Em um português com sotaque suave para quem chegou ao Brasil sem saber absolutamente nada da língua e a aprendeu em pouco mais de um ano, a paquistanesa Sumbal Saba, de 37 anos, precisa de alguns bons minutos, se perguntada, para conseguir desfiar por completo sua formação acadêmica e a trajetória de prêmios e reconhecimentos que a levaram aonde está hoje.

Mãe da pequena Laiba, de 1 ano e 8 meses, Sumbal é graduada em Química e Biologia pela Universidade de Peshawar, com mestrado em Química Orgânica pela mesma instituição. Ela também é doutora e pós-doutora pela Universidade Federal de Santa Catarina, com vasta experiência e artigos publicados relacionados à chamada ‘síntese orgânica’.

Secretária da Organization for Women in Science for the Developing World (Organização para Mulheres na Ciência para o Mundo em Desenvolvimento), a cientista foi eleita recentemente para o cargo de membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Na ocasião, Sumbal comemorou ao dizer que era “a universidade pública cumprindo seu papel na sociedade”. E foi justamente a universidade pública, e a educação como um todo, as principais responsáveis por trilhar o caminho de Sumbal até hoje.

A cientista é natural da cidade paquistanesa de Peshawar e chegou ao Brasil em 2012, graças a uma bolsa de estudos internacional que oferecia a pesquisadores de países como Índia, China e Paquistão a oportunidade de se especializarem em suas áreas em outros países. No caso de Sumbal, química e ciências biológicas.

“No Paquistão esse estudo ainda não é bem desenvolvido, e é muito difícil achar oportunidade para estudar fora. Eu e minha família ficamos muito felizes, a maioria das famílias no Paquistão não deixam as filhas estudarem sozinhas fora. Mas a minha família não, porque o meu marido já estava no Brasil em 2011”, conta Sumbal, que destaca as diferenças culturais de seu País em relação ao Brasil.

Para Sumbal Saba, a pesquisa e o incentivo à ela são mais desenvolvidos no Brasil em comparação com o Paquistão | Foto: Leoiran/Jornal Opção

Segundo ela, o fato de uma mulher viajar sozinha para estudar em outro País era visto com receio pela família e pela sociedade como um todo. “Agora mudou muito, mas na época dava problema. Até por causa da segurança, de ‘como ela vai sobreviver em um País estrangeiro’”, detalha. Na ocasião de sua viagem ao Brasil, Sumbal já estava noiva de seu atual marido. O casamento foi concretizado de forma virtual, via Skype. Quando chegou em terras brasileiras, seu esposo já a esperava no aeroporto.

A cientista, que nunca havia estado no Brasil antes, desembarcou em Santa Catarina no dia 1º de março de 2012. Ela narra que chegou aqui sem saber uma só palavra em português e, ao longo do primeiro ano, enquanto aprendia a língua, recebia as orientações de seu doutorado na língua inglesa – a qual domina. No entanto, Sumbal não esconde: “Não foi uma jornada muito leve”. “Por problemas com o idioma. Lá no Paquistão as línguas oficiais são urdu e o inglês, por causa da colonização da Inglaterra. Mas o português é uma língua muito diferente”, destaca.

De aluna a professora

Sumbal Saba concluiu seu doutorado em 2016, e devido à uma cláusula no contrato de sua bolsa, voltou ao Paquistão. Foi quando conseguiu a oportunidade de atuar como professora universitária. Sumbal foi aprovada em um concurso e passou a lecionar na Universidade Federal Shaheed Benazir Bhutto Women University, exclusiva para mulheres.

Lá no Paquistão, existem universidades onde homens e mulheres estudam, mas também existem universidades onde apenas mulheres estudam. Porque ainda tem famílias que não aceitam que mulheres estudem com homens. Eles aceitam a educação, desde que separada dos homens.

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“Então eu trabalhei lá porque, como a minha família me deu suporte e me ajudou, eu tenho como prioridade apoiar outras mulheres”, ressaltou Sumbal, que deu aulas na universidade paquistanesa por 1 ano e 5 meses.

Após esse período, a necessidade de cuidar da família – fator evidenciado na cultura de seu País – fez com que Sumbal deixasse seu emprego como professora universitária e voltasse para o Brasil, onde o marido ainda estudava. “Voltei porque estava casada, nós mulheres temos que pensar na família também. Porque nós mulheres temos muitos problemas na vida, nós temos que pensar pela família também, pelos filhos”, relata.

