No Senado, prefeito de Bonfinópolis confirma que pastores cobravam propina para acesso a recursos do MEC

Comissão da Educação colheu depoimentos de três prefeitos, entre eles: Kelton Pinheiro, de Bonfinópolis

Os pastores goianos Arilton Moura e Gilmar Santos, ligados à Igreja Ministério Cristo para Todos, na Capital, e acusados de envolvimento no esquema de corrupção do Ministério da Educação (MEC), episódio que ‘derrubou’ o titular Milton Ribeiro, serão ouvidos em audiência pública da Comissão de Educação do Senado, nesta quinta-feira, 7. O colegiado já colheu depoimentos de três prefeitos, nessa terça-feira, 5, e todos reiteram que os religiosos exigiram dinheiro em contrapartida para liberação de recursos públicos da pasta.  

Aos parlamentares, Kelton Pinheiro (Cidadania), de Bonfinópolis, município da região Metropolitana de Goiânia, deu detalhes das abordagens dos pastores em março do ano passado, durante almoço com prefeitos em Brasília. Segundo ele, Arilton Moura e Gilmar Santos chegaram a cobrar propina de R$ 15 mil para viabilizar a construção de uma escola com 12 salas, orçada em R$ 7 milhões, no município.

“O pastor Arilton chegou na minha mesa e me abordou de uma forma muito abrupta e direta: ‘Olha prefeito, vi que no seu ofício o senhor pede a escola de 12 salas. Essa escola deve custar uns R$ 7 milhões. Mas é o seguinte, eu preciso de R$ 15 mil na minha mão hoje, você faz a transferência para a minha conta. Para depois não cola comigo, porque vocês políticos. São um bando de malandros, que não tem palavra’. Aquilo me deu ânsia de vômito”, relatou Pinheiro. Instigado pelo Jornal Opção o por que não fez registrou denúncia às autoridades, o prefeito respondeu que “naquele momento eu pensava que se tratava de um ato isolado. Que seria apenas a palavra dele contra a minha”.

Prefeito de Luís Domingues (MA), Gilberto Braga (PSDB), também contou que foi procurado em abril do ano passado, um mês depois que o gestor goiano, quando estava em Brasília para participar de um evento no MEC com a presença do então ministro Milton Ribeiro e de diversos prefeitos. Ele lembrou que um grupo de 20 a 30 pessoas foi almoçar, mas sem a presença do ministro, no restaurante Tia Zélia. Lá, Braga relatou que foi questionado pelo pastor Moura acerca de quais seriam as demandas do município. Após isso, lhe foi pedido R$ 15 mil para ser protocolado “o pedido no MEC”, sendo , exigido também, que depois da liberação das verbas, fosse pago a ele também “um quilo de ouro”.

“Ele disse que tinha que ver a nossa demanda. De R$ 10 milhões ou mais, tinha que dar R$ 15 mil para ele protocolar [no MEC]. E, na hora que o dinheiro já estivesse empenhado, era para dar um tanto X. Para mim, como a minha região era área de mineração, ele pediu um quilo de ouro”, contou. O prefeito maranhense emendou que sobre o pedido não disse “nem que sim, nem que não” e foi almoçar. Mas, de acordo com Braga, a propina não foi paga e nem as demandas do MEC foram liberadas.

Outro prefeito que passou pela mesma situação foi José Manoel de Souza (PP), de Boa Esperança do Sul (SP), ele denunciou que lhe os religiosos lhe cobraram cerca de R$ 40 mil, em março do ano passado. No encontro, ele se lembra que estavam o ex-ministro Milton Ribeiro, os dois pastores, Moura e Santos, e o presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), Marcelo Lopes da Ponte. “O pastor Arilton me disse: ‘Prefeito, você sabe muito bem como funciona, né? Não dá pra ajudar todos os municípios, mas eu consigo te ajudar com uma escola profissionalizante. Eu faço um ofício agora, eu coloco no sistema e, em contrapartida, você deposita R$ 40 mil na conta da igreja evangélica’”, relata. “Eu então bati nas costas dele [Arilton] e falei que para mim não serviria”, completou.

As denúncias concluem que mesmo sem cargos formais na pasta, os pastores tinham livre trânsito ao ponto de intermediarem demandas de prefeituras junto ao ministro. Ribeiro deixou o comando do MEC depois da divulgação de áudios em que ele afirma dar “prioridade” no repasse de verbas do FNDE aos “prefeitos que são amigos do pastor Gilmar Santos” e que isso atendia a um pedido direto do presidente Jair Bolsonaro (PL). Ribeiro, enquanto estava no cargo, foi convidado para também comparecer ao Senado. A audiência estava marcada para acontecer na semana passada, porém, com a exoneração, ele não compareceu e nem justificou ausência.

O suposto escândalo surgiu na imprensa em março e no último dia 28 houve a exoneração do governo federal de Milton Ribeiro, que também é pastor protestante. Ele saiu afirmando que não praticou atos ilícitos. “Tenho plena convicção de que jamais pratiquei qualquer ato de gestão que não fosse pautado pela legalidade, pela probidade e pelo compromisso com o Erário. As suspeitas de que foram cometidos atos irregulares devem ser investigadas com profundidade”, disse. 

Ribeiro destacou ainda que foi a pedido dele que ocorreu a exoneração do cargo, para que pairasse nenhuma incerteza acerca da conduta dele e do governo federal. “Meu afastamento visa, mais do que tudo, deixar claro que quero uma investigação completa isenta”, se manifestou por meio de nota. O ex-ministro bolsonarista é alvo ainda de inquérito aberto pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a pedido da Procuradoria Geral da República (PGR), por suposto favorecimento na liberação de recursos para prefeituras por meio da intermediação de terceiros, que foram também incluídos na ação.

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