“Pessoas falam que feminismo é mimimi para manter as mulheres na cozinha”

LoveLove6, autora da história em quadrinhos Garota Siririca, defende que as conquistas feministas beneficiam até quem não se importa com o assunto

Gabriela Masson, a LoveLove6, veio a Goiânia falar sobre produção de quadrinhos feministas | Foto: Augusto Diniz/Jornal Opção

Gabriela Masson, a LoveLove6, veio a Goiânia falar sobre produção de quadrinhos feministas | Foto: Augusto Diniz/Jornal Opção

Gabriela Masson, de 27 anos, é uma jovem de Brasília (DF) licenciada em Artes Plásticas. Mas na internet e no cenário independente das histórias em quadrinhos (HQs) ela é conhecida pelo nome que adotou para assinar suas histórias: LoveLove6. Ela é autora da HQ Garota Siririca, das tirinhas Batata Frita Murcha, participou da antologia de quadrinhos Topografias e também é responsável pelo zine A Ética do Tesão na Pós-Modernidade 1 e 2.

Convidada a participar da Conferência Noise nesta semana, ela fez parte da discussão “A explosão das publicações independentes feministas” ao lado das goianas Cátia Ana, autora do Diário de Virgínia, e Beatriz Perini, do selo LaLonge, que contou com mediação de Sophia Pinheiro.

Durante o debate e respondendo a perguntas da plateia, na Vila Cultural Cora Coralina, LoveLove6 falou sobre a dificuldade de inserção no mercado das HQs, dominado por homens que ainda usam de políticas machistas como o “teste do sofá” para escolher uma garota para sua equipe e da emancipação da mulher nos quadrinhos com o conhecimento e domínio de todo o processo de produção, desde a pesquisa e elaboração das histórias, até a diagramação, edição, tratamento com gráficas e venda.

Depois da participação na Conferência Noise, que fez parte da programação do 22º Goiânia Noise Festival, e teve discussões diversas sobre o mercado independente entre segunda (1º/8) e quinta-feira (4). Confira abaixo a entrevista completa concedida ao Jornal Opção.

Como foi para você receber esse convite de participar de uma mesa que discute mulheres nos quadrinhos? Como é fazer uma discussão sobre o feminismo em um meio que ainda é visto pela maior parte da sociedade como uma leitura destinada às crianças e formado em sua maioria por autores homens?

Acho que é essencial fazer essa discussão porque está acontecendo esse movimento produzindo, em que a gente está procurando ter mais visibilidade e os embates dentro do mercado, da cena, independente de ser sobre quadrinhos, eles são bem reais nessa questão do machismo. As mulheres são invisibilizadas, as mulheres são esquecidas quando está no momento de indicar alguém para uma oportunidade.

Acho que é muito importante. Para mim é ótimo. É um prazer estar falando a respeito disso, que tem a ver com as minhas pesquisas, os meus temas que eu trabalho nos quadrinhos também. Acho que é importante o festival chamar as mulheres para outras bancas também. Porque acontece muito de a discussão a respeito da produção de mulheres ficar concentrada em uma única mesa e ser muito pontual dentro dos festivais.

E um dos caminhos para a gente visibilizar mais a produção e participação de mulheres em qualquer cena que seja, tanto nos quadrinhos quanto na música, por exemplo, é incluir mulheres, mas na discussão sobre todos os temas. É uma maneira inclusive de mostrar que as mulheres estão produzindo, estão presentes, elas existem.

Em um certo ponto você levantou a discussão de o feminismo viver hoje uma terceira onda ou não e de como o capitalismo adapta essas lutas feministas por um interesse mercadológico. Por que você considera que o feminismo tem que ser uma ação anarquista, um ato de anarquismo, ao invés de ser algo incorporado pelo capitalismo?

A princípio eu não diria que eu sou exatamente uma feminista anarquista. Mas eu simpatizo com muitas ideias anarquistas. E no Brasil existe essa linha de feminismo anarquista que é muito forte e eu acho que é a que incita mais transformações. Eu acho que isso é importante porque o capitalismo mata os movimentos sociais quando ele se apropria dessas pautas dos movimentos sociais, ele transforma a pauta em objeto de consumo. E o poder de transformação social ele se perde e passa a ser um poder aquisitivo.

A minha preocupação é que, por exemplo, o capitalismo se apropriando do feminismo as mulheres passem a procurar por meio do consumo uma liberdade política. Essa é a grande questão. Agora eu vou Dove porque Dove fala bem de corpos de gordas, então isso em torna mais feminista porque eu consumo tal marca. E isso na verdade é uma grande ilusão. Não é isso que traz transformação. A transformação ela não acontece por meio do consumo. Nunca foi assim.

A própria maneira como se dá o consumo é uma questão feminista também. O que você consume, quem é que produz. E nesse sentido entra o anarquismo para questionar os modos de produção e procurar tomar posse desses modos de produção e pensar a respeito do seu consumo para que você não seja essa grande massa de manobra, não esteja enriquecendo bolso de grandes indústrias enquanto tem mulheres produzindo coisas parecidas e independente e você não dá atenção a elas.

Como você lida com o discurso de que feminismo é mimimi, uma espécie de papo chato e desnecessário?

