de capitais de origem espúria.”

Pimentel era o responsável por, no cargo de ministro, usar sua influência política no esquema. Bené, assim que o petista deixou o Ministério, começou a negociar com os sucessores do então ministro na pasta.

“Os elementos de prova obtidos demonstram que o esquema criminoso, coordenado e integrado por Fernando Pimentel, utilizava a máquina pública, uma vez que servidores públicos estavam inseridos nesse contexto para barganhar facilidades e benefícios fiscais”, aponta a Polícia.

Defesa

Para o advogado de Pimentel, Eugênio Pacceli, as acusações da Polícia Federal não têm procedência. “Negamos absolutamente. Não tem o menor cabimento e mostraremos o comprobatório dos valores. Vamos levar ao conhecimento da Justiça e do Ministério Público. Muitas dessas viagens fazem parte das verbas de campanha eleitoral. Mas tudo vira um balaio só.”

Já o advogado do empresário Bené, Roberto Pagliuso, afirmou à Época que não iria comentar o relatório da Polícia Federal. Outro integrante da defesa, Ricardo Guedes, negou as acusações. “As acusações são frágeis e inverídicas. A defesa tem convicção de que a inocência será reconhecida pela Justiça.”

Pela CAOA, o advogado Roberto Batochi declarou que a contratação das empresas de Bené foi uma operação legal. “A PF presume sem nenhuma prova. Houve emissão de nota, contrato, pagamento de imposto. O objetivo é incriminar Pimentel e por isso se passou a dizer que a consultoria estava na internet. A internet é hoje o depositório do conhecimento humano. Não estão nas bibliotecas. É muito difícil um trabalho técnico que não tenha fragmento na internet. A Caoa mantém a veracidade da consultoria e os relatórios estão sendo usando em projetos da montadora.”

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