Pesquisa aponta 3,5 milhões de usuários de drogas ilícitas no País

Governo contesta resultados da pesquisa e teme fim do discurso de “epidemia do crack” no Brasil

Ana Luíza Andrade

Uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz expõe que 3,563 milhões de brasileiros consumiram drogas ilícitas em um período recente. Dos entrevistados, 208 mil admitiram ter usado crack nos 30 dias anteriores ao levantamento. O estudo, concluído em 2017, foi divulgado no início desta semana pelo site The Intercept Brasil.

A demora para a apresentação dos resultados é atribuída ao governo, que teria de abdicar do discurso de “epidemia do crack” no país. Segundo o Ministério da Justiça, não houve divulgação dos resultados porque a metodologia utilizada não seguiu os requisitos estabelecidos pelo edital. A Fiocruz nega a explicação da pasta.

A metodologia escolhida foi a da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar (Pnad), que contou com a participação de cerca de 300 pesquisadores e técnicos e custou aos cofres públicos cerca de R$ 7 milhões. O Ministério da Justiça argumenta que os dados reunidos no projeto não permitiram a comparação com pesquisas anteriores.

A pesquisa, batizada de 3º Levantamento Nacional Domiciliar sobre o Uso de Drogas, instalou uma crise entre o Ministério da Justiça e a Fiocruz. A fundação sustenta que atendeu a todos os requisitos e, inclusive, entregou dados que não haviam sido requisitados.

O número indicado pela pesquisa é menor que o resultado apresentado por outro trabalho da fundação, que indicava 370 mil usuários da droga em 2013. Integrantes do governo não ficaram satisfeitos com o recrudescimento dos dados e temem que os indicadores prejudique a “campanha” da epidemia do crack no Brasil.

A diferença dos resultados é explicada pela fundação devido ao fato da pesquisa ter sido realizada em residências fixas e não em locais propícios para o consumo de crack, bastante utilizada em espaços divididos entre grupos consumidores da droga específica. Além disso, a Fiocruz ressalta que o levantamento é sobre drogas no geral, não apenas sobre crack, objeto de contestação do governo.

A Fundação Oswaldo Cruz situa que a resistência sobre a pesquisa se formou no fim do governo de Michel Temer. O lançamento do trabalho foi adiado em razão das sucessivas mudanças de equipes no Ministério da Justiça. O secretário do Ministério da Saúde, Erno Harzheim, afirma não ter conhecimento sobre os dados apresentados.

O ministério, por sua vez, enviou esta semana um ofício para a presidência da fundação e alertou que irá solicitar a arbitragem da Câmara de Conciliação da Advocacia-Geral da União (AGU), para intermediar o conflito entre os órgãos. A Fiocruz defende o trabalho e indica que deve recorrer ao Ministério Público.

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