Plano Diretor autoriza adensamento populacional do Setor Sul com prédio sem garagens; especialistas se dividem

Atualmente, outros bairros da região Sul, como Bueno, Marista e Jardim Goiás, já estão entre os que possuem maior adensamento da cidade

Entre os vários pontos polêmicos do novo Plano Diretor de Goiânia, especialistas e moradores elencaram o adensamento populacional previsto ao Setor Sul como um dos principais. Isso, porque a partir do projeto que atualmente tramita na Câmara Municipal de Goiânia, se aumenta a possibilidade do crescimento de edifícios no setor. Atualmente, outros bairros da região Sul, como Bueno, Marista e Jardim Goiás, já estão entre os que possuem maior adensamento da cidade.

Ao conversar com Jornal Opção, especialistas explicam não serem contrários ao conceito do adensamento, mas a forma em que ele vem sendo aplicado. A geógrafa Celene Monteiro foi um exemplo, ao pontuar que, em si, o adensamento é, inclusive, desejável e factível, mas que depende de sua aplicação. “O adensamento é algo que está previsto nas áreas urbanas mundiais, da ONU, por exemplo, de como viver na cidade nos anos futuros. É desejável, algo factível. A questão é a forma e onde esse adensamento está sendo proposto”, opina a geógrafa.

Ela explica que, para se ter adensamento, é preciso que exista a infraestrutura básica. Dentro dessa estrutura, não se inclui apenas a viária, mas o fornecimento de água tratada, energia, serviços de esgoto, entre outros recursos. “Quantas vezes vemos caixas de esgoto explodindo pela cidade, principalmente no Setor Marista [que pertence a região Sul de Goiânia], ou as águas pluviais também não suportando… Isso ocorre porque, no passado, esse bairro foi pensado como residencial unifamiliar, mas ele acabou sobrecarregado com o a quantidade de adensamento”, explica Celene.

Em concordância com a geógrafa, o ex-vereador de Goiânia, Djalma Araújo, caracterizou o aumento do adensamento no Setor Sul como um “ato nada republicano”. “Isso vai promover a descaracterização de um bairro histórico somente para atender a especulação do mercado imobiliário”, diz. Ele ainda opina que esse tipo de decisão precisa ser conversado com a sociedade e que, antes de se pensar em adensar o bairro, deveria se pensar em “fazer primeiro uma drenagem urbana”.

Quem também não aprova a ideia é o próprio presidente da Associação Pró-Setor Sul (Aprosul), Edimilson Moura, que condena, principalmente, a construção de novos prédios sem garagem. “O argumento utilizado para a construção de habitações de 15 m² sem a exigência da construção de garagem é pueril, infantil, e chega a desmerecer a inteligência da população, dizendo que a prefeitura gastou milhões para implantar o BR-T, e é preciso levar a população de baixa renda para ali”, opina. Isso, porque, para ele, com o preço do metro quadrado cobrado no Setor Sul, dificilmente pessoas de baixa renda conseguem se instalar naquele local, independente da metragem dos apartamentos.

“O que o mercado imobiliário quer é construir novos estúdios, ganhar muito dinheiro e deixar o problema para a população e para o setor públicos, porque com as unidades não contendo garagem, as pessoas vão estacionar em algum ponto e na via pública não cabe mais, porque ela foi estreitada”, complementa Edimilson. A arquiteta e urbanista, Maria Ester, também explica a necessidade de tanto o adensamento quanto a verticalização serem discutidos com cautela. “Falar em adensar o setor Sul é muito preocupante, porque significa colocar muito mais gente que já tem lá, deixando as construções atingirem níveis sem limites”, pontua. Ester ainda explica seu argumento ao justificar que o bairro em questão foi planejado para ser um “bairro jardim”, um “bairro parque”.

“O Setor Sul, nos últimos anos, funcionou como uma espécie de área de recarga de chuva, dando uma estabilizada naquela enxurrada que desce do Marista, do Setor Universitário para o Botafogo… O Setor Sul segurou as pontas. Deixar as construções atingirem níveis sem limite vai matar a vegetação, vai acabar com o subsolo, com a umidade do ar”, complementou a arquiteta. Atual vereadora na Câmara, a vereadora Aava Santiago (PSDB) também não vê com bons olhos o excesso de adensamento e verticalização na região. Essa, portanto, fará parte de uma das mais de 16 emendas que serão apresentadas pela parlamentar.