Porém, novamente no Brasil, Sumbal pôde seguir como docente. A cientista foi aprovada nos concursos da Universidade Federal do ABC, em São Paulo, na Universidade de São Paulo (USP), e na Universidade Federal Fluminense (UFF), mas foi o concurso de 2020, na Universidade Federal de Goiás (UFG), que fez com que Sumbal definisse de vez o lugar que viria a adotar como lar.

Nomeada como professora adjunta do Instituto de Química da UFG (IQ/UFG), Sumbal, que leciona na disciplina de Química Orgânica (área de seu doutorado), completa agora, no início de 2024, seu estágio probatório de três anos, passando a ser, em breve, professora efetiva da instituição.

Sumbal Saba está no Brasil desde 2012, e em Goiás desde 2020 | Foto: Leoiran/Jornal Opção

Acolhida pelo Brasil

Ao Jornal Opção, a professora não esconde seu desejo de ainda poder contribuir, de alguma forma, com seu País de origem, mas bate o martelo: é no Brasil, e em Goiás, que pretende ficar. “Vou continuar aqui na UFG, mas se me der a chance de contribuir com o meu País também, eu gostaria […]. Lá no Paquistão não tem estrutura para fazer análise, então estou fazendo aqui no Brasil. Então eu vou contribuir para o Paquistão, mas por enquanto pretendo continuar no Brasil, porque aqui a minha linha de pesquisa é possível”, diz.

O paquistanesa, que é muçulmana, destaca, inclusive, que foi em terras brasileiras onde mais se sentiu acolhida e onde menos vivenciou o preconceito por conta de sua cultura e religião. “Viemos para o Brasil em 2012. Muitas pessoas me perguntaram ‘por que não ir para os Estados Unidos?’. Nós temos currículos bons, carreira boa, conseguiríamos empregos muito bons lá, mas nós gostamos do Brasil. Porque aqui não tem tanto preconceito quanto nos Estados Unidos, lá é mais”, aponta.

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Por exemplo, eu sou muçulmana, uso o lenço, mas eu não sofri preconceito. Muito pouco, muito raro esse preconceito contra muçulmanos. Nós fomos em muitos países para congressos, como Estados Unidos, França, Itália, Inglaterra, Alemanha, para apresentar nosso trabalho. Lá nós sentimos essa discriminação, principalmente pela religião e pelo nosso país ser o Paquistão. Mas aqui no Brasil, nunca.

Mulher e mãe cientista

Ao longo de sua trajetória na academia, Sumbal teve que conciliar os estudos, o trabalho e os cuidados com a família – assim como a maioria esmagadora das mulheres que decidem construir carreiras e exercer atividades foram do âmbito doméstico.

A professora teve a pequena Laiba em 2021. Desde então, ela teve que se dividir ainda mais entre as obrigações do trabalho com os deveres familiares. É justamente por essa dupla, ou às vezes tripla jornada, segundo Sumbal, que a força de vontade de uma mulher cientista, e que é mãe, precisa vir em dobro. A cientista aponta que há diferenças gritantes de oportunidades e incentivos para homens e mulheres na carreira acadêmica, e que a maternidade representa um desafio ainda maior para a mulher que decide se dedicar a uma área de pesquisa.

Faltam recursos financeiros, especialmente para mães na ciência. Ou mesmo para homens pesquisadores que estejam entrando na carreira. As vezes estão ‘crus’ por falta de oportunidade. As vagas buscam por pesquisadores de nível superior sênior e são orientadas mais para os pesquisadores homens, porque têm diferenças entre pesquisadores homens e pesquisadoras mulheres. Especialmente na ciência, nós temos seis meses de licença maternidade. Depois, cuidar do bebê, nos primeiros três ou quatro anos gasta muito tempo.

Ainda conforme Sumbal, o ideal seria que houvesse mais editais específicos só para mulheres na ciência, ou mães e jovens. “Quando comparam o nosso currículo, tem diferenças, mas nós não conseguimos publicar porque carregamos grandes responsabilidades. Então não tem equidade. É preciso ter diversidade, inclusão e equidade na ciência e na pesquisa para dar espaço para todos no mesmo nível, homens e mulheres, mas principalmente jovens pesquisadores e mães na ciência”, arremata.