Pobreza e desigualdade caem ao menor nível em 30 anos no Brasil, aponta Ipea
27 novembro 2025 às 14h35

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A pobreza, a extrema pobreza e a desigualdade no Brasil atingiram em 2024 os menores níveis desde o início da série histórica, em 1995. A constatação faz parte de um estudo inédito do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado nesta terça-feira, 25, que também mostra que a renda média dos brasileiros chegou ao maior patamar em três décadas.
Segundo o levantamento, baseado nos dados da Pnad Contínua do IBGE, a renda média mensal por pessoa saltou quase 70% entre 1995 e 2024, de R$ 1.191 para R$ 2.015. Já o coeficiente de Gini, que mede a desigualdade, caiu de 61,5 para 50,4, o menor nível da série. A taxa de extrema pobreza, que era de 25% nos anos 1990, recuou para menos de 5%.
Os pesquisadores Pedro Ferreira de Souza e Marcos Hecksher identificaram que a melhora dos indicadores não foi contínua. Ela se concentrou em dois períodos: entre 2003 e 2014, e de 2021 a 2024. Ambos foram marcados por mercado de trabalho aquecido e forte expansão fiscal.
Ao decompor os fatores que levaram à recuperação no pós-pandemia, o Ipea concluiu que emprego e programas de transferência de renda tiveram impactos equivalentes, com peso ainda maior das transferências na redução da extrema pobreza.
A expansão do Bolsa Família, recriado em 2023 com orçamento ampliado, teve papel central. Entre 2019 e 2024, as transferências via Bolsa Família e BPC cresceram 135% acima da inflação, passando de 1,2% para 2,3% do PIB. O programa saltou de 13,8 milhões para mais de 20 milhões de famílias atendidas.
“Nos perguntávamos se o Bolsa Família ampliado estava dando resultado. A resposta é inequívoca: sim”, afirmou Souza, estudioso da desigualdade no país à BBC.
O Bolsa Família se tornou, em 2025, a terceira maior despesa da União (R$ 158 bilhões), atrás apenas da Previdência e de saúde e educação. Apesar do custo elevado, o estudo aponta que o programa não perdeu focalização e continua direcionado às famílias mais pobres.
O valor mínimo do benefício subiu de R$ 400 para R$ 600, e a linha de pobreza oficial está fixada em renda per capita de até R$ 218 mensais.
O Ipea afirma, porém, que não há espaço fiscal para novas expansões do programa, e que a melhora dos indicadores tende a perder força nos próximos anos. Para manter avanços, o pesquisador defende estabilidade fiscal e estímulo ao emprego, especialmente entre trabalhadores de baixa qualificação.
“O desafio será manter o mercado de trabalho aquecido sem gerar desequilíbrios fiscais que prejudiquem a economia”, avaliou o pesquisador.
Segundo ele, políticas graduais, como o programa Pé de Meia, o cashback da reforma tributária e eventual reforma do Imposto de Renda, podem contribuir para reduzir desigualdades nos próximos anos.
O estudo foi feito com base em pesquisas domiciliares, que têm limitações, especialmente para medir a renda do topo. Souza prevê que a divulgação futura de dados da Receita Federal e da nova Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2024-2025) permitirá uma visão mais completa sobre a evolução da pobreza e da desigualdade no país.
O cenário, segundo ele, é de otimismo moderado. “Não será uma revolução, mas há iniciativas que, se bem articuladas, podem atuar em conjunto para reduzir desigualdades.”
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