*Com a colaboração de João Reynol

A história de fidelidade que comoveu moradores de Goiânia ganhou um novo capítulo. Depois de passar dias na porta da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Jardim América aguardando, sem saber, o retorno do antigo tutor, um homem em situação de rua que morreu após ser levado à unidade, o cachorro Dipirona encontrou uma nova família. O cão foi adotado pela dona de casa Tânia Vieira de Mello, de 38 anos, e, em apenas uma semana, transformou completamente a rotina da casa.

O que antes era um cachorro que passava os dias esperando por alguém que nunca mais voltaria agora é um animal cercado por carinho, brinquedos e uma família que faz questão de incluí-lo em todos os momentos.

Dipirona já se sente em casa no novo lar | Foto: Tânia Melo/Arquivo pessoal

A chegada à nova casa foi marcada pela cautela. Acostumado a uma rotina completamente diferente, Dipirona passou os primeiros minutos apenas observando o ambiente e os novos moradores. A timidez, porém, durou pouco.

Segundo Tânia, bastaram algumas horas para que ele começasse a explorar cada canto da residência.

“Ele chegou meio tímido porque era tudo desconhecido para ele. Mas logo começou a farejar a casa inteira, conhecer os cômodos e entender onde estava. A adaptação foi muito rápida. Hoje parece que sempre morou aqui”, contou ao Jornal Opção.

Com o passar dos dias, o comportamento reservado deu lugar ao jeito brincalhão. Agora, Dipirona circula livremente pela casa, acompanha a família durante o dia e já demonstra confiança para descansar em qualquer canto.

Uma família inteira conquistada

Além da nova tutora e do marido, Dipirona ganhou duas grandes companheiras: Ana Clara, de 13 anos, e Ana Eloísa, de 9. As meninas cresceram convivendo com animais e rapidamente criaram laços com o novo integrante da família.

Tânia explica que a filha mais nova foi quem estabeleceu a conexão mais rápida com o cachorro.

“Ela senta no chão e ele já corre para perto, deita no colo dela, pede carinho, lambe e quer brincar. Foi uma aproximação muito natural.”

A família também precisou apresentar Dipirona à outra moradora da casa: Sofia, uma cadela que está com eles há cerca de dez anos.

Segundo Tânia, os dois ainda estão se conhecendo.

“Às vezes um sente ciúme do outro. Ela rosna um pouquinho, ele responde latindo, mas logo passa. A convivência está sendo muito tranquila.”

A reportagem despertou o desejo de adotá-lo

Foi uma reportagem do Jornal Opção que fez Tânia conhecer a história de Dipirona. Ao ler que o cachorro permanecia todos os dias na porta da UPA esperando pelo tutor, ela conta que não conseguiu deixar de imaginar o sofrimento do animal.

“A fidelidade dele me tocou profundamente. Pensei que aquele cachorro não podia continuar esperando por alguém que não voltaria mais.”

A decisão foi imediata. Assim que terminou de ler a reportagem, ligou para o marido e pediu que ele fosse até a unidade de saúde antes mesmo de voltar para casa.

“Eu falei: ‘Passa lá e traz ele’. Não pensei duas vezes.”

Quando o marido chegou à UPA, descobriu que outras pessoas também haviam demonstrado interesse na adoção. Mesmo assim, foi o primeiro a chegar para buscar o animal.

“O pessoal comentou que havia outras pessoas querendo adotá-lo, inclusive uma mulher que estava sendo atendida lá. Mas meu marido chegou primeiro e conseguiu levá-lo.”

O antigo tutor deixou um cachorro muito bem cuidado

Antes de conhecer Dipirona pessoalmente, Tânia acreditava que encontraria um cachorro debilitado por ter vivido nas ruas.

A impressão mudou completamente assim que ele entrou em casa.

Depois do primeiro banho, ela percebeu que o animal estava saudável, bem alimentado e sem sinais de maus-tratos.

“Ele estava gordinho, bonito e muito bem cuidado. Isso mostra que o antigo tutor realmente cuidava dele com muito carinho.”

A avaliação da família é que Dipirona tenha entre dois e três anos de idade.

“Eu imaginava que fosse um cachorro mais velho, mas ele é novinho e tem energia de sobra.”

Brincadeiras, bagunça e uma casa mais alegre

Quem chega à casa da família encontra um cachorro completamente diferente daquele que esperava, silenciosamente, na porta da UPA.

Hoje, Dipirona passa boa parte do dia correndo, brincando e interagindo com todos.

Como qualquer cão jovem, também apronta.

Segundo Tânia, ele já derrubou um cesto de roupas, rasgou almofadas e espalhou brinquedos pela casa.

“É bagunceiro, mas isso mostra que está feliz e seguro. A casa ficou mais animada.”

Para ajudá-lo na adaptação, ela comprou brinquedos, cobertinha e outros acessórios.

“O objetivo era fazer com que ele percebesse que agora tem um lugar dele.”

Dipirona continuará sendo Dipirona

Mesmo sem saber qual era o nome dado pelo antigo tutor, a família resolveu preservar o apelido criado pelos servidores e pacientes da UPA.

Antes da decisão, Tânia ainda tentou descobrir se o cachorro reconhecia outro nome.

“Chamei por vários nomes comuns de cachorro, mas ele não respondeu a nenhum. Então continuamos chamando de Dipirona ou Dipi. Agora ele já atende.”

“Parece que sempre foi da família”

A adoção também ajudou a preencher um vazio antigo.

Depois da morte de Teddy, cachorro que viveu durante 14 anos com a família, Sofia passou a ficar sozinha. Desde então, Tânia desejava adotar outro animal, mas ainda aguardava o momento certo.

Ela acredita que esse momento chegou justamente quando conheceu a história de Dipirona.

“Quando vi a reportagem, senti que era ele. Hoje, sinceramente, parece que o Dipirona sempre fez parte da nossa família.”

Relembre o caso

A história de Dipirona ganhou repercussão após reportagem do Jornal Opção mostrar que o cachorro permanecia havia cerca de duas semanas na porta da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Jardim América, em Goiânia, à espera do tutor, um homem em situação de rua que morreu depois de ser levado à unidade por uma ambulância.

Sem compreender a morte do companheiro, o animal continuou retornando diariamente à entrada da UPA, onde passou a ser cuidado por pacientes, acompanhantes e servidores da unidade. Como ninguém conhecia seu nome verdadeiro, o cachorro recebeu o apelido de “Dipirona”, dado de forma carinhosa por frequentadores do local.

Durante o período em que permaneceu na unidade, o cão recebeu água, alimento e ração doados por pessoas sensibilizadas com sua história. Funcionários relataram que ele era dócil, carinhoso e passava os dias e as noites nas proximidades da porta principal, aparentemente aguardando o retorno do antigo tutor.

A reportagem despertou o interesse de diversas pessoas em adotar o animal. Entre elas estava Tânia Vieira de Mello, que, ao conhecer a história, pediu ao marido que fosse imediatamente à UPA para buscá-lo. A família foi a primeira a formalizar a adoção.

Leia também: