Em provocação dirigida a congressistas, presidente Bolsonaro afirmou que governo pagaria auxílio de valor maior que R$ 300 se salário de parlamentares fosse diminuído pela metade

Pagar mais duas parcelas do Auxílio Emergencial a partir da redução de salários de deputados e senadores de fato não deve vingar. A proposta apresentada informalmente pelo presidente Jair Bolsonaro como forma de provocação aos congressistas não apresenta conta lógica, sendo necessário, caso seja observado o custo anual de todo o Congresso, 10 anos de casa fechada para o custeio de duas parcelas de R$ 600.

Em balanço da Caixa divulgado ainda no final de maio, o número de beneficiários do socorro econômico chegava a 56 milhões, tendo o governo desembolsado R$ 38,6 bilhões para os custos da primeira de três parcelas. O custo total de três meses, no entanto, deve chegar a R$ 150 bi, já que o programa segue recebendo inscrições.

Conforme detalhou o secretário especial da Fazenda, Waldery Rodrigues, com duas novas parcelas de R$300, como já confirmou Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, o valor total do programa giraria em torno de R$ 203 bi, R$ 53 a mais que o calculo original de três parcelas.

Apesar disso, líderes do Congresso, como o presidente da Câmara, o deputado Rodrigo Maia (DEM), defende a manutenção do valor em R$ 600, o que Bolsonaro afirmou que irá vetar. Dias antes de afirmar que vetaria, o presidente disse que: “Se tivermos um programa para diminuir o salário do parlamentar à metade (…), eu pago até R$ 1.000 por mês”.

Conta não fecha

Se considerarmos como uma proposta real, a redução dos salários pela metade por si seria impossível para fazer o pagamento de mais dois meses. Mesmo sendo de R$600, como defende os parlamentares, e não R$ 1 mil, como posto pelo presidente, seria necessário cerca de R$ 100 bilhões para duas parcelas, o que corresponde a cerca de 10 anos dos custos de todo o Congresso, incluindo salários, benefícios, funcionários parlamentares, concursados e todas as outras despesas.

Até 2019, eram 2.894 servidores concursados só na Câmara, 1.456 em cargos especiais,  8.949 secretários parlamentares e 3.260 terceirizados, um total de 16.559. Já no Senado são cerca de 9.000. Totalizando 25 mil trabalhadores ligados ao legislativo brasileiro, que junto de todos os custos parlamentares totaliza cerca de R$ 10 bi ao ano.

Somados os salários de deputados e senadores, os custos totais chegam a R$ 20 milhões por mês. Pegando todo o montante e não apenas a metade, cada um dos 56 milhões dos beneficiários do Auxílio Emergencial receberiam menos de R$ 1 (um real) por mês se fosse esse o fundo de recursos.