A emenda busca classificar terrenos ao longo das avenidas 84, 85 e 90, no setor Sul, como Áreas de Adensamento Básico (AAB), que poderão ter imóveis com altura máxima de 12 metros – com exceção às quadras internas desse bairro e para o setor Jaó, cujo limite o relatório fixa em 7,5m, nos demais imóveis em AAB, as edificações deverão ter até 12m. Isso, porque o artigo 154 do texto do Executivo propõe que os terrenos ao longo das três vias são classificados como Áreas Adensáveis. Nas AAs, não há limite de altura para novas construções, conforme o artigo 181.

Já os imóveis das avenidas 84 e 90 estão em AAs porque, pelo parágrafo 1 do artigo 154, são tidas como Eixos de Desenvolvimento e, no caso da avenida 85, porque a via é tida como Corredor Exclusivo, segundo o anexo V. No texto aprovado na Comissão Mista, foi acrescentado o Índice de Aproveitamento do Terreno que permite construções com até seis vezes a dimensão do terreno. Para Áreas de Adensamento Básico, o limite é a altura máxima de 12m, segundo redação que o artigo 180 ganhou na Comissão Mista.

“O setor Sul foi um dos primeiros bairros da capital, planejado para baixa densidade e, por seu traçado peculiar, inspirado no modelo das cidades-jardins, precisa ser preservado. Além de ser fundamental à memória de nossa cidade, o setor reúne espaços verdes, essenciais à manutenção da biodiversidade e à permeabilidade do solo, drenando a água de bairros mais altos para o Córrego Botafogo”, argumenta.

Opinião Contrária

Quem avalia o índice de aproveitamento de forma distinta, no entanto, é o arquiteto Paulo Renato. Em entrevista ao Jornal Opção, ele explica ter sido o responsável por propor o índice de aproveitamento como limitador, ao invés da fração ideal. Na defesa, ele argumenta que a proposta tem como principal invenção tornar a cidade mais democrática. “Família pequena, família grande, casal sem filho, jovem solteiro, a mulher solteira com sua filha, todos poderão morar em bairros consolidados, e tudo isso faz parte de um contexto que tem que ser votado, que temos que por em prática”, complementa o urbanista.

“Se você tem um terreno de mil metros, com a proposta de aproveitamento, você pode aproveitar ele em seis vezes. Isso quer dizer que é possível fazer 6 mil m² de área privativa. Não importa se são 60 apartamentos de 100 m² ou se são cem apartamentos de 60 m². Ou se são 140 apartamentos de 45 m². Eles vão ter a mesma metragem total. Ou seja, ele tem aquele limite ali, é o que ele vai fazer”, detalha.

4 respostas para “Plano Diretor autoriza adensamento populacional do Setor Sul com prédio sem garagens; especialistas se dividem”

  1. Avatar MARISSOL PAIVA LIMA PAPA disse:

    Já não basta nos fazerem passar por sérios problemas em razão do crescimento desordenado da cidade, como alagamentos, trânsito caótico, ruptura de canos, boeiros, erosões no asfalto, nas calçadas, rachaduras nos imóveis vizinhos provocados pelo impacto desses gigantes construídos em terrenos pequenos em ruas super estreitas e ainda querem continuar avançando nesse erro irreparável alimentado pela ganância sem limite desse mercado imobiliário?

  2. Avatar Celio disse:

    Esses caras querem a todo custo destruir o setor Sul, isso que dá eleger representantes que têm compromisso com construtoras e com dinheiro e não com o povo e suas necessidades.

  3. Avatar felipe A disse:

    Todos que estão contrário ao adensamento, só digo uma coisa, elitistas, odeiam pobre. Mais prédios é o mesmo que menor custo do metro quadrado. Me enoja saber que nossos vereadores tem pensamentos ante povo.

  4. Avatar Carlos Spindula disse:

    Ora, quem deve decidir a forma de utilização do Setor Sul são seus moradores e ninguém mais ! Respeitem seus moradores !

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