Para especialistas, mudar forma de divulgar pesquisas eleitorais só aumenta burocracia e reduz o direito à informação

Apesar das discordâncias, três marqueteiros políticos explicaram que, na prática, mudanças previstas pelo novo Código Eleitoral, a ser votado esta semana, não trazem benefícios ao processo

Para especialistas, mudar forma de divulgar pesquisas eleitorais só aumenta burocracia e reduz o direito à informação | Foto: Senado Federal

Com quase 900 artigos, a nova proposta que deve ser votada nesta quarta-feira, 8, na Câmara dos Deputados, traz mudanças na divulgação das pesquisas eleitorais que divide a opinião de especialistas em marketing político. No entanto, apesar das discordâncias, marqueteiros consultados pelo Jornal Opção acreditam que todas essas alterações são desnecessárias.

Entre as alterações presentes no relatório, estão a proibição da divulgação de pesquisas eleitorais na véspera e no dia da eleição, além de obrigar institutos a divulgarem seus percentuais de acerto das últimas cinco eleições. A primeira delas, sem dúvida, é a mais polêmica e que causa maior quantidade de debates entre os profissionais do marketing. Paulo Faria, por exemplo, que é especialista em Marketing Político e mestre em Marketing e Cultura, apesar de acreditar na pouca influência ao processo eleitoral, admite que pode acontecer mudanças de opinião naqueles eleitores que, mesmo às vésperas do pleito, ainda se encontram em cima do muro.

O estrategista eleitoral Maurício Coelho concorda. Para ele, números não são tão influentes quando se tratam de eleições majoritárias. “Esse tipo de eleição envolve um nível de raiva, medo e de um senso identitário, o que não vai ser um número de pesquisa que vai definir isso. Se a pessoa está contra o Bolsonaro, não adianta o Bolsonaro aparecer com uma pesquisa na véspera da eleição falando que ele irá ter 90% dos votos. A pessoa que está contra ele não vai mudar de voto e votar nele. Isso não existe. Existem coisas mais profundas”, esclarece o especialista.

No entanto, acredita que a imposição dessas regras vem do hábito brasileiro “de se criar leis novas contra tudo aquilo que não se gosta”. “Como quem faz as leis são pessoas que tem vivência política, parece que sobra um ressentimento de campanha que faz com que se crie muitas regras bobas. Acho que toda regra de pesquisa que existe dificulta o processo e dificulta pro eleitor”, opina Maurício.

Para Paulo, a não divulgação de dados vindos de instituições confiáveis no período pré-eleição pode facilitar o aumento da circulação e da crença nas chamadas Fake News. “A pesquisa publicada nos grandes espaços de comunicação tem um papel fundamental. Na hora da confusão, achamos informação com segurança nos veículos de comunicação tradicionais que conhecemos e confiamos. Se eu não tenho a informação que vem da pesquisa disponível, eu tenho o submundo dos robôs que produzem informações falsas”, explica.

No entanto, a produção de Fake News, para Maurício, além de ocorrer independente da presença ou não das pesquisas eleitorais na véspera do pleito, a característica específica dessas Fake News, nesses casos, também não faria diferença no resultado das eleições. “O que seria a Fake News que uma não divulgação de pesquisa poderia trazer é a divulgação de um número. No entanto, uma vai falar um número e outra vai falar outro como, na prática, já acontece”, afirma o estrategista eleitoral, além de exemplificar que, apesar de os candidatos que perdem a eleição colocarem a culpa nas pesquisas, isso não é exatamente verdade.

“Na maioria das vezes esse candidato que perdeu e acusou as pesquisas, também tinha uma pesquisa para falar que ele estava ganhando. Como a pesquisa do outro atrapalhou ele e a dele não o ajudou?”, questiona Maurício. Para ele, na prática, a única coisa que muda com as novas alterações que o regulamento prevê é o aumento da burocracia.

Já o marqueteiro Ademir Lima, o foco da proposta que visa alterar o Código Eleitoral está direcionado em pontos que não trazem mudanças significativas. Para evitar as Fake News, o que se deveria ser priorizado é a qualidade dos institutos de pesquisa e a interdição dos que produzem informações falsas. “Eu não ninguém querendo proibir instituto picareta. Se tiver a pesquisa na véspera, quem está perdendo vai contratar um cara desse e publicar uma pesquisa falsa. E mesmo proibindo, eles vão publicar a pesquisa na véspera, pagar a multa e fica tudo certo. O foco não é esse para evitar as Fake News”, declara.

Direito à informação

Outro ponto ressaltado, em consenso, pelos especialistas é o direito à informação, escolha e de o eleitor elaborar suas próprias estratégias de voto. Para Paulo Faria, especialista em marketing político, a não divulgação de qualquer tipo de informação que diga a respeito da escolha cidadã do eleitor fere o direito à informação de saber como a sociedade, de forma geral, está pensando.

“A vida coletiva acontece por meio da comunicação publicizada. Pode haver pessoas que na ultima hora vão votar segundo o número da pesquisa ou utilizar, no primeiro turno, a estratégia de segundo turno – abrindo mão do candidato preferido dele para o que tem chance de ir pro segundo turno -, mas é legítimo que o cidadão tenha suas próprias estratégias eleitorais”, pontua Paulo.

Quem não confiar nessas informações divulgadas, de acordo com Faria, tem direito de contestar, exigir amostra e esboços no Tribunal Regional Eleitoral (TRE). “Para fazer uma pesquisa e publicar, a pesquisa tem que ser registrada no TRE, então é possível buscar o registro dessa pesquisa e contestar”, explica o marqueteiro.

Para o estrategista eleitoral, Maurício Coelho, independente do caso, a escolha do que acreditar ou não é do eleitor, mas para isso, as informações precisam estar disponíveis. “Se por acaso esse eleitor quiser votar em quem está na frente, é direito dele. Eu não posso tentar impedir ele de ter acesso a uma determinada informação. Tirar a pesquisa no final só suja mais a informação. É de conhecimento da prática eleitoral que os institutos tendem mais a seriedade no final da eleição do que no início. Então essas leis estão impedindo o eleitor de fazer o que só ele pode fazer, que é selecionar quais institutos ele confia e quais não”, opina Maurício.

Percentual de acertos

A alteração que visa exigir com que institutos de pesquisa divulguem sua porcentagem de acerto nas pesquisas, em relação às última cinco eleições, para o estrategista eleitoral Maurício Coelho, é um “absurdo técnico”; não existe a forma de se calcular esse resultado. “Como um percentual de acerto pode ser calculado? Só da pra falar de erro ou acerto em pesquisas de boca de urna porque é a única que você tem o senso ao mesmo tempo que se te a amostragem”, explica o especialista,

No entanto, ele ressalta que, por percentual de acerto ser algo que não possui validade técnica, independente dessa porcentagem, cada eleitor acredita na informação que lhe interessa. “Se eu fiz a pesquisa uma semana antes e e der um resultado qualquer, quem vai me convencer de que não era aquele ainda que na urna dê diferente? Pode simplesmente ter mudado. No final, quem tem que fazer essa análise é o eleitor, e ele está tendo as informações mais próximas da urna tiradas dele para tomar essa decisão”, analisa Maurício.

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