Parlamentares goianas relatam episódios de assédio que já sofreram na política

Jornal Opção ouviu vereadoras e deputadas por Goiás sobre situações vexatórias que já tiveram que enfrentar no meio político por conta do machismo

No dia em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, a reportagem do Jornal Opção procurou vereadoras e deputadas por Goiás para falar sobre o espaço ocupado pelas mulheres no meio político. Durante as entrevistas, as parlamentares acabaram relatando episódios de assédio moral e outros constrangimentos que já sofreram no exercícios de seus respectivos mandatos. Confira abaixo:

Dra. Cristina – vereadora pelo PSDB

Foto: Reprodução / Câmara Municipal

Apesar da nossa votação expressiva e de ter mantido uma cadeira nessa Casa, infelizmente faz parte da vida da mulher esse comportamento masculino, sobretudo no contexto bastante masculinizado da política. Por isso, nossa atitude é importante, é preciso pontuar, se posicionar. Mas isso é recorrente. 100% das mulheres já sofreram algum tipo de assédio. Na Câmara, às vezes, os homens vêm conversar com você, justamente para tirar o foco da sua atenção ou fazem críticas em relação ao seu corpo, cabelo ou maquiagem — instrumentos que normalmente desequilibram a mulher. Claro, já tenho mais idade e já vivi muita coisa na vida, inclusive uma tentativa de assassinato, e essa experiência vai nos dando mais segurança nas nossas reações.

Eu já desarmei vereador aqui nessa Casa que andava com uma foto minha no celular, falando como eu estava vestida em uma audiência ou como meu cabelo estava. Eu simplesmente falei: ‘ele é tão enlouquecido comigo que anda até com uma foto minha no seu celular’. Outra vez também, um vereador falou da minha roupa na tentativa de tirar minha concentração em um momento de votação, revidei questionando se ele era consultor de moda. Não devemos deixar nos abater. Também é comum, por exemplo, o presidente cercear sua voz, não deixar você falar ou te colocar por último e a maioria das pessoas não vê isso, mas vê a nossa atitude explosiva. Muitas das vezes, você tem que falar alto e ter uma atitude mais brusca para ser ouvida. E acabam te chamando de histérica, mas, na verdade, o processo para você chegar nisso já é algo que causa desgaste e que não ocorre de uma hora para outra.

Sabrina Garcêz – vereadora pelo PMB

Vereadora Sabrina Garcêz (PMB | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

As mulheres começam a sofrer assédio desde os 12 e 13 anos. Mas há uma situação concreta que eu vivi, além da carreira jurídica, porque também sou advogada. Um caso concreto que ocorreu aqui na Câmara. No ano passado, quando fui assumir a Comissão de Constituição e Justiça, vários vereadores e parte da imprensa desacreditaram o meu trabalho, falaram que eu não teria competência. Mas se você pegar o vereador Lucas Kitão, que é vereador da minha idade e com a mesma carreira jurídica, você vai ver que ele não sofreu qualquer crítica. Não houve críticas diretas por eu ser mulher, mas dois vereadores jovens e advogados ocupando espaços semelhantes e a crítica só restou a mim, não restou a ele, que é homem.

Eliane Pinheiro – deputada estadual pelo PMN

Deputada Eliane Pinheiro | Foto: Y. Maeda

Eu nunca parei para reparar nessas coisas, sou uma mulher muito determinada, “brava”, como diz o povo. Mas isso existe sim e em todas as classes sociais. Para tanto, deve ser feito um trabalho de conscientização neste sentido, porque não somos obrigadas. […] Fora isso, temos que ter mais mulheres na política. Eu fui à luta. Fiz de conta que não estava enxergando e fui abrindo meu espaço. E é isso o que as mulheres têm que fazer.

Lêda Borges – deputada estadual pelo PSDB

Fernando Leite

Eu penso que a mulher na vida pública, principalmente na política eletiva, ainda não encontrou um motivo muito forte para se colocar à disposição. Ela já tem que assumir uma gama de responsabilidades e ainda não se sente atraída para candidaturas. Mas, quando nós assumimos e internalizamos essa missão, não nos sentimos assediadas. Enfrento todos os obstáculos para superar isso. Sempre enfrentei tratamento diferente por ser mulher, mas não gosto, por exemplo, de colocar isso como uma questão de vitimismo. Sofremos sim, as oportunidades não são iguais. Querem que a gente apoie, mas não nos querem candidatas e quanto mais esses cargos são em esferas superiores menos oportunidades nós temos. Eu acho que isso tem agravado a cada dia, ao invés de ser melhorado. Estamos em um processo de retrocesso.

Priscilla Tejota – vereadora pelo PSD

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Eu acredito que é impossível uma mulher hoje no Brasil chegar aos 34 anos idade e não ter sofrido nenhum tipo de assédio, seja ele sexual ou moral. Como mulher, no decorrer da minha vida, passei também por isso. Na vida política, enfrentei uma situação constrangedora logo no dia da minha posse. Eu quase fui impedida de entrar no palco durante a solenidade, porque o segurança do evento alegou que a entrada era só para vereadores. “Não, menina, você não pode entrar aqui.” E eu tive que dar uma carteirada para poder subir no palco. Esse é apenas um dos exemplos. Às vezes, você chega em uma reunião e a pessoa fala para você: “Menina, você está fazendo o que aqui?”. Na maior parte das vezes a gente leva na esportiva. Graças a Deus, nunca sofri nenhum assédio sexual no exercício da minha função.

Leia Klebia – vereadora pelo PSC

Fernando Leite/ Jornal Opção

Tenho sido uma grande defensora da bandeira da mulher nessa Casa, apresentamos, inclusive, alguns projetos importantes neste sentido. Já sofri algum tipo de violência também. Nesses encontros com o prefeito mesmo, no aglutinar de pessoas, já acabei empurrada por um homem. E, diante dessas experiências, foi onde eu fiz a primeira caminhada pelo fim da violência contra a mulher. A mulher precisa ser respeitada e assistida de forma diferente pela comunidade goianiense. […] As mulheres precisam avançar mais e ocupar muito mais lugares. É preciso com o machismo, com o feminicídio e outros tipos de violência.

Tatiana Lemos – vereadora pelo PCdoB

Foto: Alberto Maia

Eu sofro assédio diariamente, várias vezes por dia. Eu tento colocar, acima de tudo, o que eu acredito, que é a maior participação na política e nos espaços de poder. Tento deixar de lado a questão do assédio, até mesmo porque, infelizmente, é uma questão cultural no Brasil e claro que temos que lutar para mudar isso. Mas é cultural. Muitas vezes, os homens acham que estão fazendo um elogio. É constrangedor, às vezes eu perco a paciência, mas eu sinto que, nós mulheres, devemos ultrapassar essas barreiras. Graças às mulheres que foram à luta contra não só o assédio, mas em relação à questão dos direitos, que hoje nós temos direito até de existir, porque antigamente até sobre nosso próprio corpo o direito era dos homens. Então, é uma luta diária e constante. Temos que fazer um enfrentamento. O assédio hoje no Brasil ocorre diariamente com todas as mulheres.

Delegada Adriana Accorsi – deputada estadual pelo PT

Foto: Fernando Leite

Como policial e também agora como deputada, política, o que acontece não é um assédio propriamente dito, mas sim que sinto constantemente a necessidade de provar minha capacidade, competência e força. Grande parte da população ainda não acredita que mulheres têm capacidade para liderar um partido, uma gestão. A cada dia estamos comprovando o contrário, que temos sim todas as condições. 

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