Eu acho que é um grande equívoco. Quando as pessoas falam que feminismo é mimimi elas não compreendem do que se trata o feminismo, elas estão sendo guiadas por estereótipos nocivos que a mídia reproduz e que a internet visibiliza. O feminismo é muito plural, o feminismo acontece entre as mulheres camponesas, entre as mulheres negras, indígenas, dentro da academia, dentro das escolas, acontece entre as mulheres anarquistas, entre as mães das periferias. Quando você fala da feminista você está partindo de um estereótipo que por princípio já é nocivo.

Porque o feminismo é um movimento político muito plural. Inclusive dentro do feminismo, as feministas, a gente precisa ter sempre o cuidado para fazer o recorte da nossa pauta. A gente não pode falar… Eu como feminista branca não posso falar de questões sexuais sem fazer a ressalva de que a formação da sexualidade das mulheres negras, por exemplo, aconteceu de forma diferente da formação da minha sexualidade na história.

E quando as pessoas falam isso, que feminismo é mimimi, é muito preocupante porque parece que elas partem de um desejo de manter as mulheres em um lugar passivo, de submissão. Parece que elas querem que as mulheres se mantenham num lugar de submissão. Porque o feminismo quer coisas muito básicas e dignas, na verdade, que seriam mais éticas para a gente atuar e para a gente fazer acontecer na sociedade, como o pagamento equalitário, liberdade para se casar com quem se quer também é uma pauta feminista, liberdade de você escolher ou não ser mãe, escolher ter uma maternidade empoderada e criar os filhos à sua maneira. A questão do aborto que é muito cara e importante até hoje, e é um dos grandes tabus.

Essas pessoas querem manter as mulheres na cozinha quando elas falam que feminismo é mimimi. O que eu acho que é um absurdo, porque as mulheres são seres humanos e a gente tem anseios e desejos como qualquer outro ser humano e eles vão muito além das paredes da casa. A gente quer ser pessoas que produzem transformações políticas e sociais também. Enquanto essas pessoas dizem que feminismo é mimimi elas estão chutando a gente para dentro da cozinha.

Qual é a sua visão da participação masculina na pauta das mulheres, seja reconhecendo os erros carregados com o machismo ou na participação da expansão da visibilidade de espaço das mulheres, tanto na produção e divulgação de HQs ou nas demais pautas na sociedade?

Dentro do mercado de HQs é muito difícil eu te falar de apoio de homens nessa questão feminista. Na verdade a gente não tem. E tenho a impressão de até quando um editor quer apoiar mulheres ele atrapalha, porque ele chama só uma e essa uma vira a grande feminista e invisibiliza toda a produção de mulheres que acontece.

Eu acho que a participação dos homens é importante, mas eu acho que a pauta dos homens é muito distinta da pauta das mulheres quando a gente fala de feminismo. Eu acho que os homens precisam começar a olhar para si mesmos e questionar a própria masculinidade. Eu falei aqui sobre os estudos da masculinidade que é um campo de pesquisa que existe e é acessível na internet para quem quiser procurar e pensar a respeito disso, desse projeto pedagógico que a sociedade oferece ao homens de perder a afetividade, se tornar esse cara muito macho que não pode abraçar os amigos, ele não pode demonstrar nenhuma característica feminina senão a sexualidade dele é posta em dúvida.

Se os homens parassem para pensar a respeito disso, de como eles formam uma masculinidade e reproduzem uma masculinidade que é muito violenta, tanto para a sociedade quanto para eles mesmos intimamente, psicologicamente, acho que seria muito interessante. Eu acho que é mais interessante do que os homens tentarem reproduzir os discursos de mulheres em eventos ou acho que é até mais importante do que os caras ficarem falando que leem quadrinhos de meninas, entregando para os amigos, falando que é muito massa.

Acho que se um homem quer se envolver com o feminismo ele precisa estudar a própria masculinidade, questionar isso, desconstruir isso. Acho que é um bom lugar por onde começar. Porque isso com consequentemente vai levá-lo a questionar a maneira como ele constrói o relacionamento dele com outras mulheres e com outros homens.

Como você encara situações de mulheres antifeministas, inclusive o caso da criação daquela página “Moça, eu não sou obrigada a ser feminista” no Facebook?

Eu acho que é triste e também acho que é equivocado. Ninguém é obrigado a ser feminista, mas essas mulheres estão usufruindo diretamente das conquistas feministas. O fato é que o direito, por exemplo, a uma educação de qualidade foi alcançado a partir de campanhas e conquistas feministas. Então se não fosse o feminismo no mundo e no Brasil, até hoje as meninas não teriam direito a estudar e nós não poderíamos criar páginas na internet para questionar porra nenhuma.

Enfim! Acho que é triste, né? As mulheres podem não ser feministas, podem ser antifeministas, e inclusive nenhuma feminista diria que quer obrigar alguém a ser feminista, especialmente uma mulher. Mas acho que é um equívoco. Acho que se essas mulheres parassem um pouco e olhassem para a própria vida, ao redor e tivessem empatia com outras mulheres em situações econômicas e materiais distintas das delas, elas perceberiam que o feminismo é importante e pertinente na vida de qualquer mulher.

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